O rival com um problema do tamanho do Morumbi

Marco Bello

Setorista do Corinthians desde 2009 pela Rádio Transamérica, Marco Bello acompanha o dia a dia do clube

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O rival com um problema do tamanho do Morumbi

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O rival com um problema do tamanho do Morumbi

O Corinthians tem mais vitórias que o São Paulo no Morumbi: 48 contra 34

Foto: Daniel Augusto Jr. / Agência Corinthians

O Corinthians entrará em campo neste domingo para defender um tabu de oito anos sem perder do São Paulo no Morumbi. A última derrota do Timão foi no dia 11 de fevereiro de 2007. Ao todo, foram disputados até hoje 136 Majestosos no local, e o Corinthians tem mais vitórias que o rival em sua casa: 48 contra 34.

Mas este não é o maior problema do SPFC em relação ao Morumbi...

O São Paulo Futebol Clube construiu seu estádio no final da década de 1950 e início de 1960. O gigante do Morumbi, nomeado Cícero Pompeu de Toledo, foi erguido em uma área então deserta, em processo de loteamento imobiliário.

Fazendo uma comparação com o Estádio do Corinthians em Itaquera, que dizem hoje ser distante e isolado, o Morumbi era duas vezes mais difícil de se chegar, e não havia shoppings, avenidas, casas ou prédios em volta do estádio. Apenas o futuro.

E o futuro se mostrou próspero para o clube tricolor. O bairro cresceu, avenidas foram construídas na região e o estádio foi ficando bem localizado, além de ser considerado moderno e de ótimo tamanho para a época. No mundo todo, os estádios construídos eram locais gigantescos, com capacidade para quase 200 mil pessoas, e ninguém dava muita importância para conforto e comodidade.

Apesar de sofrer dentro de campo até equilibrar as finanças para o término da construção, nas décadas seguintes o São Paulo colheu os frutos do que plantou. Sempre se orgulhava de ter o melhor estádio do Estado de São Paulo. E era!

Todos os grandes jogos eram disputados ali. Todos os clássicos, semi-finais e finais de Paulista, Brasileiro, Libertadores. O Corinthians jogava, o São Paulo lucrava. O Palmeiras jogava, o São Paulo lucrava. O Santos jogava, o São Paulo lucrava.

O recorde de público do Morumbi aconteceu justamente em um jogo do Corinthians, a final do Paulista de 1977, quando mais de 146 mil corinthianos assistiram o confronto contra a Ponte Preta.

O pontapé para uma mudança de rumo aconteceu na gestão Andrés Sanchez no Corinthians. O então presidente alvinegro, ao se desentender com Juvenal Juvêncio, então mandatário tricolor, jurou que jamais mandaria outro jogo de seu clube ali. E o Corinthians assim o fez.

Perdendo talvez seu maior “cliente”, o São Paulo sofreu com renovações de contratos de camarotes e placas de publicidade. A receita despencou. Uma coisa é você vender placas em um estádio que recebe todos os grandes jogos do Estado. Outra coisa é vendê-las para um estádio de uma torcida só.

Mas a situação piorou de vez com a construção de outras três Arenas. Os tempos já eram outros. O negócio agora não era mais o tamanho, mas sim a comodidade. O torcedor começou a ser tratado como cliente. A cidade de Barueri foi pioneira, erguendo uma moderna construção ao pé da Rodovia Castelo Branco.

Depois vieram dois projetos que puseram a pá de cal no castelo tricolor: a reforma do Palestra Itália e a construção da Arena Corinthians em Itaquera.

Receitas foram divididas. Cada clube começou a lucrar à sua maneira. O bem localizado estádio alviverde, inaugurado no final do ano passado, é hoje a casa preferida para os grandes shows. A Arena do Timão foi escolhida para a abertura da Copa do Mundo 2014.

Santos e Portuguesa, quando não podem mandar seus jogos nos também antigos Vila Belmiro e Canindé, usam o estádio municipal do Pacaembu. A situação do Morumbi foi ficando insustentável. O clube, que sempre obteve boa parte de seus lucros com a receita proveniente do local, começou a amargar prejuízos financeiros.

Juvenal Juvêncio então encomendou um projeto de modernização. A transformação de estádio em Arena, com a construção de um local para shows, um grande estacionamento, além da cobertura total das arquibancadas. Uma obra orçada na casas dos 200 milhões de reais.

Por questões políticas internas do clube, a obra não foi votada na gestão Juvenal, a construtora que participaria do projeto desistiu da empreitada, e o grande sonho ficou para a gestão seguinte, do então aliado Carlos Miguel Aidar.

Mas Aidar se desentendeu com Juvenal, o projeto murchou e recomeçou do zero. Hoje, o presidente saopaulino diz aos quatro cantos: “Não sei se esta obra terminará no meu mandato, mas com certeza ela começará enquanto eu ainda for o presidente”. Poucos acreditam nisso.

O Cícero Pompeu de Toledo recebeu melhorias, pequenas reformas internas que melhoraram a comodidade do torcedor. Foram construídas academia, loja, lanchonete, entre outras facilidades. O estádio tentou se adaptar aos tempos na medida do possível. Mas por mais boa vontade que se tenha, não há como comparar um estádio construído em 1960 com outro construído em 2014.

O Morumbi ficou para trás. Daqui 50 anos, os estádios do Palmeiras e do Corinthians também estarão antigos, provavelmente ultrapassados. Mas por pelo menos meio século, se não conseguir reverter a situação, o São Paulo Futebol Clube vai apenas observar seus rivais lucrarem, enquanto obtém prejuízos.

E o torcedor tricolor vai ter que se acostumar a ouvir de corinthianos e palmeirenses, que a sua casa não é mais a melhor casa da rua. A mais chique, a maior, a mais bela. Agora é apenas mais uma casa. Antiga. Que precisa de reforma para continuar em pé.

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Por Marco Bello

Marco Bello é jornalista, apresentador e repórter da Rede Transamérica de Rádio, setorista do Corinthians desde 2009

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