[Maurício Sabará] Botafogo do Bom Retiro e Maria Zélia, celeiros corinthianos

Maurício Sabará

Nascido em São Paulo no dia 12 de janeiro de 1976, jornalista formado e profundo conhecedor da história do Corinthians. Autor do livro sobre ilustre corinthiano: 'O Generalíssimo Amilcar Barbuy'.

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Botafogo do Bom Retiro e Maria Zélia, celeiros corinthianos

Botafogo do Bom Retiro e Maria Zélia, celeiros corinthianos

Equipe do Botafogo do Bom Retiro, tendo Amilcar Barbuy com a bola e Neco aparecendo por último

Foto: Arquivo

O Corinthians fez a Várzea grande ou a Várzea fez o Corinthians grande? Posso afirmar com certeza que um (a) dependeu do outro para se tornar o que é e/ou foi.

Fundado no dia 01 de setembro de 1910, o Sport Club Corinthians Paulista surgiu para ser um time varzeano. Em um espaço de 2 anos, com os resultados obtidos na Várzea Paulistana, percebeu que poderia buscar objetivos maiores, se destacando no elitista Campeonato Paulista, mas sem perder a alma varzeana que lhe vinha do berço.

Quando Charles Miller introduziu o futebol no Brasil na última década do século XIX, foi justamente na Várzea (sempre com “V” maiúsculo) que começou a desenvolver o novo esporte. Não foi a toa que a primeira partida oficial aconteceu na Várzea do Carmo.

Muitas vezes para que uma nova idéia possa se desenvolver é necessário que clubes com maiores condições financeiras possam ajudar. Sendo assim os primeiros times paulistas de destaque no início do século XX eram elitistas, como o SPAC, Paulistano, Germânia (da colônia alemã) e Mackenzie. O Paulistano, por exemplo, nunca teve o costume de selecionar seus jogadores dos campinhos de terra, mas sim dos colégios mais ricos da capital paulista.

Todos sabem que, diante tal realidade, o Corinthians foi uma revolução, mas se engana quem pensa que apenas por si mesmo conseguiu um crescimento tão rápido. Houve um time do Bairro do Bom Retiro que foi uma fábrica para a equipe corinthiana, inclusive dando de presente os dois primeiros grandes jogadores do clube.

Para muitos o Botafogo do Bom Retiro foi a mais poderosa de todas as equipes varzeanas, sendo conhecido como o Galo da Várzea. No início dos Anos 10 do século XX era a sensação dos campos varzeanos, com um esquadrão muito forte que impunha respeito aos adversários. Grandes valores foram forjados em sua base, alguns deles se tornando astros do futebol paulista e brasileiro. Mas além de ter fama de ser uma equipe talentosa, seus jogadores eram conhecidos como brigões, não sendo rara a intervenção da polícia em muitas das confusões que se envolvia, tanto é que a sede acabou sendo fechada.

Entre os anos de 1910 e 1916 muitos dos seus jogadores atuavam também no Corinthians, sendo que alguns deles permaneceram definitivamente no novo clube. Destaco importantes nomes como os dos halfs (laterais) Pollice e César Nunes, o goleiro Pizzocaro, o meia-esquerda Apparício e de mais dois que se tornaram a referência corinthiana durante 10 anos.

Obviamente que Amilcar Barbuy e Manoel Nunes (Neco) foram os principais jogadores que passaram a fazer parte do quadro corinthiano, pioneiros em atuações pela Seleção Paulista e Brasileira.

Amilcar já tinha uma história em times varzeanos, tendo atuado em equipes como o Galopino, Guaianazes e Belo Horizonte. Chegou ao Corinthians no final de 1912 com uma ótima base.

E Neco, irmão de César, também atuou pelo Botafogo, já fazendo parte do terceiro quadro corinthiano em 1911 e também jogando pelo Galo da Várzea.

Praticamente 30 anos depois que o Botafogo do Bom Retiro alimentou os quadros corinthianos, outro time varzeano teria grande contribuição para que o Corinthians se usufruísse de grandes valores para sua base.

A Vila Maria Zélia surgiu em 1917 graças ao empreendimento do empresário carioca Jorge Street. Localizada na Rua dos Prazeres, no bairro do Belenzinho, desde 1912 iniciaram suas construções. Surgiu assim uma das primeiras Vilas Operárias do Brasil, onde seus moradores, que trabalhavam nas fábricas, formaram uma verdadeira família, considerando Street uma espécie de pai. Serviu inclusive de cenário para o filme “O Corinthiano” de Amácio Mazzaropi.

Durante os anos seguintes a Vila funcionou a pleno vapor. Até que no dia 20 de dezembro de 1935 foi fundado o seu time, que obviamente seria conhecido como Maria Zélia, usando camisa branca e calção preto.

Time do Maria Zélia com Zequinha Rubinato, Guerino Vedolin e Roberto BelangeroTime do Maria Zélia com Zequinha Rubinato, Guerino Vedolin e Roberto Belangero

No início dos Anos 40 sua equipe juvenil, comandada pelo argentino Dante Pietrobon, era a sensação nos jogos varzeanos, derrotando todos os adversários que ousavam enfrentá-la.

Elisiário Petrus, do Jornal “O Esporte”, vendo o sucesso do time, quis saber de Dante porque o Maria Zélia não enfrentava também as equipes juvenis dos times profissionais. O treinador disse que se ele fizesse a propaganda enfrentaria sim.

Pouco depois, conforme o prometido, Elisiário fez a campanha dizendo que o Maria Zélia desafiava os principais times para um confronto, com convites surgindo e todos sendo vencidos em seu próprio campo. Palmeiras, São Paulo, Ypiranga e Juventus, todos com fortes quadros, não resistiram à força daquela brilhante equipe do Belenzinho.

Quem fez o último convite foi justamente o Corinthians que, sabendo do potencial do adversário, escalou também jogadores reservas do time principal, com a partida ocorrendo no Parque São Jorge, início de 1943 ou 1944, estando lotado o estádio. O presidente era o Alfredo Ignácio Trindade, em sua primeira gestão, que viu a brilhante vitória do Maria Zélia por 4 a 0, talvez a derrota mais significativa da história corinthiana. Trindade não se conteve, entrou no campo e disse aos jogadores que eles não iriam embora, pois estavam todos contratados.

Para se ter uma idéia da importância da base corinthiana dos Anos 40, fizeram parte dela nada mais nada menos que 14 jogadores do Maria Zélia. Veio de uma só vez o Zequinha Rubinato, os irmãos Vedolin (Attílio e Guerino), Newton Albertini (Tinim), Paulo de Almeida, Nelson Caruso, Pedrinho Leandro, Milton Pimentel (Miltinho), Roberto Aiello, Valussi (futuro árbitro Anacleto Pietrobon), Nardo, Colombo, Roberto Belangero e Luizinho Pequeno Polegar. Dos citados, apenas Valussi, Colombo, Nardo, Luizinho e Roberto deram continuidade no time profissional, destacando os dois últimos com uma brilhante passagem na equipe de cima do Corinthians dos Anos 50. Quem também surgiu do Maria Zélia foi o elegante meia-esquerda Rafael Chiarella, que jogaria no time principal corinthiano a partir de 1953.

Alguns pensam que foi o time do Maria Zélia dos Anos 40 que conseguiu a histórica invencibilidade de 289 jogos sem perder. De fato foi sua equipe mais famosa, mas a série foi obtida entre 1961 e 1967, que tinha um jogador conhecido como Tôni, atuando como zagueiro e lateral-esquerdo. Segundo o amigo morador da Vila, Pedro Luiz Boscato, grande conhecedor do futebol do passado, tinha uma habilidade incomparável com a bola nos pés.

Botafogo do Bom Retiro e Maria Zélia não se tornaram o que é o Sport Club Corinthians Paulista. Mas seu legado deve ser conhecido por todos os corinthianos, sabendo que duas de suas décadas mais gloriosas (20 e 50) não foram construídas apenas pelo Corinthians, mas através de heróis, conhecidos e desconhecidos, que tiveram contribuição para forjar ainda mais o espírito guerreiro do time.

Coluna do Maurício Sabará Markiewicz

Por Maurício Sabará Markiewicz

Nascido em São Paulo no dia 12 de janeiro de 1976, jornalista formado e profundo conhecedor da história do Corinthians. Autor do livro sobre ilustre corinthiano: 'O Generalíssimo Amilcar Barbuy'.

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