Nem posso imaginar que vida eu teria se não fosse o Corinthians

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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Nem posso imaginar que vida eu teria se não fosse o Corinthians

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Nem posso imaginar que vida eu teria se não fosse o Corinthians

Corinthians comemora 109 anos nesse domingo

Foto: Reprodução / @eterno.futebol

Nem posso imaginar que vida eu teria se não fosse o Corinthians.

É bem verdade que ao longo dos anos doei boa parte dos meus esforços, do meu dinheiro, do meu tempo livre (e do tempo que não estava livre também).

Foram dias e noites. Aniversários que não compareci, dia das mães, dos pais, dos namorados, trabalhos que fiz de qualquer jeito, pois não conseguia pensar em outra coisa que não fosse o Corinthians.

Quantas semanas fiquei imprestável. Preocupado com o jogo do domingo. Eufórico com uma vitória anterior. Amargurado por alguma derrota.

Quanto tempo dedicado vendo jogos antigos. Quantas horas de conversa frouxa e descompromissada ouvindo as histórias fantásticas dos corinthianos antigos.

Quantas vezes até esqueci que o Corinthians tinha jogo de futebol, tão encantado com a história fora das quatro linhas. O sonho de um povo. Uma aventura louca foi o Corinthians.

Sim, eu me doei bastante nos meus anos de vida corinthiana.

Mas não dá nem pra comparar com o que recebi de volta.

O Corinthians me deu muito.

O Corinthians fez o que eu sou hoje. O Corinthians me construiu.

As coisas mais lindas que alguém pode viver nessa experiência terrena o Corinthians me deu de presente.

Aprendi muito com o Corinthians.

Fiz amigos, tive amores carnais, o amor de uma mulher. Fiz novos negócios, contatos de trabalho.

Passei horas que somadas são um bom pedaço de vida no sofá ao lado do meu pai assistindo o Corinthians jogar. Quantos almoços e bolos minha mãe fez pra forrar o nosso estômago que seria exigido com tanto frio na barriga.

Quantas vezes vi minha casa enfeitada pra celebrar o Corinthians.

Agora as crianças todas no domingo. Família grande. A criançada em casa é toda corinthiana. Primeiro porque tá no sangue, segundo porque é obrigação, terceiro porque criança gosta mesmo é de zoeira.

O Corinthians me ensinou a conversar com todo tipo de gente. O menino meio isolado que não conseguia interagir muito com os moleques da sua idade, o rapaz meio maluco da cabeça aprendeu a se relacionar, superar a timidez, ser agradável.

Os laços de solidariedade que o Corinthians sedimenta me proporcionou abraçar o lixeiro, sentar na calçada pra bater papo com o morador de rua, conhecer políticos, empresários, juízes, a ganhar amizade e respeito dos meus chefes.

O Corinthians me ensinou a ser mais humilde. Porque o Corinthians é uma síntese da humildade. A gente vive a vida como o Corinthians joga o jogo. Toda vez que o Corinthians perde a humildade, se fode depois. Eu levei isso pra minha vida. Aprendi a não cuspir pra cima. A enfrentar os maiores desafios com garra e perseverança. A não me intimidar. Aprendi a não menosprezar os desafios aparentemente fáceis. Aprendi a não desprezar as pequenas vitórias do dia a dia. Aprendi a superar as adversidades. Aprendi a conquistar o mais difícil. A jogar por uma bola. A jogar fechadinho, segurando a pressão cotidiana, resistindo firme quando a derrota parecia ser inevitável. Aprendi a esperar a oportunidade certa e, de repente, num contra ataque fazer o gol da vitória!

O Corinthians me ensinou a escrever. Só aprendi a escrever por causa do Corinthians. Sim, porque não existe escrever bem. O Corinthians me emocionou bem. Me encheu de poesia. Me espiritualizou. Me deu substância. Me fez sentir coisas lindas. Me fez transbordar de amor. A ter que colocar pra fora tudo o que estava sentindo.

Um dia recebi uma mensagem de um amigo que disse ter lido o meu texto do "Vai Corinthians" para o pai dele, vivendo seus últimos dias num leito de hospital. O pai não reagia tanto. Com a leitura, seu pai apertou a sua mão. Chorou. Eles se beijaram. Depois o pai partiu em paz para uma experiência superior, levando consigo o amor pelo Corinthians.

Sim, eu vivi isso com o Corinthians também.

E também vou levar dessa vida esse amor.

Para outros planos. Para o universo.

Segundos antes de partir, sei que me virão flashes das cenas lindas que vi com os meus olhos amando o Corinthians. Não sei se existem outras encarnações. Mas caso existam, pediria a

Deus para em todas elas nascer corinthiano.

Esse clube fundado por trabalhadores humildes agora faz aniversário.

Peço a Deus que olhe pelo Corinthians. Alguns podem achar que é pecado dizer isso.

Mas eu sei que não é.

O Corinthians é muito mais do que um time de futebol.

É uma janela por onde muita gente aprende a ver a vida. O Corinthians tem uma importância simbólica. Ainda mais nesse momento de tanto ódio, o Corinthians é amor! É solidariedade! É convergência! És do Brasil o clube mais brasileiro. O Corinthians é igualdade, é pertencimento, é inclusão e é democracia.

O Corinthians é a chance de experimentar felicidade pra muita gente que não tem tanta chance de sorrir.

Por mais séculos e séculos, Vai Corinthians.

Feliz aniversário, amor da minha vida.

Aqui é Corinthians!

Veja mais em: História do Corinthians.

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Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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