Crônicas sobre o primeiro Mundial de Clubes do Corinthians

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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Crônicas sobre o primeiro Mundial de Clubes do Corinthians

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Crônicas sobre o primeiro Mundial de Clubes do Corinthians

Primeiro título mundial do Corinthians completa 18 anos

Foto: Crédito: doutoresdofutebol.blogspot.com.br

Cresci ouvindo dos mais velhos as histórias fantásticas de jogos e craques do passado. Eu adorava ouvir os grandes feitos, pareciam contos mágicos que nunca mais poderiam ser alcançados por nenhum mortal.

É bem verdade que em muitas dessas histórias os finais não eram tão felizes. Os feitos do maior jogador de todos os tempos eram sempre maiores quando o Pelé enfrentava o Corinthians. Ouvia sempre isso do meu pai. Que o jogo estava ganho, daqui a pouco o Pelé resolvia jogar e acabava com a gente. Outra ferida foi o título perdido que estava ganho em setenta e quatro contra o Palmeiras. Eram histórias assombrosas, mas que não me assustavam. Eram absolutamente fantásticas, até pela tragédia.

Mas também havia histórias felizes. O dia da quebra do tabu contra o Santos, a invasão no Maracanã em setenta e seis e o título de setenta e sete sempre foram as minhas preferidas. Quando não era para o meu pai, pedia para outro corintiano mais velho repetir mais e mais histórias do passado. Cada um me contava sob um ponto de vista e eu formulava à minha maneira como tudo havia se passado. Era capaz de contar em detalhes, como se estivesse presente as histórias de um tempo em que eu nem havia nascido.

“O tempo passa!”, dizia o antigo narrador. Hoje eu tenho a idade de um jogador recém aposentado. Tenho a idade do Fenômeno. E quase o mesmo peso.

Acordei. Olho no calendário e hoje é dia 14 de janeiro de 2018. Fiquei feliz. Agora eu tenho a minha própria história do passado para contar. Não é um passado tão distante na minha memória, mas já faz dezoito anos que o Corinthians foi campeão do mundo.

A conquista do campeonato mundial foi somente um dos feitos daquela sexta-feira. No mesmo bojo estava à consagração final de um time recheado de craques, um time extremamente técnico, um dos melhores que já tivemos. Talvez o melhor de todos. Outro feito tão grande quanto o título foi a nossa segunda invasão dessa vez com cerca de trinta e cinco mil doentes. Foi o suficiente para dividir o estádio ao meio com a torcida do Vasco.

Alguns podem subestimar uma final de campeonato mundial contra o Vasco, mas acontece que aquele time tinha mais craques que muitas seleções de hoje em dia. A começar pelo Romário jogando tudo o que sabia. Havia também outros como Edmundo, Juninho Pernambucano, Gilberto, Mauro Galvão, Felipe e Elton. O Viola era banco.

Havíamos jogado contra o Real Madrid. O Edilson fez o que quis no meio das pernas de um zagueiro meio torto que em retribuição à atitude dele quanto ao Edilson antes do jogo, resolvi esquecer o nome dele. O Dida parou o Anelka defendendo mais um pênalti. Mas, verdadeiramente, o time do Vasco era bem melhor do que o Real Madrid de 2000. Ainda mais jogando em casa.

Tínhamos que ir ao Rio. Nossa turma era grande e assistíamos a todos os jogos do Corinthians de corpo e alma presentes. É uma tradição que naqueles anos de glória não era tarefa ingrata. Já éramos bicampeões brasileiros com sobra. Nosso esquadrão seguramente enfrentaria em igualdade de condições qualquer time do planeta. Era tomar uma cerveja na porta do estádio, entrar no campo e esperar o Corinthians trucidar qualquer oponente. Nunca foi assim na nossa história. Esse era o nosso momento, sabíamos disso. Depois do jogo era só comer o pernil da Julieta dando risada com mais meia dúzia de latinhas. Rotina gostosa.

Pois bem, tínhamos que ir ao Rio. Seria o grande dia. O Palmeiras havia perdido o intercontinental para o Manchester United, o que foi tão divertido quanto o bicampeonato nacional. Estávamos animados e confiantes.

Eu e mais dois amigos fomos um dia antes de ônibus. Estávamos ansiosos e seria bom curtir o dia de praia no Rio. Ficamos hospedados no apartamento de outro amigo mosqueteiro em Ipanema.

Quando acordamos fomos à praia. No caminho já víamos camisas do Coringão aqui e ali. Entrei no mar com o short do Timão. Alguns flamenguistas nos incentivavam na areia, implorando que ganhássemos. Era um dia de sol escaldante no Rio em janeiro. O mar tentava, mas não conseguia aliviar a tensão que tomava nosso corpo e mente. Iemanjá bem que tentava, mas o dia era de São Jorge.

Na volta da praia paramos para almoçar. O restaurante já estava repleto de missionários alvinegros. Não havia outro assunto possível no Rio de Janeiro. Em todas as mesas e balcões o assunto era a final do Mundial.

Às duas da tarde chegou a turma do avião. A nossa estava agora completa, sem desfalques. Nos somávamos a outros milhares de peregrinos que viajaram no mínimo 450 quilômetros.

Pegamos três táxis para que coubéssemos todos. O carro em que eu estava pegou uma “rota alternativa” para lhe garantir uma tarifa mais alta. Essas coisas acontecem em toda parte, mas digamos que no Rio de Janeiro ocorre com maior frequência. Nossa preocupação era bem maior do que os dez reais a mais no preço da corrida. Queríamos chegar no horário. Descemos no meio do caminho alternativo e fomos andando.

Passamos disfarçados no meio da torcida do Vasco. Demos a volta no estádio e chegamos ao território corintiano. Não encontrávamos o resto da galera. Queríamos assistir ao jogo todos juntos. O amigo corinthiano entende o valor da amizade e entende também a importância de certas superstições. Na verdade, estávamos com um puta cagaço de quebrar a tradição dos últimos anos e que isso desencadeasse um processo cósmico que viesse a atrapalhar o desempenho do Corinthians naquele dia.

De repente caiu uma tempestade monumental como o Maracanã. Sinceramente, não sei de onde surgiu aquela tempestade com relâmpagos, trovões e uma ventania infernal. Quando nos encontramos com o resto da tropa estávamos todos entrando no estádio em meio a muita água. Era uma fila interminável de corintianos.

Subir a rampa e entrar no Maracanã é (ou era?) uma das coisas mais lindas que se pode fazer nessa vida terrena. Quando chegamos à arquibancada a chuva havia partido tão rápido quanto surgido. Tudo era fantástico. Parecia com aqueles sonhos malucos.

Havia tantos corintianos que nós ficamos do lado oposto ao da maioria. Éramos cercados por dois gomos do estádio repletos de vascaínos. Para irmos ao banheiro era tenso. Ainda que fôssemos sem camisa, dava pra ver a nossa cara de paulista. Ou melhor, a cara de corinthiano.

Entretanto, havia ao menos um benefício. Tínhamos uma visão completa da torcida do Corinthians que ocupava metade do estádio. O nosso pedacinho era uma invasão malcriada, uma afronta.

A torcida do Vasco cantava alto antes do jogo. A torcida do Corinthians estava atenta. As cantigas vascaínas eram animadas. Ao chegar perto das dezoito horas, vi a cena mais fantástica da minha vida. No auge da gritaria luso-carioca, levantamos um bandeirão. Aquele bandeirão famoso e eternizado. Ocupava um quarto do Maracanã. Levantou-se imponentemente. Subia sem pressa, seguro de si. Pronto. A bandeira com o lema: humildade, lealdade e procedimento. Um Gavião estampado fazia sinal de silêncio com sua unha à frente do bico. O silêncio se fez.

Não é força de expressão, eu juro. Tem mais um montão de gente que pode jurar. Tem fitas e DVD para provar. A torcida do Vasco se calou. Sinceramente, não acho que foi por temor, mas eu acho que foi por admiração. Uma reverência mesmo que escondida nas entranhas do subconsciente de cada vascaíno. A torcida do Vasco se calou. Nós, do outro lado do estádio aplaudimos. Estávamos numa espécie de numerada bem no centro do campo e havia muitos turistas no estádio. Os aplausos ultrapassaram nossas fronteiras e na numerada vascaína também pôde se ouvir algumas manifestações de admiração. A nossa era de euforia.

Um grito era consagrado e uma expressão consolidada: Todo Poderoso Timão! Só se ouvia isso no estádio. Todo poderoso timão. Há todo momento gritávamos isso e quando o time entrou em campo estava em casa. E que time. O Goleiro era o Dida. Havia defendido quatro pênaltis seguidos, incluindo dois do Raí na semifinal do Brasileirão. O lateral direito era um índio. O Índio era ruim, mas era bom. Sabia de suas limitações e não comprometia. A dupla de zaga era recém contratada. Fábio Luciano e Adilson. Ambos jogaram bem, mas o Fábio Luciano se consagrou depois. Tinha o jeitão do Corinthians. O Lateral esquerdo era o Kleber, bom de bola e jogava muito pela esquerda com lances coordenados. Do meio campo pra frente eu não quero comentar muito. Rincón, Vampeta, Marcelinho, Ricardinho, Edilson e Luisão. Precisa dizer mais alguma coisa?

Embora a grande maioria desses jogadores tenham tido um triste fim, a história de hoje é alegre e quero ressaltar que além desse time ter sido o campeão do mundo, era também, naquele período, o melhor time do planeta Terra.

O jogo era estudado. Os dois times eram muito bons. A arma do Vasco era o contra-ataque rápido com toques envolventes e a conclusão mortal de Romário. O Corinthians, portanto, não se lançou afoitamente. Tocava a bola com calma, regido pelo maestro Rincón, o capitão. No tempo normal chegamos várias vezes no gol adversário e o grito de gol ficou entalado na garganta.

Nossa torcida não parava de gritar. O Todo Poderoso respondia com segurança dentro do campo. Aquele era um time maduro. Dizem que ninguém naquele grupo se gostava, mas tinham um objetivo em comum e todos eram inteligentes o suficiente para controlarem os ímpetos irracionais. Pelo menos dentro de campo. Cada um sabia onde o outro estava colocado e o time era muito entrosado.

A prorrogação era por morte súbita. Tinha muito medo da morte. Passei muito mal durante aquela meia hora. Recordo-me mais daquele período do que do tempo normal inteiro. Lembro também que meu estômago doía e minhas mãos suavam muito. Nunca tinha visto a palma da minha mão transpirando desse jeito.

Teve uma bola em que o Juninho ficou cara a cara com o Dida. Quase morri, mas o Juninho cruzou para ninguém, não sei o porquê, mas não quis chutar. Essa camisa pesa e a torcida faz tremer. Decidi que seríamos campeões quando o Romário foi vencido pelo Fábio Luciano. Vou narrar: Jogada típica do Romário. Ele para. frente à frente com o marcador. Dá um drible curto e um chute de bico no canto, o goleiro nunca pega. Ele tentou, mas no meio caminho, dentro da grande área o Fábio Luciano deu um carrinho. Em meio segundo olhei para o juiz esperando o pênalti, mas o nosso zagueiro foi na bola. Não teve como o Romário cavar. Jogada limpa.

Vamos aos pênaltis. Por incrível que possa parecer fiquei mais tranquilo essa hora. O Dida estava numa fase esplêndida e eu tinha como certo que alguns deles tremeriam na hora da cobrança e venceríamos. Os pênaltis foram sendo acertados pelos dois lados até que chegou a vez do Gilberto. Bola na marca. Bateu no canto esquerdo de Dida. Defesa. Perderam. Nossa redenção estaria próxima. Abraçamo-nos brevemente porque viriam outras cobranças em posterior.

Agora seria o último pênalti. Marcelinho, o cobrador oficial do time. O jogador com mais títulos na nossa gloriosa história, o pé de anjo. Caberia a ele selar nosso final feliz. Naquele momento lembrei que o Marcelinho havia jogado mal todos os jogos do mundial, mas ele faria esse gol com certeza. Partiu para a bola meio descompromissado, bateu mal. Perdeu. O Elton pegou com relativa facilidade. Ah, não. Descobri um flamenguista ao meu lado. Puxou-me pela camisa e me cobrou: ”Como é que tu perde esse gol, rapá?”. Não sabia o que responder.

Ficamos apreensivos, mas o Dida ainda estava lá. E eu sabia que alguns (no plural) deles perderiam o pênalti. Quem vai cobrar? O Edmundo. Grande filho da puta, porco fedido, menosprezou nossa camisa e nunca deveria ter pisado em solo abençoado por São Jorge. Olhamo-nos uns aos outros. Os torcedores do Corinthians passam a dar as mãos como uma corrente possível de interferir nas escolhas dos Deuses do futebol. Prefiro cruzar os dedos. Grito alto: esse filho da puta vai perder. Ele merece se foder. Ele vai perder. Ouço de longe um “cala a boca” correu pra bola, bateu. A bola voa longe, bem longe. Até hoje ninguém sabe onde ela pousou. Assim que ultrapassou o lado esterno das traves não havia mais volta.

Gritos e pulos subsequentes e incessantes. Ah, o Corinthians é campeão do mundo. Meu Deus. Ganhamos. Estamos aqui, longe de casa, sofremos tanto que estávamos tão exaustos quanto os jogadores. Mas ganhamos. O Corinthians é o maior do mundo. Não paro de pular. Os mais velhos também estão em transe e vibram como crianças. Chorei. Na verdade, choramos todos. Era a realização de um sonho. Uma afirmação da nossa oração que diz em um de seus versos: Corinthians Grande!

A torcida do Vasco vai embora. O Maracanã é nosso. Como é lindo o Maracanã. Como eu amo esse estádio, mesmo sendo um paulistano da gema. O Maracanã fica mais lindo ainda quando o bandeirão volta a ser estendido. Que cena linda. Que dia feliz. Acho que se o Maracanã pudesse falar, perguntaria: “Por que essa torcida fica tão longe e só vem me enfeitar de vez em quando”. Se o Maracanã tivesse corpo desejaria que essa torcida fosse a sua roupa de gala. Se tivesse rodinhas pegaria a Via Dutra naquele mesmo dia e se estabeleceria em qualquer lugar da Zona Leste de São Paulo. Seria um casamento eterno. A torcida mais fanática do mundo não tinha estádio, até porque não seria qualquer um que teria capacidade de abrigar tanta gente e tantas emoções. A torcida fiel viveria feliz para sempre com um Maraca só pra ela. Foi a segunda relação de amor, na primeira em setenta e seis, fomos os únicos a praticar aquele feito. Invadimos. Dessa vez, passamos a escritura, para sempre. Registrada: CORINTHIANS, PRIMEIRO CAMPEÃO MUNDIAL DE CLUBES. FIFA 2000.

O Rincón recebeu a taça do presidente da FIFA. Ergueu para o alto. Pensei: quando eu era criança diziam muita coisa sobre o ano 2000, até que o mundo acabaria. O ano 2000 apenas começara e tive um acréscimo de fé no futuro. No ano 2000 recebemos a confirmação divina de que a história dos homens poderia ser repleta de felicidade e alegria.

Veja mais em: Jogos Históricos e História do Corinthians.

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Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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