É hora de brigar por uma receita crucial para a Arena: a cerveja

Roberto Piccelli

Roberto Piccelli é advogado atuante em direito público e escreve sobre temas jurídicos e institucionais relacionados ao Corinthians.

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É hora de brigar por uma receita crucial para a Arena: a cerveja

Na Copa do Mundo, a Fifa faturou até com a venda de copos estilizados na Arena Corinthians

Foto: Divulgação

Enquanto vários lugares do mundo já sentem os benefícios da descriminalização do uso de drogas, o futebol brasileiro, na vanguarda do atraso, permanece refém da proibição da cerveja nos estádios.

A justificativa recorrente é a violência associada folcloricamente ao consumo de bebidas alcoólicas. Quem frequenta estádio sabe, porém, que a proibição não é nada eficaz. O torcedor acaba bebendo em quantidade maior fora do estádio para compensar a seca de dentro, quando não leva consigo entorpecentes mais fáceis de ocultar da fiscalização na entrada.

Ou seja, mesmo que se admitisse como verdadeira a relação entre o consumo de substâncias inebriantes e a agressividade, ainda assim a proibição da cerveja dentro das arenas seria contraproducente. Tanto é verdade que, anos depois de proibida a cerveja, seguimos vendo histórias de barbárie, dentro e fora dos estádios.

Por outro lado, entre as vantagens da liberação para o futebol estariam o aumento das receitas e a melhora da experiência do torcedor. O Corinthians, por exemplo, teria uma fonte adicional importantíssima de receita. Quantos torcedores não estariam dispostos a gastar um pouco a mais para poder refrescar-se durante as partidas? O leitor que faça as contas, de acordo com a média de público do clube, e notará quanto dinheiro estamos perdendo.

Na cidade de São Paulo, é vedado vender bebidas alcoólicas nas arenas de futebol desde 1997, quando o então Prefeito Celso Pitta, em meio a recorrentes episódios de violência bombardeados pela imprensa sensacionalista, resolveu impor a proibição. Os objetivos da lei nunca foram atingidos, mas mesmo assim, de lá pra cá só houve uma trégua durante a Copa de 2014, por conta de uma outra lei municipal de efeitos temporários.

O Estatuto do Torcedor, lei federal, não trata desse assunto expressamente. Até estabelece que o torcedor não pode “portar objetos, bebidas ou substâncias proibidas ou suscetíveis de gerar ou possibilitar a prática de atos de violência”. A cerveja, porém, não gera nem possibilita diretamente atos de violência. E assim, por exemplo, a Bahia já permite que o torcedor beba na Fonte Nova, como acontece, aliás, em quase todos os países em que o futebol é organizado e forte.

Nas Olimpíadas, não houve condições de aprovar uma nova suspensão por lei municipal. Ainda assim, a Prefeitura sustenta que a Lei Geral das Olimpíadas, que é federal, garante a liberação em todo o território nacional. A tese é bem furada: a Lei do Pitta segue vigente por aqui e agora, por ordem judicial, a cerveja deve continuar vetada inclusive durante os eventos olímpicos.

Seja como for a situação nas Olimpíadas, por que a Prefeitura mudou a lei durante a Copa do Mundo e agora se esforça para liberar a cerveja na RIo-16, mas não age para mudar a regra em definitivo? Porque o Comitê Olímpico Internacional e a FIFA, sabedores da importância da bebida para o futebol, pressionam politicamente. Já os clubes interessados, têm sido omissos nessa discussões há um bom tempo. Deixam assim que os velhos chavões continuem prevalecendo.

Não dá pra entender como o Corinthians, bastante apertado com as contas do estádio, não aproveita o precedente bem-sucedido da Copa do Mundo e dos Jogos, enquanto durou a liberação, para propor imediatamente uma mudança na lei paulistana.

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Roberto Piccelli é advogado atuante em direito público e escreve sobre temas jurídicos e institucionais relacionados ao Corinthians.

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