De promessa a realidade: Divisões de base no Corinthians

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De promessa a realidade: Divisões de base no Corinthians

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De promessa a realidade: Divisões de base no Corinthians

Wladimir: feito em casa

Foto: Lemyr Martins

A expectativa sobre os jogadores de base é muito grande, seja no Corinthians ou em qualquer outro clube. Para ajudar, o baixo nível do futebol brasileiro como um todo aumenta a pressão por novidades no futebol.

Conversei com um profissional que trabalha com futebol de base há um bom tempo com passagem por grandes clubes brasileiros, hoje trabalhando com captação de talentos; não tem ligação com o Corinthians. Falamos por uma hora ao telefone sobre a formação de atletas, transição para o profissional e promessas passadas e presentes da base corinthiana.

Qual é a vantagem de contratar um jogador de base com mais de 16 anos, e como se compara a ter o jogador desde os 10 anos?

A grande vantagem de ter o atleta desde cedo é em relação à evolução dele. O atleta formado no clube desde cedo já está adaptado ao clube e se desenvolve melhor por esta adaptação. Ele conhece a filosofia do clube, tem um ambiente favorável, tem amigos da sua própria equipe e conhece os membros da comissão técnica. No entanto, muitos jogadores que tiveram uma grande performance nas categorias inferiores param de evoluir ao chegar à sub-17 ou à sub-20, categorias muito competitivas. Apesar disso ser normal, o clube não pode se conformar com essa situação, então traz jogadores de 15 ou 16 anos para suprir estas lacunas; de preferência buscam jogadores mais prontos que podem entrar diretamente na sub-17. Já no sub-20, isto envolve um pouco mais de dinheiro e cuidado na seleção, mas ainda assim mais barato que trazer um jogador que está atuando no profissional.

A diferença em si é essa: o jogador pode parar de evoluir ao chegar às categorias superiores e todo o investimento nele é perdido. Então às vezes vale a pena trazer um jogador mais pronto, que já foi testado e a margem de erro é menor. Obviamente, isto tem um preço.

No Corinthians, é comum no primeiro contrato do jogador o clube ficar com 70% dos direitos econômicos, enquanto o jogador mantém 30%. Isto é comum no mercado ou acontece apenas no Corinthians?

Na verdade, alguns clubes trabalham com margem até maior. Por exemplo, o Atlético-PR fica com 60% e o jogador com 40%; a diferença é que lá não se aceita a interferência de intermediários, se trata diretamente com o jogador para evitar ficar refém de empresários. É comum o jogador repassar "sua" parte para um investidor. Também deve ser dito que praticamente nenhum jogador chega a um clube sem ninguém, os empresários vem a tiracolo. Os clubes acabam tendo que fazer esta composição para ter jogadores, especialmente os melhores.

100% de um jogador é utopia então?

Infelizmente é muito difícil, a não ser que o clube compre esta participação do atleta. Hoje é mais fácil o empresário comprar a parte que o clube tem do atleta que o contrário. E mesmo que o clube possa comprar esta parte que pertence a terceiros, é um risco: o atleta ainda não disputou uma taça, não jogou no profissional... O primeiro contrato é assinado quando o jogador tem 16 anos. Neste contrato, o clube acaba refém de empresários e jogadores e tem que ceder parte dos direitos. Este contrato costuma terminar por volta dos 19 anos e temos casos como o de Matheus Cassini. (N.E. com o fim do contrato se avizinhando, ele forçou sua saída por não acreditar que teria oportunidades - pelo menos foi o que disse - e acabou saindo por um preço relativamente baixo.)

Parece que temos uma categoria sub-17 muito boa. Se pudesse escolher cinco jogadores, quais você acha que terão sucesso?

Essa geração 98 do Corinthians vem trabalhando há um bom tempo junto e tem ótimos valores.

Léo Jabá já está no Corinthians há muito tempo, é artilheiro e já foi destaque de muitos campeonatos junto com Matheus Pereira. Eles certamente já receberam muitas propostas para sair do clube e são exemplo de jogadores criados no Corinthians que acabaram vingando.

Samuel Marinho é um lateral direito de muita força e velocidade; tem um bom biotipo e muito espaço para crescer, além de ser de uma posição que tem poucos no país jogando bem. Renan Areias é um volante raro, que marca firme, passa bem, usa muito bem as duas pernas, tem ótimo senso de cobertura. Nesta posição é um dos jogadores mais completos do Brasil nesta idade, titular da seleção brasileira sub-17. Para terminar, Eu gosto muito do zagueiro Léo Santos, é alto mas veloz, marca duro, tem ótimo pé esquerdo e terá bom futuro se bem trabalhado agora.

(O Corinthians tem apenas 5% de Matheus Pereira. A porcentagem de outros jogadores provavelmente é de 70%)

O que aconteceu com os jogadores que venceram a copinha de 2012, porque tão poucos vingaram?

Este é um caso de time cheio de eternas promessas que ainda deram azar de subir quando o Corinthians tinha um elenco muito forte, um dos melhores da América.

O Léo era uma das maiores promessas da base, muito badalado. Ele infelizmente perdeu o foco na transição quando subiu em 2013 e não aproveitou suas oportunidades. Era para ser um dos maiores jogadores da sua geração e agora está no Paysandu. (Léo tem contrato até julho de 2017)

Destes jogadores o melhor de todos era o Marquinhos (hoje no PSG), que teve que disputar posição com jogadores experientes e em boa fase como Paulo André, Chicão e Leandro Castán. Esta situação em conjunção com propostas do exterior acabaram ocasionando sua saída. (só o caso Marquinhos vale uma coluna)

Douglas Tanque fazia gols de todo jeito na sub-16, mas não se tornou o artilheiro que se esperava. Leandro era horrível.

Outros destaques como os "futuros meias do Corinthians" Giovanni Piccolomo e Matheuzinho tiveram espaço bastante reduzido. Giovanni não conseguiu destaque nos vários times que passou e hoje é reserva no Atlético-PR. Matheuzinho fez um bom Paulista pelo Audax mas ainda está bem aquém das expectativas.

Veja o caso do Nikão: saiu do Santos em baixa, não se deu bem na Ponte Preta e agora começa se firmar no Atlético-PR. Como o time paranaense tem pressão de torcida e mídia muito menor, ele teve condições de desenvolver seu futebol e pode crescer.

E o Malcom, é um exemplo de jogador completo ou deu sorte de entrar no time?

O Malcom sempre foi diferenciado. No sub-17, já jogava em um time muito forte e já era destaque mesmo com um ano a menos. Acho que ele é o que é hoje por causa da personalidade dele: atrevido, cabeça boa, não se intimida quando joga contra jogadores mais velhos. Se se firmar no clube, é um candidato a jogar na seleção.

O Cassini era tão bom assim? O vi no Campeonato Paulista Sub-20 e não fez grandes apresentações, apesar de ter feito uma grande Copa SP.

Cassini foi um dos pontos de desequilíbrio na semifinal contra o SPFC. Sempre foi tratado como jóia no clube, muito bem tratado e preparado. Achei que superdimensionaram a condição dele; apesar de treinar há um tempo no profissional, ainda não estava pronto para atuar. Diferente do Malcom, que já era uma realidade, o Matheus era um ponto de interrogação na minha opinião. Ele pode ser um grande jogador, daqui a três anos o Corinthians pode estar lamentando ter perdido um camisa dez que seria seu titular por muito tempo, mas nas divisões de base ele nunca foi o melhor do time. Sempre foi um bom jogador, bom finalizador especialmente de canhota, mas nunca foi o ponto de desequilíbrio enquanto jogador de base. Acho que a pressão e cobertura foram um pouco exageradas no caso de sua saída.

O que é estar "pronto"? Como se sabe isso?

Os treinadores da base tem o cuidado, o zelo, de dar o tempo de adaptação que cada jogador precisa. Eles tem raízes culturais, regionais e familiares muito diferentes entre si. Veja o caso de Matheus Vargas: hoje todos falam dele, mas levou um tempo para se firmar depois de chegar do Grêmio Osasco e subir ao profissional. Já seu irmão gêmeo foi dispensado. Eles viviam o mesmo ambiente, tinham a mesma cultura, mas só um se adaptou. Isso não quer dizer que já está pronto, mas que já progrediu na sua adaptação.

Quando um jogador muda de categoria, seja para a sub-17, a sub-20 ou o profissional, a expectativa aumenta exponencialmente - da comissão técnica, torcedores e imprensa. Ele ainda tem que lidar com pessoas, amizades e ambientes bem diferentes a cada mudança de categoria. Cada jogador tem seu tempo e sua personalidade pode não dar conta dessa mudança. Temos muitos casos de jogadores que ao chegar ao sub-20 estacionaram e não conseguiram render em todos os clubes. Também existem jogadores que não se desenvolvem em um clube e explodem em outros. Um exemplo: Lucas Silva jogou muito mais que Casemiro no Brasil, mas hoje Lucas ainda busca seu espaço no exterior e o Casemiro já é uma realidade, porque se adaptou ao ambiente de cobrança, expectativa e grandeza que o cerca.

É fundamental dar o tempo ao atleta para se acostumar e se adaptar ao ambiente que ele chega. Não adianta crer que Léo Jabá chegará ao profissional hoje e já fará dois ou três gols e resolverá os jogos; não é só isso. O subir, o pronto, é ele mostrar a cada dia a adaptação, a evolução e principalmente continuar mostrando seu crescimento e todo o potencial que ele tem. O técnico não precisa agir com imediatismo com um menino de 17 ou 18 anos. O clube precisa ser mais fiel e sereno na hora de tomar essas decisões.

O que você me diz de Éverton Ribeiro?

O Éverton Ribeiro é um caso curioso. Começou como um lateral, até franzino, era um lateral nota seis ou sete no máximo. Emprestado ao São Caetano, ainda tentaram melhorar sua parte tática e técnica mas não chegaram a um ponto considerado satisfatório. Depois que foi para o Coritiba, teve um novo entendimento do jogo e mudou de posição, desenvolvendo seu futebol de outra maneira. Isto é um exemplo de como o tempo de amadurecimento muda muito de jogador para jogador e como esta ciência não é exata. Existem jogadores de 17 anos com esta consciência, outros só chegam a ela aos 23 ou 24 anos. Um bom exemplo é o Jonathas, que rodou por vários clubes e só agora aos 26 anos amadureceu o suficiente para ser considerado um destaque no Campeonato Espanhol. Quando ele disputou a Copinha em 2007 ele não era nem o destaque do Cruzeiro.

Quais são os motivos que fazem as transições do juvenil para o profissional darem errado?

Muitas vezes se espera a valorização de um jogador do dia para a noite por parte de dirigentes e torcida, mas isso é muito complicado, especialmente em um time com pressão e torcida como o Corinthians. É algo que se deve ter muita paciência e muita calma; muitas vezes se fala que o Corinthians não revela ninguém, mas é exatamente por não se ter a paciência e calma necessárias para se fazer esta transição da maneira correta. Esta geração que está vindo agora deve ser carregada no colo, com muito carinho e cuidado para garantir o sucesso.

Quando o jogador sai da base para o time principal, ele já passa imediatamente a ser uma atribuição do treinador do time principal?

Isto é uma coisa muito delicada. O Tite por exemplo pode pedir para um menino ir treinar com o time principal e aos fins de semana este jogador disputa partidas com a base. O coordenador (no Corinthians é o Alessandro) tem que estar sempre próximo, o técnico deve estar sempre próximo do garoto, porque é aí que o jogador diminui seu rendimento: é a hora que o agente quer ganhar um pouco mais em cima dele, é a hora que o pai quer ganhar a casa nova, é a hora que a mulherada vai encostar nele e fazê-lo perder o foco... então esta hora que é a de transição, que o jogador começa a ter experiência com o profissional, é a hora que o jogador deve ser melhor observado. Outra coisa que atrapalha é que treinadores de categorias diferentes podem pedir coisas diferentes ao jogador, atrapalhando seu desenvolvimento.

Palavra chave: Paciência para torcedor, empresário, jogador e torcida?

Exato. Veja por exemplo o Felipe Anderson, que dividia os holofotes com o Neymar, com óbvia vantagem para o segundo. Ele foi muito bem tratado até os dezoito anos e deu o azar de subir com Muricy Isto atrapalhou muito seu desenvolvimento, só mostrando todo seu potencial agora na Lazio.

E o Tite, você o considera um bom treinador no trato com a base? Ele saberá fazer esta transição ou segura demais os jogadores da base? Ele parece dar muita prioridade a jogadores experientes.

O Tite tem esta fama de trabalhar só com jogadores experientes, mas gosto muito dele como profissional e o acho muito correto. Acho que se o jogador tiver a paciência, o talento, a capacidade de assumir um lugar no Corinthians, ele vai dar a oportunidade. O que o Tite não vai fazer é colocar por imposição. Mesmo com toda esta pressão e cobrança que ele vem sofrendo, ele tem o grupo na mão, ele tem os garotos na mão, ele sabe o momento de fazer a cobrança e também de dar a atenção e o carinho que o garoto precisa. Então eu acredito que ele pode sim fazer esta transição bem feita e fazer os jogadores terem o crescimento dentro da equipe.

Claro, o Corinthians é um time pressionado, o Corinthians é um time que sempre luta para estar na frente, o Corinthians é um time que nunca vai conseguir tirar esta pressão de cima dos atletas. Então, Tite precisa tomar este cuidado e vai tomar; eu acho que ele tem tudo para ajudar no crescimento destes garotos. Isso depende do crescimento destes garotos, da paciência da diretoria, dos agentes e empresários não crescerem o olho e forçarem uma transição apressada. Este trabalho não é só do Tite, é dos coordenadores de futebol de base e profissional, das comissões técnicas do sub-20 e sub-17, da diretoria... para se discutir transição e base, o clube precisa de uma unidade no tratamento e objetivos do jogador para conseguir uma boa transição.

Espero ter ajudado a esclarecer um pouco como funciona a base. É torcer para que a nossa funcione direito. Vai Corinthians!

Coluna do Teleco 1910

Por Teleco 1910

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