As lições que o vexame da Libertadores deixa para o Corinthians

Victor Farinelli

Victor Farinelli é um jornalista brasileiro e corinthiano residente no Chile, colabora como correspondente de meios brasileiros como Opera Mundi, Carta Capital, Revista Fórum e Carta Maior.

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As lições que o vexame da Libertadores deixa para o Corinthians

As lições que o vexame da Libertadores deixa para o Corinthians

Corinthians (e outros clubes) podem tirar lições sobre a Libertadores 2018

Foto: Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians

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Não é preciso descrever aqui todos os acontecimentos desde o sábado 24 de novembro, naquela que em algum momento foi chamada de Final do Século, e que já se transformou, irreversivelmente, no Papelão do Século.

Contudo, ficam no ar muitas lições que devem ser levadas em conta por todos os clubes e pelo mundo do futebol de uma forma geral. Como aqui a gente fala de Corinthians, vamos tentar abordar esses temas a partir de um ponto de vista corinthiano.

Defender a integridade dos jogadores

A lição mais evidente está na postura inicial do clube Boca Juniors – não todas elas, já que a medida que tomou nesta terça 27 o assemelha ao escarcéu palmeirense pós “Paulistinha”, mas trataremos disso no último tópico. A defesa da integridade física dos jogadores do clube e a convicção em estabelecer que sem essa garantia o time não joga é uma das coisas que o Corinthians precisa aprender, e todos sabemos em que caso aplicar esse ensinamento.

Desde 2016, ou talvez até antes, todo jogo no Morumbi é sinônimo de ataque com paus e pedras ao ônibus corinthiano, colocando em risco as vidas dentro dele, incluindo jogadores, comissão técnica e motoristas. Vez ou outra, acontece o mesmo na Vila Belmiro, com menos frequência. Não importa se isso serve ou não para algo – não nos impede de ganhar no velho salão de festas de vez em quando, e está longe de garantir uma invencibilidade como a que nós mantemos em Itaquera sem nenhum tipo de babaquice desse tipo –, mas os fregueses acreditam com todas as forças que essa violência ajuda a ganhar.

Colabora com essa situação a reação inconsistente da diretoria corinthiana, desde que essa tendência se instalou. Nunca mais que algumas reclamações vazias, bem distantes do que deveria ser esta exigência: se não há condições e garantias para os jogadores atuarem tranquilamente, o time não joga.

É preciso cobrar da diretoria que não seja covarde e que aproveite a grandeza do Corinthians. Um clube com as nossas proporções tem que saber impor respeito. Ademais, não queremos privilégio algum, apenas o simples respeito à integridade dos nossos atletas, igual a que os rivais têm quando visitam a nossa arena.

Essa exigência deve ser feita junto aos clubes São Paulo e Santos, às federações e confederações pertinentes, às prefeituras das duas cidades e à Polícia Militar do Estado. Se essas entidades não estão em condições de impedir um ataque contra um ônibus da delegação corinthiana que vai disputar uma partida dessas, então é preciso questionar seriamente a capacidade de se disputar duelos dessa envergadura nos estádios Morumbi e Vila Belmiro. Pelo mesmo motivo, não se pode tampouco aceitar a desculpinha esfarrapada de que os arredores desses estádios dificultam a segurança. Se isso for verdade, fica caracterizada a impossibilidade de jogar clássicos nesses recintos.

Finalmente, reiterar que o Corinthians nunca será contra jogar no Morumbi ou na Vila Belmiro, ou em qualquer outro estádio do Brasil e do mundo, desde que se respeitem os protocolos de segurança. Simples assim.

Quem são os violentos?

A partir da confusão que vimos, é fácil convencer o cidadão comum, que dificilmente tira conclusões a partir de análises mais profundas dos fatos, de que a culpa do que aconteceu é das torcidas organizadas. É o discurso pré-fabricado da imprensa depois de qualquer incidente desse tipo. Mas não foi.

Segundo este detalhado relato jornalístico do meio digital argentino Infobae, que inclui uma análise sobre como funcionam os operativos policiais em jogos desse tipo no Estádio Monumental, os torcedores que estavam naquela esquina, no momento em que o ônibus da delegação xeneize passou, não eram um grupo organizado, como os chamados barrasbravas, e sim os torcedores comuns que cultivam o mesmo ódio ao rival que o torcedor organizado, e que o externam com igual brutalidade quando protegidos pelo anonimato da massa.

Não quer dizer que não havia nenhum barra ali, é possível que alguns sim, misturados a um grupo desorganizado de pessoas que exerceram sua raiva de forma individual, cada um atirando contra o veículo o primeiro objeto contundente encontrado ao seu redor.

Foram muito claros os erros do operativo de segurança: é possível ver, pelas imagens em fotos e vídeos, que não havia sequer um cordão de isolamento, biombos, restrição de perímetros, nada! O ônibus do Boca Juniors passou literalmente do lado daquela parte da torcida do River Plate. Se fosse realmente um grupo organizado e uma ação preparada, poderia facilmente ter feito um ataque coletivo contra o ônibus, com pouquíssima capacidade de reação por parte da segurança ali presente, e levaria a consequências bem piores.

Isso demonstra duas coisas, e uma delas é que não só os clubes são responsáveis pela segurança dos visitantes num jogo – e por isso mesmo, no tópico anterior, não cito apenas os clubes São Paulo e Santos, mas sim a todas as entidades futebolísticas, políticas e policiais, que precisam melhorar seus procedimentos para que as coisas sejam feitas corretamente. E essas mudanças deveriam acontecer antes que se precise de uma tragédia para forçar a tomada de decisões.

O outro ponto é que a violência no futebol não é exclusividade das torcidas organizadas. Está em todos os âmbitos e esferas. É um reflexo de uma sociedade onde todo e qualquer debate político, social ou cultural é regido pela intransigência, pela truculência, pela intimidação ou até mesmo a eliminação do outro.

No caso do Corinthians, é possível dizer o mesmo. Nossas torcidas organizadas são violentas? Sim, mas não mais que um torcedor corinthiano qualquer, ou um torcedor rival, organizado ou não, inserido numa sociedade brasileira onde a violência pode ter origem futebolística, religiosa, política, social, etc.

Quem puder fazer uma cronologia dos diferentes casos encontrará vários exemplos de violência contra corinthianos – algumas delas com resultado de morte – que não são cometidas por rivais organizados, ou de corinthianos que cometem esses ataques e que também são torcedores comuns – desses que depois tentam se refugiar no discurso de que a violência só existe por causa das organizadas.

Para que a violência das organizadas seja revertida, na Argentina, no Brasil ou em qualquer lugar, não serve de nada o uso de mais violência e repressão. É preciso conscientização social e entendimento. É o caminho completamente contrário, e não vejo que isso seja possível sequer a longo prazo. Não há nem vontade de começar a seguir por esse caminho

A importância da Libertadores

Esse tema vou deixar aqui e sair andando lentamente. Sei que é polêmico e que por mais argumentos que tenha não faltará quem defenda que a Libertadores merece reverência especial, e até exagerada. Mas eu acho que é importante estipular que essa reverência requer fortes limites.

Claro que uma disputa continental com a história e o simbolismo da Libertadores tem uma grandeza natural, e se fosse um torneio bem organizado, seria indiscutivelmente a glória mais importante de qualquer clube.

Tampouco quero cair no viralatismo, até porque sou um latinamericanista convicto, e acho que o nosso continente merecia um torneio de futebol melhor que o que temos – e quando o tiver certamente será melhor que a gourmetizada Liga dos Campeões, onde sobra talento e falta garra e paixão latina. Mas o fato é que a Copa Libertadores, admitamos, é uma de uma balbúrdia.

Esta final de 2018 terminando do jeito conturbado que vemos é a coroação de uma edição cheia de maracutaias e contradições em suas decisões fora dos gramados, além das polêmicas situações dentro deles – e ambos os casos são problemas tradicionais em tudo o que é organizado pela Conmebol.

Como corinthianos, sabemos muito bem que a confederação sul-americana sempre privilegiou os clubes que mantêm boas relações com ela nos bastidores – sejam eles argentinos, paraguaios e até alguns brasileiros, como aquele que conseguiu ser campeão impedindo o seu adversário na final de jogar sua partida de mandante em seu estádio. Também sabemos que o Corinthians nunca esteve entre esses amigos do poder em Asunción, e provavelmente por isso padecemos com tantos erros e falcatruas arbitrais: em 1999, em 2006 e sobretudo em 2013, e este último caso tem até provas da armação que sofremos.

Não significa que devemos fazer boicote nem nada disso. Temos que jogar, e com o intuito de ganhar, como se faz em qualquer campeonato. Mas sim questionar se vale a pena dar tanta prioridade. A história mostra que não basta ter o melhor time para ser campeão da Libertadores, e não somente pelo imponderável comum do futebol, e sim pela bandalheira, pelo amiguismo das decisões ou pela avacalhação pura e simples que vemos em muitos casos.

Não que os nossos torneios nacionais e estaduais sejam um modelo de organização, mas os problemas são bem menores que os vemos na Conmebol, quando deveria ser o contrário. Aliás, não seria nada errado dar mais importância às nossas competições nacionais. Mesmo que a Conmebol deixe de ser essa Casa de la Madre Juana e a Libertadores seja mais respeitável como tem que ser, merece ser tratada com prioridade similar à de um Campeonato Brasileiro e uma Copa do Brasil, e pensar assim não significa menosprezar a copa continental.

Contra a judicialização do futebol

A postura do Boca Juniors me pareceu excelente, tanto no sábado quanto no domingo, quando seus jogadores ainda não estavam em condição de igualdade com relação aos do River Plate, por tudo o que passou.

Porém, essa superioridade moral se perdeu quando o clube resolveu tomar a saída galiotesca de tentar ganhar o título no tapetão, com uma apresentação ao Tribunal de Disciplina da Conmebol para que o adversário seja eliminado. Na hora, senti um déjà vu do que a Barra Funda chama de “Paulistinha”, pois até suas frases soaram como Galiotte: “se tiver que apelar vamos até o TAS se for preciso”.

Futebol se ganha no campo, e com as torcidas dos dois times. Se tiver que esperar uma ou duas semanas para os jogadores se recuperarem, excelente! E que se intensifiquem os protocolos de segurança para não repetir os mesmos erros de dias atrás. E se tiver que jogar em outro estádio porque o atual não está em condições, que assim seja. Mas ganhar sem jogar, no tribunal, com time de advogados e não de futebolistas, não dá.

Quando peço aqui uma postura mais firme do Corinthians contra os ataques que nosso time sofre, não quero que ganhemos pontos no STJD. Quero jogar, e de preferência no Morumbi e na Vila Belmiro, mas com as garantias de segurança para os jogadores. E depois, se as torcidas deles querem fazer a diferença, que o façam cantando nas arquibancadas, como faz a nossa – e talvez a frustração de saber que nunca serão a Fiel, que nunca poderão fazer a mesma festa e a mesma pressão que nós fazemos, seja uma das razões pelas quais tentam influir de outra forma.

Se o Boca faturar esse título no alfombrón abrirá um precedente perigosíssimo. Muitos campeonatos vindouros, e talvez a maioria deles, passarão a ser decididos na Justiça – entidade que raramente faz jus a esse nome, no Brasil e em quase toda a América Latina, seja em tribunais esportivos ou em outros âmbitos.

Também não é difícil entender que o Corinthians terá muito a perder com essa avacalhação. Nesses tribunais elitistas, onde não importa ter razão ou não, nós não seremos nem os mais ricos, nem os mais bonitos, nem os mais influentes politicamente.

Nossa prioridade tem que ser a montagem de times com capacidade para vencer em campo. Com a ajuda de uma torcida que se impõe no grito, na arquibancada. Com uma diretoria que seja capaz de fazer o melhor para o clube internamente, e de defender enfaticamente a nossa instituição onde tiver que fazê-lo. E esperar que isso ainda seja suficiente para ser campeão dos campeonatos que vierem pela frente.

Veja mais em: Libertadores da América.

Coluna do Victor Farinelli

Por Victor Farinelli

Victor Farinelli é um jornalista brasileiro e corinthiano residente no Chile, colabora como correspondente de meios brasileiros como Opera Mundi, Carta Capital, Revista Fórum e Carta Maior.

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