Infância no futsal, liderança e família corinthiana: a entrevista de Mantuan nunca publicada

Vinícius Souza

Repórter do Meu Timão formado pela Fiam-Faam em 2016. É viciado em esportes e não perde uma pelada de segunda à noite. Ronaldo só tem um!

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Infância no futsal, liderança e família corinthiana: a entrevista de Mantuan nunca publicada

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Infância no futsal, liderança e família corinthiana: a entrevista de Mantuan nunca publicada

Mantuan, hoje no elenco profissional, foi capitão no decacampeonato do Timão na Copa São Paulo

Foto: Rodrigo Gazzanel/Ag. Corinthians

O Meu Timão produziu diversos conteúdos sobre o título da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2017, conquistado pelo Corinthians em 25 de janeiro do ano passado, diante do Batatais. De todo esse material, um áudio acabou se perdendo no meio de alguns (acredite, muitos) arquivos embaralhados no meu notebook.

Resolvi ouvi-lo um dia desses e logo me veio à cabeça uma entrevista que fiz por telefone com o lateral-direito/volante/meia Guilherme Mantuan, então capitão do Sub-20 recém-campeão da Copinha, hoje atleta profissional do clube e reserva imediato de Fagner. Lembro que Mantuan foi promovido logo em seguida, e parte do conteúdo envelheceu, o que me fez deixar a pauta de canto.

Transcrevi o tal áudio, de pouco mais de 30 minutos. O resultado é um bate-papo surpreendente com um dos destaques da equipe então dirigida por Osmar Loss, que hoje é braço direito de Fábio Carille no time principal.

De antemão, peço desculpas a Mantuan pelo atraso. A entrevista na íntegra, onde o jogador conta seu início no futebol, a transição entre o futsal e o campo, o auxílio dos pais para se tornar atleta do Corinthians e o desejo de retribuir à família grande parte do que tem conquistado, você confere a seguir!

Leia a entrevista de Mantuan ao Meu Timão de fevereiro de 2017

Origem

Eu nasci em São Caetano, mas morei em São Bernardo. Eu não cheguei a morar em São Caetano, nasci lá, mas morei em São Bernardo minha infância inteira. Mais ou menos com 12, 13 anos, me mudei pra Zona Leste. Meu pai é de São Bernardo, minha mãe nasceu em São Caetano, todos do ABC, minha família é toda de lá. Como eu vim jogar no Corinthians, ficava muita correria voltar pra lá. Era escola de manhã, campo à tarde e futsal à noite, então ficou muita correria e decidirmos mudar pra cá. Tudo ficou mais fácil.

Quanto tempo ficou na rotina corrida entre Grande ABC e São Paulo?

Se eu não me engano, uns dois, três anos assim. Dou graças a Deus pela vida dos meus pais, porque o que eles fizeram por mim... Era algo que ficavam o dia inteiro. Eles não, era sempre alternado, né? Quando não era minha mãe, era meu pai de sair meio-dia da escola e ir pro treino do campo, às vezes comia marmita no carro, ia pro campo e já ficava pro treino de salão de noite. Ficou assim três anos nessa correria.

Boas lembranças...

Exatamente, boas lembranças. Se pudesse, tenho certeza que eu e meus pais faríamos tudo novamente porque agora estamos começando a ver esses frutos, se Deus quiser são os primeiros de muitos que ainda virão. Naquela época foi uma brincadeira, nós não sabíamos se ia dar certo, meus pais decidiram viver esse sonho comigo, a família toda.

Futsal versus campo

Eu cheguei aqui numa categoria de futsal que acho que nem existe mais. Joguei o Sub-9 pelo Corinthians, eu, com oito anos mais ou menos, e o Arana fomos jogar um campeonato pelo Juventus e aí logo depois, ficamos uns quatro meses lá, voltamos pro Corinthians novamente. Com nove anos jogamos o campeonato, e com dez fui pro campo. Foi quando comecei a conciliar o campo com o futsal, duas vezes na semana tinha treino de futsal, jogo no final de semana, e o campo era todo dia praticamente, terça a sexta. Com 11 anos eu disputei o primeiro Campeonato Paulista, quando teve o primeiro Campeonato Paulista da Federação. E aí comecei a conciliar os dois.

Improvisado em outras posições

Eu joguei o Sub-11, Sub-13, Sub-15 e Sub-17 de meia. Aí no Sub-20, quando subi com o Osmar (Loss), ele me colocou como segundo volante. Fiquei nesse primeiro ano de Sub-20 como primeiro volante, no ano passado (2016) tive a oportunidade de jogar na lateral direita também. Era algo que eu não sabia se daria certo ou não, se poderia me destacar, mas tive uma regularidade muito boa, consegui me destacar mesmo nunca tendo jogado nessa posição. Ano passado joguei alguns jogos do Campeonato Paulista como meia, como volante, e agora nessa Copinha (2017) voltei a jogar como volante também.

(PS: em 2018, Mantuan ganhou a concorrência de Léo Príncipe e alcançou status de lateral-direito reserva do Corinthians. Ele é a primeira opção de Carille para eventual ausência de Fagner).

Conversa com o Osmar para jogar mais recuado

Quando já subi pro Sub-20, foi algo que ele e o Coelho (Dyego, hoje técnico do Sub-20) preferiram por causa da minha visão de jogo, de poder render mais pegando a bola de frente pro campo, uma qualidade técnica também. Foi algo que eu poderia render mais pra mim mesmo e mais pra equipe. Quando voltei do profissional, não fiquei surpreso de jogar novamente como volante, por mais que eu tivesse jogado metade do ano passado inteiro como lateral, eu não fiquei surpreso e foi algo muito bom pra mim. Acho que depende do jogador também, dele poder se destacar ou não.

Marcação: principal dificuldade?

Eu poderia afirmar isso quando eu estava no Sub-17, no Sub-15, mas a partir do momento que fiz essa transição do Sub-17 pro Sub-20, não digo nem cobrado, mas disseram que se eu quisesse aumentar minha performance, que eu pudesse me destacar sendo um jogador mais completo, seria poder ajudar mais no setor defensivo. Foi algo que eu passei a dar um pouco mais de prioridade também, a jogar um pouco mais com a bola, poder ser mais intenso, conseguir roubar bolas. Foi algo que eu consegui fazer nessa Copinha, além de chegar na área, de finalizar, fazer gols, dar assistências. Algo que eu levo como positivo foi o setor defensivo.

Avaliação pessoal da Copinha-2017

A ficha está caindo na verdade, né? Com as matérias que saem, com o pessoal mandando mensagem, apoio para mantar essa humildade, esse comprometimento com a camisa do Corinthians. Eu pretendo ainda continuar trabalhando firme, foi uma Copinha que aos meus olhos foi muito boa não só para mim mas para todos na nossa equipe. A equipe conseguiu se valorizar, a comissão técnica, o trabalho que vem sendo feito na base conseguiu ser valorizado mais uma vez. Quando surgiu essa oportunidade de descer novamente para a base, eu encarei com bons olhos, achei que seria um momento que poderia ter ainda mais meu trabalho valorizado, reconhecido pela torcida. Querendo ou não, quando você não sobe de uma Copa São Paulo, não é toda a torcida que te conhece, são poucos que acompanham a base o ano inteiro. A imprensa, como não tem campeonato, cobre muito a Copa São Paulo. Foi algo muito positivo e agradeço a Deus por esse momento.

Humildade e a preocupação com o “não deixar o sucesso subir à cabeça”

Exatamente. Eu priorizo bastante isso, até porque eu ainda não sou jogador profissional, vou começar minha carreira agora, não posso me iludir achando que está tudo certo e que já alcancei meus objetivos. Isso é muito pouco, né? Para quem sonha alto, para quem quer conquistar muitas coisas, isso ainda é algo pequeno. É claro que tem de ser valorizado, mas ainda é muito pequeno. Eu sei que muitos atletas caíram nessa armadilha de se iludir, achar que já é um jogador profissional, é um cara renomado, e tem de tomar cuidado nessa fase de transição. O mundo do futebol gira, um dia você está lá no auge e, no outro, um pouco mais abaixo. Tento ficar bastante atento a isso.

Objetivos para a carreira

Eu quero ficar no Corinthians, como já tenho 13 anos de Corinthians, quero ficar aqui, quero jogar no profissional do Corinthians, me firmar no profissional, conquistar títulos. Quero ser um exemplo aqui dentro do clube, ficar marcado na história. Assim como naquela quarta-feira, aquela torcida impressionante que eu já tinha vivenciado na Arena ano passado e no Pacaembu também, é algo que te motiva 200%, os caras são loucos. E, pra jogar no Corinthians, tem de ser assim, querer muito, desejar muito, almejar muito assim.

Relacionamento “diferente” com Loss

Sim, existe. Porque alguns assuntos não precisam ser do Osmar ou da comissão técnica direto para o grupo de jogadores. Então nós costumamos dizer que o capitão é a voz da comissão pro grupo. Qualquer aviso, qualquer coisa, eles passavam para mim e eu para eles. A gente procurava se ajudar porque, principalmente em competições como a Copa São Paulo, que dura quase um mês, você precisa ter um bom ambiente, um ambiente agradável para trabalhar, prazeroso, para que as coisas possam fluir e aconteçam do que jeito que aconteceu.

(PS: atualmente, Mantuan e Osmar Loss trabalham juntos no CT Joaquim Grava. Isso porque o então técnico do Sub-20 foi promovido a auxiliar de Carille depois da Copa São Paulo de 2017).

Liderança entre garotos

Quando eu estava no profissional e fiquei sabendo que ia descer (ao Sub-20), os próprios meninos já falaram ‘ah, você vai ser o capitão!’. Eu falei: ‘calma, nem cheguei a treinar ainda. Vocês estão muito desesperados!’ (risos). Eu recebi bastante apoio dos meninos que estavam aqui no Sub-20 e dos meninos que subiram comigo pro profissional, até eu me surpreendi com isso. Às vezes eles poderiam ter preferência por outro garoto, mas recebi apoio deles e foi algo muito bom para mim. Eu também achei, depois desse apoio deles, que estava realmente preparado pra ser o capitão da equipe.

Ser líder mesmo tão jovem

Em momentos como esse, em momentos tão importantes não só para a torcida mas para nós jogadores, acho que você precisa realmente expor aquilo que é necessário, por mais que seja em um tom mais rígido, mais forte. Nós precisamos expressar aquilo que nós realmente queremos. Ali era uma final, eu repeti aquele discurso daquela forma rígida umas duas, três vezes, porque em jogos mais importantes – não que os outros não foram –, que realmente eram complicados, acho que consegui transmitir além da motivação uma imagem mental daquilo que estava prestes a acontecer, de você estar no Pacaembu com quase 40 mil pessoas, de conquistar um decacampeonato pro clube, a competição mais importante que o clube dá nas categorias de base, que o Brasil inteiro está de olho, a imprensa... Acho que esse papel de liderança vem aumento a cada dia, quando comecei na Copa São Paulo posso dizer que era um líder um pouco mais tranquilo, ao longo da competição isso foi crescendo em mim. Espero poder ser um exemplo para eles, que aqueles jovens que forem ficar, que forem subir, possam levar isso que aconteceu de positivo.

Versatilidade

Não sei se coloca acima, mas posso garantir que as pessoas te olham diferente, com um olhar de confiança. Saber que você mantém uma regularidade independente da posição que você vai jogar. Nesses últimos meses eu pude mostrar isso, uma boa regularidade nas posições em que atuei. Creio que isso possa ser algo a ser visto com outros olhos.

Importância da família, que é corinthiana!

Minha família é tudo para mim, sou grato a Deus pela família que eu tenho, por tudo que eles fizeram por mim, por toda a dedicação, empenho. Sem a ajuda deles não seria possível estar aqui. Eu creio que eles estão bastante orgulhosos por ter um filho que foi campeão da Copa São Paulo, que tem uma experiência no profissional, meu irmão foi convocado pra Seleção Brasileira Sub-15, minha irmã engatinhando na natação. Aqui em casa é só esportes, só futebol. Às vezes até peço: ‘mãe, calma’, ‘pai, desliga um pouco aí, assiste a outro programa’ (risos). É 24 horas, não tem essa, nós vivemos Corinthians, respiramos Corinthians, desde pequeno, não é de agora, algo que começou há um ano... Meus pais abriram mão de viagens, poder tirar férias, pra viver esse sonho com a gente.

Pensa em retribuí-los no futuro?

Eu penso a todo momento. Muitas vezes fico bravo comigo mesmo, porque me cobro muito em relação a isso, é algo automático, algo meu. Quero vê-los felizes, orgulhosos, vê-los sabendo que estou dando meu melhor. Agora ainda mais. Tudo aquilo que eu conquistar no futuro, que Deus me entregar, é tudo pra eles, pra abençoá-los. Eles são benção na minha vida. Essa parte financeira, de conquistas, de tudo que envolve um jogador, é da minha família. É tudo nosso. É claro que mais pra frente vou casar, ter a minha família, mas não quero mudar essa mentalidade de que ‘tem que separar’, ‘cada um vai para o seu canto’... Até porque grande parte da vida deles foi viver para a gente, para o Guilherme, para o Gustavo e para a Giulia.

Se não fosse jogador...

Não fala isso não, cara (risos). No meu caso, meus pais sempre me cobraram para fazer uma faculdade a partir do momento que terminei o ensino médico. Só que, em relação a viagens, concentração, não seria algo que faria bem feito, que conciliaria muito bem. Eu comecei a fazer um curso de inglês, até porque nós temos que nos preparar para aquilo que pode acontecer, e eu comecei esse curso. Pretendo voltar a fazer esse ano, ano passado dei uma parada. Preciso me preparar, acho que estudo é algo que precisa estar presente, você vê jogadores na Europa que falam quatro, cinco línguas, que já pararam a carreira e decidiram morar fora do país. Acho que tudo é motivo de preparação, do quanto você quer e do quanto você busca.

Veja mais em: Guilherme Mantuan e Base do Corinthians.

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