Conheça Neco: extraordinário patriarca do corinthianismo

Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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Neco: garra, técnica e paixão

Foto: Arquivo

Nascido em 7 de março de 1895, Manuel Nunes, o Neco, viveu seus primeiros anos no Bom Retiro, a efervescente “esquina do mundo” no Brasil, convivendo com pessoas das mais diversas etnias, assistindo à transformação da tímida cidade em potência industrial.

Acompanhando as lutas sociais, especialmente dos operários, ganhou a consciência da importância de um conduta humana, respeitosa e solidária.

Acreditava que a união do povo poderia ser expressa por meio das agremiações futebolísticas. E assim agregou-se ao lendário Botafogo, da várzea do Tamanduateí, o time que, em 1910, cederia a maior parte dos jogadores para o Corinthians.

O Botafogo atuava em lugares oferecidos aos atletas em época de estiagem. Se não chovia, o chão de terra se fazia firme e os humildes operários, braçais, comerciários e comerciantes iam à beira de rios e lagoas divertir-se com a bola, praticando o esporte introduzido no Brasil por Charles Miller.

Não por acaso, uma das primeiras canchas do espetacular Botafogo foi o mesmo terreno impreciso, na imensa área da Várzea do Carmo, em que Miller organizou o primeiro match de futebol no Brasil, em 1895.

Neco empolgou-se desde o início com a criação do Corinthians. Era o futebol subindo um tanto da geografia da cidade, atingindo o seu Bom Retiro dos compagni italiani, da espanholada malagueta e dos comerciantes de origem lusitana, com os quais compartilhava a ascendência.

Ali, a cidade girava como um tornado. Tudo se dizia, tudo se discutia. Na Escola Germinal, de natureza libertária, e nos teatros de rua, os militantes anarquistas discutiam os direitos da classe trabalhadora e pregavam a união entre os povos na luta por uma sociedade mais justa, com oportunidades para todos.

O Corinthians, que teve Miguel Battaglia como primeiro presidente, foi a expressão, no futebol, desse sentimento de saudável rebeldia popular. Os corinthianos desejavam romper com o modelo que restringia o futebol oficial às equipes dos quatrocentões paulistanos.

Ao mesmo tempo, como comprovam nossas primeiras atas, pretendiam gerar uma experiência democrática e um exercício da consciência para a verdade, a vez e a voz.

O Corinthians foi criado para ser também um lugar de leituras (sim!), com uma biblioteca para iluminar as mentes de seus afiliados.

Ah, como era mais do que um simples time de futebol, Neco encantou-se. Não somente ele, mas muitos jovens que buscavam aprendizado e um lugar ao sol.

César Nunes, irmão de Neco, dois anos mais velho do que ele, também atuava pelo Corinthians desde 1910. Bom de bola, jogava desde 1903, quando estreou no time do Liceu Coração de Jesus, dos padres salesianos.

Era um jogador leal, mas furioso, que não admitia a derrota em campo. Entrava em cada dividida como se disputasse a sobrevivência.

Mas o que mais fascinou César e Neco? Foi ver que aquele não era um clube comum, em que os atletas obedeciam um professor, um ricaço empresário ou homem da política.

Como conta o historiador Lourenço Diaféria, era bem diferente. Em seu livro “Coração Corinthiano”, ele explica a situação.

- Tanto Neco quanto César viveram em um tempo em que o jogador de futebol participava diretamente dos destinos do clube a que pertencia, e isso ocorria especialmente no Corinthians Paulista, onde as coisas se misturavam sem nenhum inconveniente. Os jogadores decidiam muita coisa, para não dizer quase tudo. César participou da comissão que fiscalizava as eleições, conferia as contas do tesoureiro, dava palpites e sugestões, votava a favor e contra.

Essas características iniciais estabeleceriam a personalidade do Time do Povo, aquele que acolheria pessoas de todas as partes do mundo, que fortaleceria um ethos colaborativo, cooperativo e particularmente amoroso com os desfavorecidos.

O inquieto Neco copiou o irmão. Não se converteu em um simples chutador de bola. Lá na Antiguidade, o poeta grego Píndaro ordenou: “homem, torna-te o que tu és”. Neco, ainda que sem ouvir a convocação original daquele mestre das letras, obedeceu. Neco TORNOU-SE o Corinthians, integralmente, em cada átomo de cada célula.

Neco foi convocado para jogar no primeiro quadro em 1913, por decisão de Casemiro Gonzales, zagueiro e, na prática, o primeiro técnico depois da fase varzeana. O jovem Neco iniciou sua trajetória na ponta-esquerda.

Depois, outro grande craque, Amílcar Barbuy, sugeriu que passasse à meia-esquerda. E o rapazinho mostrou garra e talento. Já era campeão paulista em 1914, título conquistado de forma invicta pelo Timão.

Mas Neco não era assim tão obediente. Não guardava a posição o tempo todo. Deslocava-se para o lugar do campo onde fosse necessária sua contribuição.

No caso do zelo com o clube, era semelhante seu procedimento. Certa vez, covardemente boicotado pelos times da elite, o Corinthians não pôde jogar e teve de atrasar o aluguel de sua sede. O proprietário, então, decidiu fechar o lugar e confiscar nossas primeiras taças.

Neco organizou uma força-tarefa e, na calada da noite, foi buscar nosso patrimônio. Elástico, penetrou por uma diminuta janela para recuperar os troféus. No dia seguinte, o dono do imóvel estarreceu-se ao ver a sala vazia.

Este rebelde Neco e o elegante Amílcar foram os primeiros corinthianos convocados a defender a Seleção Brasileira.

O Campeonato Sulamericano de seleções, em maio de 1919, foi a primeira grande competição oficial organizada pelos brasileiros. Era enorme a expectativa: seríamos capazes de enfrentar os craques argentinos e uruguaios?

Contra os argentinos, o destaque foi Amílcar, que, percebendo o goleiro Isola adiantado, chutou do meio da rua, por cobertura. A bola entrou no ângulo esquerdo do arqueiro, para total delírio da massa.

Na sequência, enfrentamos os temíveis uruguaios. Perdíamos por 2 a 0, mas Neco, incansável, marcou duas vezes e nos propiciou o empate em 2 a 2.

Foi necessária, então, a realização de uma partida desempate, no mesmo Estádio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro.

29 de maio foi o primeiro grande dia do nosso futebol. O governo decretou ponto facultativo e a maior parte do comércio baixou as portas.

Jogo duro, disputado, jogadores esfalfados de um lado e de outro. O jogo termina em 0 a 0. Vem a prorrogação, e mais um 0 a 0. Sim, houve então mais uma prorrogação de 30 minutos.

Os jogadores se arrastavam em campo, mas Neco cismou de quebrar o roteiro. Reuniu todas as suas energias e iniciou uma corrida pelo lado direito de ataque, perseguido por Foglino, que tentava derrubá-lo.

Neco supera o assédio e, quase na linha de fundo, cruza com perfeição para Heitor, que bate para o gol. O goleiro espalma milagrosamente e a bola cai nos pés do craque Friedenreich, que fuzila para anotar o gol do título.

A conquista marca Neco como um brasileiro que não desiste nunca, como o corinthiano que iniciou a jogada desta importante conquista nacional. Era um jogador de passes precisos, como que definidos em régua e compasso, mas que também chutava com energia, sempre no alvo.

Com quatro gols, ele foi o artilheiro da competição, ao lado de Friedenreich.

Aqueles anos eram de amadorismo. Os jogadores se matavam em campo e no dia seguinte iam realizar suas tarefas em empregos formais. Neco, por exemplo, trabalhou por bom tempo em uma casa de ferragens na Rua Florêncio da Abreu, no centro velho de São Paulo.

Se os aficcionados tentavam tratar de futebol com ele durante a jornada como profissional comum, logo mudava de conversa. Argumentava que ali não era lugar para discussão sobre coisas da bola. Se necessário, debateria, mas depois do expediente.

No Corinthians, Neco participou da conquista de oito títulos paulistas, entre 1914 e 1930. Reza a lenda que, quando irritado com um companheiro sem energia ou com um adversário desrespeitoso, tirava a cinta e iniciava um ataque de intimidação.

Muitos torcedores antigos relataram essas proezas. Em entrevistas, no entanto, o craque sempre negou esses episódios de êxtase furioso.

Neco deixou de compor o time, mas NUNCA abandonou o Corinthians. Em 1937, por exemplo, foi o técnico que projetou a conquista do campeonato. Teleco, aquele que na média anotou mais gols que Pelé, contava que Neco era paciente e detalhista.

Se um jogador executava a jogada de forma equivocada, ele interrompia o treino e, com paciência, ensinava como deveria ser feito. Se o erro se repetisse, entrava em campo, mesmo calçando sapatos e encenava o lance perfeito.

Depois, mesmo sem cargo no clube, visitava-o para conversar com os sócios ou para dar dicas aos jogadores das novas gerações. Para ele, o corinthianismo era um modo de vida e seus valores precisavam ser passados às novas gerações.

Assim, vez por outra, por traquinagem, roubava a netinha Regina da escola e a levava para o Parque São Jorge, onde lhe passava lições sobre a história corinthiana. Era um homem de família, dedicado, cujos valores tinham sido construídos na lida mosqueteira.

Em 1977, o Corinthians amargava longos anos de jejum, mas Neco mostrava-se sempre otimista. Sentenciava: “este ano vai dar”. No dia 18 de maio daquele ano mágico, o dedicado patriarca foi ao Parque São Jorge mais uma vez. Era uma tarde fria e nublada.

Contou histórias, motivou os jogadores e contou da honra de ter participado dessa obra que unia milhões de almas brasileiras. Sete dias antes, havíamos vencido o XV de Jaú por 4 a 0 e Neco se mostrava esperançoso. No dia seguinte, teríamos um amistoso contra o Saad.

Neco apreciava o estilo de Palhinha, que como ele misturava a técnica e a raça. Ali, na turma de velhos sócios, um veterano chamou o simpático velhinho e disse saber de cabeça seus números: 296 jogos, 235 gols e 17 anos no time principal. Outro disse que eram 313 jogos e 239 gols. Um terceiro emendou: “mas será que isso realmente importa?”

Silencioso, Neco caminhou lentamente pelas alamedas e viu mais uma vez seu busto metálico e altivo, em um dos jardins, ali estabelecido desde 1929. Como sempre, emocionou-se.

O último jogo que Neco acompanhou, pelo radinho, foi uma vitória do Timão por 4 a 0 sobre o Santos, o derradeiro gol marcado por seu então preferido, Palhinha.

No dia 31 de maio, Manoel Nunes, o Neco, faleceu. Foi celebrado e chorado por muitos. Ganhou como última morada um sepulcro na quadra 5, rua 1, do Cemitério Chora Menino, na Zona Norte de São Paulo.

Naquele ano, o Corinthians finalmente sairia da fila. No primeiro jogo decisivo, em 5 de Outubro, contra a então poderosa Ponte Preta, o resultado foi 1 a 0 para o Timão, gol de Palhinha, literalmente de “cara”, com a coragem corinthianista que Neco ensinara às novas gerações.

Em 2015, quando foram comemorados os 120 anos do nascimento deste extraordinário pai da Nação, o clube instituiu o Núcleo de Estudos do Corinthians, o NECO, que lhe presta justa homenagem e busca resgatar nossa tradição histórica e sintonizá-las com os desafios contemporâneos.

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Por Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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