A história do corinthiano fanático que controlava o placar!

Fórum do Corinthians
Tópico Lendário Entenda as regras

Julio #4.635 @outsiderwebsurfer em 09/12/2015 às 10:12

'OS SEGREDOS DO CORINTHIANO FANÁTICO QUE CONTROLAVA O PLACAR'

A 'culpa' é do imigrante japonês Tomio, que veio tentar a sorte nas terras do norte do Paraná. Trabalhava lá suas 14 horas por dia. Quando sobrava algum tempo para o descanso, corria ao radinho ouvir notícias sobre o futebol.
Depois das campanhas fantásticas da década de 1950, apaixonou-se pelo Corinthians. Ao filho Émerson Heidi Yto, nascido em Marialva, deu dois presentes. O primeiro: condições para que estudasse e se graduasse em Engenharia Eletrônica, na Universidade Mackenzie. O segundo: o amor pelo clube que unia as raças, credos e classes sociais.
Em 1979, Yto adorou quando obteve colocação na Digitalmatic, dos irmãos cearenses Cordeiro Araújo, empresa especializada na instalação e manutenção de placares eletrônicos em estádios.
Além de trabalhar em sua área, imaginou que poderia assistir a bons jogos de futebol, alguns do seu time do coração. Funcionário disciplinado, assíduo e tecnicamente capaz, ganhou a função de operador dos placares nos jogos em São Paulo.
Assim, passaria anos 'marcando gols' a partir das cabines do Pacaembu e do Morumbi. No estádio tricolor, foram 28 anos de serviços, até que o equipamento foi substituído por um novo, em 2008. Foram muitas emoções, uma sucessão enorme de tristezas e alegrias.
Um dia, no entanto, Yto deixou de ser coadjuvante anônimo do espetáculo para converter-se em protagonista.
Contemos a história. Em 1984, ano da luta pelas Diretas-Já, o Flamengo tinha ainda um timaço, com craque do naipe de Fillol, Leandro, Junior, Nunes, Adílio e Bebeto.
Nas quartas de final, foi bater-se contra o então bicampeão paulista, o Corinthians democrático de Sócrates, Casagrande, Wladimir e Zenon.
O primeiro jogo ocorreu no Rio, em 29 de Abril, e os cariocas botaram 98.656 pessoas no Maracanã. Com gols de Élder e Bebeto, os rubronegros saíram em êxtase do estádio, celebrando antecipadamente a classificação. A conduta celebrativa foi seguida pelos jornais da Cidade Maravilhosa.
A imprensa esperava uma torcida corinthiana conformada com a desclassificação. No entanto, 115.002 pessoas se reuniram no Morumbi para assistir à revanche.
Jogo de altíssimo nível, desde o primeiro minuto. Bebeto perde um gol claro no início do espetáculo. Disputa dura, sempre na bola. Até que, aos 32 minutos, Zenon lança para Biro-Biro. Este aproveita-se de falha de Figueiredo e manda para as redes.
O técnico corinthiano Jorge Vieira não queria ver comemorações. 'Ainda precisamos tirar a diferença no placar agregado', berrava. Cinco minutos depois, o raçudo Wladimir rouba uma bola no meio de campo. Ela vai a Biro-Biro, Sócrates e Eduardo, antes de retornar ao próprio Wladimir, que decreta o segundo gol mosqueteiro.
O segundo tempo começa quente. Aos 7 minutos, o voluntarioso Edson municia Sócrates, que passa a Zenon. Este, em jogada de gênio, toca por cima da defesa flamenguista e encontra o mesmo Edson, que arremata para o gol. Três a zero.
Aos 14 minutos, outra jogada para tapar a boca dos críticos. Quem disse que Sócrates não corria? Ele avança como um bólido pela direita da defesa para receber o lançamento de Edson. Domina a bola com maestria e serve na medida para Ataliba mandar o petardo e estufar a rede do adversário.
Sete minutos depois, no entanto, o aguerrido Flamengo marcou seu gol, em uma bola dividida de Paulinho que encobriu o goleiro Carlos. Jorge Vieira parecia prestes a sofrer um ataque cardíaco.
Nunes, incansável, tentava marcar o seu. Em uma bola no ataque corinthiano, o goleiro Fillol - jogando contundido, com uma proteção no joelho esquerdo - antecipa-se a Casagrande, atravessa a linha divisória do gramado e serve a João Paulo, que cruza sobre a área. Juninho, pelo Corinthians, salta de cabeça e mata a jogada.
O jogo é tenso até o último minuto. Poucos corinthianos se atrevem a cantar o 'está chegando a hora'. Quando a vitória é irreversível, no entanto, o homem do placar, o paranaense Yto resolve responder à arrogância dos cronistas e torcedores cariocas, que durante a semana deram a vaga como garantida.
No placar, com fino humor, exibe os horários dos voos da ponte-aérea para o Rio de Janeiro. A princípio, poucos compreendem o chiste. Pouco depois, Yto programa em seu primitivo computador Digital PDP111 a mensagem final, que brilha em luzinhas amareladas: 'Boa Viagem'.
A diretoria do Flamengo ficou bronqueada e o árbitro da partida, Arnaldo César Coelho escandalizou-se. Citou os fatos em seu relatório da partida e exigiu que atitudes como aquela fossem coibidas no futuro. 'Os responsáveis receberam advertência e o fato não mais se repetiu', bazofiou-se, tempos depois, o árbitro.
Evidentemente, a bronca correu os corredores da cartolagem e foi desaguar pesada sobre o tímido corinthiano do placar. Yto, no entanto, não se deu por vencido. Naquele período de insurgências, crepúsculo da Ditadura, usou o placar para divulgar uma nova mensagem. No jogo contra o Fluminense, na semana seguinte, a massa de 90 mil pessoas viu uma tesourinha brilhar no placar do Morumbi. Era o delicado protesto contra a censura.
Hoje, aos 58 anos, casado, pai de uma filha de 20 anos, Yto ainda lida com os antigos placares eletrônicos, alguns deles desmembrados e enviados para estádios menores, como o Eduardo Guinle, em Nova Friburgo, e o Edson Passos (Giulite Coutinho), no Rio de Janeiro. Nunca pisou na nova arena corinthiana, em Itaquera.
'Os placares da velha geração são testemunhas de um tempo que se foi no Brasil, de futebol bonito, técnico e de muita torcida nos estádios', relembra Yto, nostálgico. 'Esses registros não se apagam e lá estão as conquistas do nosso querido Corinthians'.

Foto de ACTC-MT - ASSOCIAÇÃO CORINTHIANOS DE TCHAPA E CRUZ. Fonte: Grupo Barbearia Battaglia - Corinthianismo Vivo (Publicado por Walter Falceta).

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Adriano Campione #136 @rene.campeao em 09/12/2015 às 10:34

Isso é que é tópico! FANTÁSTICO!

Yto, o precursor do maluco do telão!

São Paulo era fantástica nos anos 80, mesmo naquele país conturbado...e o Corinthians mais ainda.

Sem duvida, fazia-se a máxima...naquele tempo, mais ainda de que ser corinthiano era ir além de ser ou não se o primeiro. Era feito de momentos peculiares, únicos, como este.

Ragnar Maloqueiro #118 @fielbsb em 09/12/2015 às 10:34

Não seria a filha do Yto, 'o maluco do telão'?

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Julio Saito #4.635 @outsiderwebsurfer em 12/12/2015 às 01:45

Para complementar, vai aqui o relato do protagonista do placar eletronico: 'Naquele dia, havia 115 mil pessoas no Morumbi. Eu ficava muito bem instalado em uma cabine, com visão ampla do campo. Foi um dia emocionante! A brincadeira não foi premeditada e só ganhou maiores proporções porque o árbitro Arnaldo César Coelho relatou o ocorrido na súmula. Não fui punido. Acho que ele não viu muita graça. No futebol, é preciso ter um pouco de bom-humor. O placar era bastante informativo. Trazia o resultado dos outros jogos, a classificação atualizada, e até algumas informações de utilidade pública. Junto com o jogo, eu acompanhava as emissoras de rádio.' (Emerson Heidi Yto)

Adriano #136 @rene.campeao em 09/12/2015 às 10:34

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Isso é que é tópico! FANTÁSTICO!

Yto, o precursor do maluco do telão!

São Paulo era fantástica nos anos 80, mesmo naquele país conturbado...e o Corinthians mais ainda.

Sem duvida, fazia-se a máxima...naquele tempo, mais ainda de que ser corinthiano era ir além de ser ou não se o primeiro. Era feito de momentos peculiares, únicos, como este.

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Julio Saito #4.635 @outsiderwebsurfer em 11/12/2015 às 23:11

Valeu, Adriano! Agradeco a todos que curtiram este post sobre uma singela passagem das pequenas histórias de corinthianismo que fazem parte da grandeza do nosso Timão! Emocao total! Vai CORINTHIANS!

Adriano #1554 @drifus em 10/12/2015 às 12:46

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Parabéns Júlio por trazer essa bela história do primeiro maluco do telão.

[email protected]@el Tato #1.386 @tatolhp em 10/12/2015 às 14:01

Legal d+... Show de bola...

Adriano Moraes #1.554 @drifus em 10/12/2015 às 12:46

Parabéns Júlio por trazer essa bela história do primeiro maluco do telão.

Julio Oliveira #4.544 @julio.oliveira11 em 10/12/2015 às 11:12

Sensacional!

Mario Bifolco #2.455 @mario.bifolco em 10/12/2015 às 11:01

Tive a satisfação de estar nesse jogo, namorava uma garota flamenguista nessa época e ela havia me zuado no domingo anterior, ao contrario do que foi dito o jogo não foi tenso o Corinthians dominou completamente um verdadeiro show inesquecível tanto que a torcida superlotou o morumbi fora a multidão que não conseguiu entrar tamanha era a confiança nesse jogo.Como dizem hoje em dia, o japa mitou muito teve uma sacada sensacional, como sempre a fiel na vanguarda.

Felipe Lima Bezerra #814 @felipelouco em 09/12/2015 às 22:22

Esse cara mitou!

Wagner Rodrigues Cavalcante #381 @wagnho em 09/12/2015 às 21:46

História top

Korujinha 1000° #47 @elaine.vitor1 em 09/12/2015 às 21:35

Emocionante...parabéns

Benivaldo Silva Feitosa #727 @ninhofei em 09/12/2015 às 21:25

Grande história desse grande corinthiano, e esse jogo eu estava no morumbiba e assisti a esse grande jogo do nosso grande Timão, é muita grandeza junto né mas isso é Corinthians ' grande '' e vai Corinthians! Rsrsrs.