A narração do Galvão e a resistência ao padrão Corinthians - ou como fazer a tática ser cool?

Fórum do Corinthians

Páme #883 @oi.korinthioi em 22/06/2018 às 14:19

Estou adaptando como post um comentário que fiz porque acho que ele enseja uma questão interessante.

Há uma tática do Galvão que foi adotada, principalmente em sua emissora, mas não somente e que acho que vale parar pra refletir sobre porque impacta numa dificuldade de 'venda' do nosso time como marca.

O Galvão assumidamente nem gosta, nem entende muito de futebol, e narra principalmente pra um público que não acompanha futebol a não ser de 4 em 4 anos. Isso é importante: Galvão não narra partidas comuns. Ele só é chamado pra narrar aquelas partidas que quem não assiste o dia a dia do futebol também vai assistir.

O público principal dele é esse. Pessoas que, na real, não gostam muito de futebol e estão ali pelo evento, que ressurgem de repente, numa final disputada por seu clube, na decisão de um mundial, ou pra acompanhar a seleção na copa.

Então ele faz duas coisas:

1) artificialmente ele tenta criar um clima de emoção, não importa o quão sem graça esteja a partida. Essa é provavelmente a principal razão dele ter ganhado a importância que ganhou como narrador de várias modalidades de esporte completamente distintas. Ele faz parecer que a parada é mais emocionante/interessante do que de fato é. E inclusive achar ele chato faz parte disso. Raiva também é uma emoção e é mais 'produtiva' do que indiferença em termos de fazer a pessoa consumir um produto;

2) pra garantir que a galera que não acompanha futebol mantenha interesse na partida, Galvão sempre elege um 'herói' pra galera acompanhar. Já foi Ronaldo, no vólei era o Giba, e agora é Neymar na seleção, cada um com um bordão pra acompanhar. Quem não entende do jogo assume uma função menos complicada do que entender todas as variáveis necessárias pra acompanhar uma partida - e que precisariam de um certo repertório pra ele poder julgar adequadamente - e passa a apenas tentar acompanhar um jogador e esperar que ele faça um drible ou um gol (ou ponto no vólei, ou o que quer que seja o equivalente no esporte em questão);

Essas duas coisas são insuportáveis, porque nitidamente artificiais, pra quem entende e gosta do jogo. Mas são extremamente efetivas pra senhorinha que gosta de acompanhar a seleção (e que provavelmente a essa altura você já deve ter ouvido perguntar 'quem desses é o ronaldinho? ' e depois se explicar que na verdade ela queria se referir ao Neymar), mas não gosta de futebol, pra o moleque que se acha cosmopolita porque só curte basquete e futebol americano e foi pra o churrasco com a galera do trabalho, etc.

O que a emissora (mas não somente ela) oferece é uma versão simplificada e mais fácil de digerir do que a partida que realmente está passando, porque isso é mais fácil de vender.

E qual é o problema que isso traz pra o Corinthians?

O problema é que, de 2011 pra cá, a gente não encaixa nessa lógica. Nosso futebol é em primeiro lugar, centrado em uma defesa sólida, ou seja, não tem foco no ataque - de onde geralmente se elege o ídolo da partida. Em segundo lugar, é baseado em uma tática bem aplicada, o que significa que não é um jogo baseado na jogada 'genial' que desequilibra a partida, mas numa constância de jogo ao longo da partida. Finalmente, desde o caso Pato, abrimos mão de ter 'medalhões' como referência, em nome do futebol coletivo, então não há muito critério para eleger um herói no time. Geralmente, os gols são bastante distribuídos entre os jogadores, não há uma referência isolada.

A consequência disso é que a gente a) tem um estilo que vai na contracorrente do que acostumou-se a considerar como bom futebol no Brasil e b) isso, por sua vez, dificulta às pessoas, principalmente aquelas que não acompanham nossas partidas regularmente - ou seja, a maioria das pessoas que não torcem para nosso time - a perceberem o nosso time como um 'bom time'.

Acho que isso é um dos principais fatores que reforçam a rejeição ao time. Notícias contra a gente tendem a ter maior repercussão, ou seja, do ponto de vista do jornalismo desportivo como negócio, elas vendem bem, porque temos a maior rejeição no Brasil. Por sua vez, o fato de que a gente vai na contracorrente desse futebol super-simplificado de uma maneira muito contra intuitiva para o torcedor médio, é fácil ele acreditar, por exemplo, em teorias sobre apito amigo, porque é difícil pra ele entender como nosso time poderia merecer ganhar. Finalmente, torna-se menos atraente se associar ao Corinthians para uma marca, porque o pacote que vem com isso não é positivo em muitos casos.

E essa imagem se perpetua inclusive aqui.

A própria torcida muitas vezes avalia os jogadores pela sua capacidade de individualmente criar desequilíbrio e muitas vezes cria uma pressão para os treinadores se adaptarem a essa expectativa - essa era a raiz da grande maioria das críticas ao Carille mesmo quando o time estava na ponta de cima da tabela.

Acho que uma boa questão pra o marketing do clube - e que eu acho que ajudaria a resolver as outras - é exatamente essa. Não rola voltar atrás e o futebol está indo na direção que a gente vem aplicando. Como aproveitar que a gente vem sendo pioneiro nesse estilo coletivo de jogo no Brasil pra abraçar essa imagem e como tornar ela comercializável, vendável pra quem não entende de futebol?

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Mohamad Ali Smaidi #596 @mohamad em 22/06/2018 às 21:49

Concordo ctg, mas para o torcedor apaixonado e em especial o Corinthiano, pouco importa o show ou o espetáculo, queremos ver nosso time campeão e dane-se o show e pirotecnia.

O que quero dizer, é que, quanto mais show, quanto mais for vendido como evento mais terá esse público descrito pelo colega do post e menos terão torcedores apaixonados.

Torcedor raíz, que ama o time, que não dorme quanto o time perder e que se sente um super herói quando seu time ganha (nós como corinthianos sabemos isso melhor que ninguém), esse torcedor vai para o estádio ansioso, nervoso, esperando a vitória do seu time, já o torcedor que gosta de espetáculo vai mais para curtir evento do que incentivar e torcer pelo seu time.

Quanto mais evento, mais espetáculo, mais pirotecnia, mais se parecerá com um teatro ou circo e as pessoas que estarão in loco se sentirão clientes e não torcedores.

Cesar @cesarserrano em 22/06/2018 às 15:12

" "

O que muda é: para a grande massa, esporte é entretenimento e exatamente assim ele é tratado.

Uma comparação tosca que vou fazer (por acompanhar muito NFL): lá, mesmo na transmissão, não é simplesmente um jogo é sim um espetáculo, câmeras pra lá e pra cá e estatísticas a dar com pau, e muitas vezes explicações para leigos.

O Super Bowl tem o show do intervalo deles que é feito pra TV, não pra quem acompanha o esporte lá.

Aí, trazendo pra nossa cultura, quando tem eventos tipo Copa do Mundo, o entretenimento ganha do esporte e o que é vendido a todos é isso: um ídolo, um sonho, uma válvula de escape.

Nós ganhamos muito mais mídia no período entre 2007 e 2012 por exatamente isso: foi uma.jornada do Inferno ao Céu, e isso vende...

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Nery Douglas #78 @douglas.nery em 22/06/2018 às 21:29

Huuuuuuuummmmmmm...

Fábio Andrade Ribeiro #2.654 @torcedor.consciente em 22/06/2018 às 17:50

Tópico excelente.. Parabéns!

Páme Korinthianoús! #883 @oi.korinthioi em 22/06/2018 às 17:26

Obrigado!

Rufus #1814 @rufus.lenhador em 22/06/2018 às 17:23

" "

Taí um ponto de vista muito perspicaz. Tomara que alguém da diretoria ou dos departamentos tenha uma visão ao menos próxima disso, ajudaria muito na readequação da imagem.

Páme Korinthianoús! #883 @oi.korinthioi em 22/06/2018 às 17:25

Opa, muito obrigado!

Rufus Lenhador #1.814 @rufus.lenhador em 22/06/2018 às 17:23

Taí um ponto de vista muito perspicaz. Tomara que alguém da diretoria ou dos departamentos tenha uma visão ao menos próxima disso, ajudaria muito na readequação da imagem.

Anisio Molim #104 @amoamolim em 22/06/2018 às 15:33

Na parte galvão, pode até mesmo dar o crédito de uma teoria, mas, a prática diz totalmente o contrário, que significa dizer que o galvão foi talhado pela sua empresa do qual ele é empregado com privilégios enormes, para ser o grande manipulador do brasileiro médio, com uma dose imensa de nacionalismo ufano, e piegas, somente nessas datas obviamente, pois, ele tem que se agarrar em alguma coisa do simbolismo nacional, para que o povo se esqueça das reais mazelas em que vive e que não tem coragem de inverter esse placar que é histórico e secular, assim como fazia o brasileiro se agarrar às corridas de carros, onde sua grande e imensa camada da sociedade, mal conseguia e ainda não consegue se alimentar minimamente de forma adequado e não ter educação formal suficiente para voltar-se contra isso (mas todos já sabiam o que era uma Ferrari), que era um tremenda fantasia, ao invés de transmitir programas de maior importância cultural. Foi e continua um grande agente da manipulação nacional, assim como os demais jornalistas que lá trabalham, hoje sem exceção alguma.

Airton Senna, com todos os privilégios com sua notória profissão de corredor de automóvel, nem percebia a manipulação que esse indivíduo praticava em cima de seu ser e de sua imagem. Porque também, não tinha educação formal suficiente para exercer um mínimo de senso crítico, só o fazia na sua área de atuação, que era uma área de pessoas de alta adrenalina por velocidade, nada mais que isso. Todos eles com o ensino médio inconcluso.

O que tinham de diferente, era o dinheiro de paitrocinadores, e o apetite e a coragem de andar num bólido a 300 km, com segurança questionável. Assim foi Emerson, Pace, Piquet e Airton. Os mais importantes brasileiros da categoria.

Esse é galvão, um sujeito que saiu do interior narrador de futebol de rádio, também sem curso superior do qual teve uma fada madrinha que o levou ao reino encantado global.

Tinha um inveja absurda do Luciano do Valle, porque esse era o protagonista da narração brasileira na TV de todos os esporte nacionais em que nos anos 80 se constituía como populares, como foi o Voley, pois, nos anos 70, ninguém nesse país sabiam que existia esse esporte, ou, falavam dele, cuja a pratica era normal nos colégios PÚBLICOS e privados, assim como eu pratiquei no meu colégio nos anos 60 dos 13 aos 17. Basquete e Voley.

O Basquete aqui era o segundo esporte nacional, infelizmente acabaram com ele, principalmente na narração desse esporte, por esse sujeito inculto, que não consegue dar à sua existência, nem mesmo uma frase por menor que seja ela e sem muita profundidade nenhuma filosófica, de tão tosco intelectualmente que é.

Mas, ainda consegue manipular a grande camada de incautos. Não talvez como nos anos 90 e dos primeiros anos da década do século XXI, mas, ainda tem o seu público, assim como faustão, sílvio Santos e o programa fantástico.

Cesar Serrano @cesarserrano em 22/06/2018 às 15:12

O que muda é: para a grande massa, esporte é entretenimento e exatamente assim ele é tratado.

Uma comparação tosca que vou fazer (por acompanhar muito NFL): lá, mesmo na transmissão, não é simplesmente um jogo é sim um espetáculo, câmeras pra lá e pra cá e estatísticas a dar com pau, e muitas vezes explicações para leigos.

O Super Bowl tem o show do intervalo deles que é feito pra TV, não pra quem acompanha o esporte lá.

Aí, trazendo pra nossa cultura, quando tem eventos tipo Copa do Mundo, o entretenimento ganha do esporte e o que é vendido a todos é isso: um ídolo, um sonho, uma válvula de escape.

Nós ganhamos muito mais mídia no período entre 2007 e 2012 por exatamente isso: foi uma.jornada do Inferno ao Céu, e isso vende...

Lu Siqueira #38 @lusiqueira em 22/06/2018 às 14:31

Infelizmente.

Oilson #2 @reyes em 22/06/2018 às 14:29

" "

Esse é o modus operandi da imprensa.

Lu Siqueira #38 @lusiqueira em 22/06/2018 às 14:31

Ainda bem que tenho outras opções

Não sou obrigado a ouvir este Gaviao Bueno.

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