Uma catarse popular

Uma catarse popular

O jogo nem foi o mais importante. O rival também não foi o arquiinimigo. Mas a experiência foi abruptamente ímpar. O sofrimento fez dos presentes nobres guerreiros e aquele interstício explodiu indelével para uma nação de fé.

Era o segundo jogo da semifinal do campeonato paulista, Corinthians e Santos, um jogo difícil. Chovia cinza, o Peixe tinha a vantagem do empate, e desde o começo jogo dava sinais de sua singularidade. Dois minutos depois de o time da baixada desperdiçar um pênalti com a trave, foi a vez da equipe paulistana fazer o mesmo. E dois minutos depois de o placar ter sido inaugurado pelo Santos ele se tornou novamente parelho, mantendo a vantagem àquele. Estranhas simetrias.

A chuva engrossou, as brechas diminuíram e o estádio se inundou de tensão. Todo o redor estava escuro: a cidade, o céu, as torcidas. Apenas o campo brilhava misticamente, instigando uma esperança hipnótica. A disputa estava já fervilhando nas veias e poros, mas o jogo embruteceu, perdeu sua beleveza. Ambos os times jogavam compactos, impedindo a evolução adversária - um embate de nervos. As escassas iminências tiravam só de susto quando em vez, secundadas pelo ululo de meia massa.

Os espectadores estavam inquietamente vidrados, cada qual à sua situação. Os alvinegros de lá, vantajosos, gozavam de uma instabilidade superior. Os de cá, acometidos por uma fé irrestrita, perdiam parte de si a cada desarme. Como que clamando pelo milagre sublime, entoavam ciclicamente o mais sagrado dos mantras: “Ô ô ô Todo-Poderoso Timão...”.

Os derradeiros três quartos de hora deram um trabalho frenético aos ventrículos corinthianos, que em casos até engasgaram. Um tempo inteiro sem tentos, que consumiu exponencialmente a energia e o pensamento de todos os fiéis. A dramaticidade aumentava a cada volta do ponteiro, oprimindo uma emoção crescente em dimensões temporais paulatinamente reduzidas. As vozes, obstinadas, incentivavam roucamente os cruzados, que se digladiavam na arena relvada.

O período regular já havia se esvaído, e nossas tensões formavam uma manada desenfreada prestes a ser abatida com um único silvo. Nestes segundos quebradiços, assim como sempre, acreditávamos não só que a glória era alcançável, como nossa destinatária. Mas o impossível e o improvável eram antagonistas, e o último prevaleceu.

Aquela foi a trajetória da perfeição, velozmente traçada nas retinas de tantas testemunhas. Gil, lépido escorregadio, foi lançado ao fundo esquerdo, deixou o marcador no chão e cruzou para a meia-lua, Marcelinho esquivou num corta-luz e a bola sobrou nítida para Ricardinho desferir a canhota chapada. Suspensa num instante eterno, a esfera viajou pelo caminho único para se juntar à sua contraparte.

- GOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLL!!!!

Gol! Gol! Gol! Um furacão irracional assalta a multidão ensandecida. O grito monossilábico é neste momento toda nossa razão e sentimentos, a existência era aquele semicírculo catártico. Pulávamos despossuídos como se o controle dos movimentos não fosse nosso. E abraçados entre estranhos fraternos, nós, os guerreiros de São Jorge, transbordamos alegria dos olhos. Entorpecidos, mirávamos o Baixo Olimpo, só agora incrédulos.

O peito rasgado desfalece em uma arritmia pós-orgástica, e a exaurida consciência lentamente retorna à sua morada. Ah, o título foi nosso... Salve o Todo-Poderoso Timão!!

Fonte: André Benevides

Enviado por: André Benevides

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