Cavando o futuro

Cavando o futuro

Alexandre Pato tem 24 anos - um rapazinho para a vida; um profissional da bola com certa rodagem e badalação. Tão novo e já topa com uma encruzilhada na carreira, que não será a mesma depois da noite de quarta-feira. Tudo por causa de um pênalti desperdiçado, que confirmou a eliminação do Corinthians na Copa do Brasil no clássico com o Grêmio, em Porto Alegre. Desclassificação em momento ruim, para ele e para o time.

A falha de Pato não está no fato de não ter marcado o gol - antes dele, também Danilo e Edenílson viram as respectivas cobranças pararem nas mãos experientes de Dida. O pecado do moço se manifestou na maneira como tentou enganar o homem de gelo que já estragou tanta festa de adversários ao agigantar-se sob as traves.

Pato apelou para o recurso da cavadinha, aquele toque sutil que faz a bola ganhar efeito suave e descansar com mansidão nas redes, às quais apenas roça. Uma lindeza, sinal de confiança, de habilidade, de sangue frio do batedor. E uma humilhação desgramada pro goleiro. A torcida se esbalda, quando há acerto; fica fula com o erro. E, pra azar do Pato, deu a segunda opção.

A ousadia encanta em qualquer idade - no jovem mais ainda, porque, por natureza e hormônios, tem de atrever-se, como parte do processo de afirmação e maturidade. Imagino o Pato naquela hora: última chance de empatar (estava 3 a 2) e forçar os chutes alternados. Como anda meio em baixa com o público e o treinador, deve ter pensado que seria o instante da consagração, da prova de segurança e domínio; o valor do craque sobressairia. Enfim, a glória.

Mas o Pato patinou e, em vez da patada, saiu aquela coisinha chocha, sem graça, uma merrequinha que o Dida abraçou com doçura. Que vacilo! Não veio, na cabeça do rapazola, o estalo de que o negócio era fechar os olhos, encher o pé e fosse o que Deus quisesse. Mas esse estalo vem para os gênios, e Pato, com todo respeito, não é gênio.

Pato se encalacrou, mas o episódio é emblemático, por vários motivos. O primeiro deles, que serve para Danilo e Edenílson: o trio conhece (ou deveria) Dida e sua fama justificada de pegador de pênaltis. Nunca se deve cobrar rasteirinha ou à meia altura, pois o grandalhão se esbalda. Romarinho e Alessandro agiram conforme o figurino e lascaram bomba, como exigia a ocasião.

Com a mancada, Pato virou o telhado de todo mundo e ofuscou o marasmo que domina o Corinthians. Outra vez, a equipe jogou futebol feio, insosso, que desembocou em 0 a 0. Vai ter incapacidade pra marcar gol assim pra lá das Ilhas Salomão! E o Emerson Sheik? Teve outro piti, por causa de uma trombada, perdeu tempo em dar tapinhas em Vargas e levou vermelho. O destemperado passou para segundo plano, bem como decisões de Tite.

Não sei como o Pato reagirá - na hora ficou atônito, deu a impressão de estar fora da realidade. Mas cada um tem maneira própria de manifestar decepção. Nem todo mundo é expressivo, se descabela, chora e pede perdão em público. Já, por dentro...

Daí o caminho cruzado: se tiver fibra, Pato vai comer a bola, a grama, além de infernizar os rivais. Se tiver autocontrole, absorverá provocações dos outros, pressão e ofensas da torcida. Falta conferir se terá oportunidade. Ou surge um novo Pato dessa crise, ou dará razão aos que o consideram só uma promessa que não vingará. Como tantas outras que viraram histórias banais.

Bons velhinhos. Dida e Rogério Ceni já foram dados como superados e acabados. Um passou dois anos à deriva até ser resgatado pela Lusa em 2012, o outro levou bordoada dias atrás por pênaltis perdidos. Os dois campeões do mundo em 2002 - reservas de Marcos, mas estiveram na Copa - arrasaram e viveram noite de heróis, tiveram papel decisivo para os respectivos clubes. Rogério teve das atuações mais exuberantes de que me lembro - e já vi muitas nesta vida. Ambos mostram como contam experiência e história, e como é triste o preconceito com idade.

Fonte: Estadão

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