Sofisma a derrubar

Sofisma a derrubar

A torcida do Corinthians anda numa felicidade de dar água na boca - ou de provocar dor de cotovelo em quem mais uma vez ficou a ver navios. A partir do início da noite de domingo, não faltaram comemorações bonitas, emocionadas, exageradas, como manda o figurino do futebol, por um título merecido. A propósito da conquista do penta, o Luiz Zanin, um boleiro de mão cheia, acertou na mosca na crônica de ontem ao lembrar que em campeonatos por pontos corridos o campeão sempre será por merecimento. Desde que não chegue ao topo por obra e desgraça de mutretas. O que não foi o caso alvinegro.

Os festejos também reavivaram um estereótipo chato pra chuchu, o de falar que "tudo para o Corinthians é mais difícil". A origem desse mito se perdeu no tempo, e provavelmente esteja ligada à já longínqua época em que a Fiel sofria com o time pelo jejum de taças. Essa agonia durou de 1954 (na verdade, começo de 1955) até outubro de 1977, com o Paulistão e o famoso gol de Basílio.

De fato, antes daquele episódio houve um período duro de engolir. Era um tal de Santos, Palmeiras e São Paulo se fartarem com troféus e o alvinegro só chupar dedo. Essa fase felizmente passou e o Corinthians, na sequência, se transformou num dos maiores papatítulos de que se tem notícia. Não há vacas magras no Parque São Jorge.

Também soa falso sugerir clube ligado apenas às classes mais pobres. Com a popularidade enorme, e sempre a crescer, o campeão brasileiro tem fãs em todas as camadas da sociedade. Em priscas, poderia ser classificada como equipe simpática a operários e "gente humilde". Pode ter sido lá pelos anos 1930, 1940, 1950. Não é mais. Hoje, muito da tal de elite é alvinegra. Ainda bem, bacana, sinal de que não há discriminação.

Algum cricri de plantão vai dizer que as estatísticas apontam que o Corinthians tem mais torcedores nas classes C e D. Acredito, claro, por uma constatação matemática e óbvia: porque sua torcida é maior do que as demais. Por esse raciocínio, se conclui ainda que tem mais seguidores nas classes A e B. Ou seja, não se limita a uma casta. Há santistas, palmeirenses, são-paulinos em todas as faixas, mas em menor número. Nem por isso, devem ser considerados exclusivamente populares ou de elite.

A imagem do "maloqueiro e sofredor, graças a Deus" foi forma de identificar a Fiel como a única representação legítima da plebe. Papo furado. O marketing do sofrimento funciona (discordo), e a mídia encampou por conveniência e para aumentar audiência. Pega bem reforçar alegoria do gênero - mesmo que soe oca e esnobe essa espécie de monopólio da pobreza. Doidice. Vai entender...

Os grandes clubes são populares por definição. Aí, sim, dá para afirmar graças a Deus que seja dessa forma. Não existe time de elite, não há como. Nem por decreto. Não acredite em números - eles podem ser manipulados de acordo com o interesse do freguês. Se um sabonete baratinho quer vender mais para corintianos, será fácil encontrar o público alvo nos substratos menos favorecidos. Se um carrão de luxo quer sensibilizar bolsos alvinegros, vai achá-los entre os ricaços. Ambos os casos são verdadeiros, porque tem corintiano em todo canto.

A lenga-lenga do "mais difícil" merece duas palavrinhas. Difícil é para perdedores, para times que não passam de coadjuvantes nos torneios de que participam, para os quais a glória bate sempre na trave. Para os coitadinhos limitados que se contentam com uma copinha mixuruca de casados e solteiros em fim de semana. O Corinthians não. O Corinthians tem um dos currículos mais invejáveis do futebol: é o maior campeão paulista (26), tem 5 brasileiros, 3 Copas do Brasil, 5 Rio-São Paulo, 1 Mundial de Clubes, além de uma infinidade de outras taças. A todo momento está a brigar por novos títulos e agora constrói mansão chiquérrima, que não tem nada de casebre. Aleluia!

Os rivais podem alfinetar que falta a Libertadores. Sei, e daí? Isso não diminui o Corinthians nem comprova a tese vira-lata do "tudo é mais difícil". A fiel tem de orgulhar-se de sua agremiação vencedora e deve mandar para escanteio o estigma de sofredora. Na boa, entre nós: você que é corintiano dê uma olhadinha em volta e me responda, sem pensar duas vezes: hoje em dia quem padece de verdade? Como?! A torcida de quem?! Hum, matou a charada. Leve o leitãozinho de brinde de Natal.

Fonte: estadão.com.br

Enviado por: Sérgio Murilo

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