'Efeito Arena' traz melhorias a Itaquera, mas deixa obras inacabadas e elefante branco sobre Radial

'Efeito Arena' traz melhorias a Itaquera, mas deixa obras inacabadas e elefante branco sobre Radial

Vinícius Souza

Por Vinícius Souza, de Região da Arena Corinthians

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Placa sobre Radial Leste orienta mais desavisados: Arena Corinthians fica logo ali!

Placa sobre Radial Leste orienta mais desavisados: Arena Corinthians fica logo ali!

Foto: Larissa Lima/Meu Timão

Estima-se que quatro milhões de pessoas residam na Zona Leste de São Paulo. Somente em Itaquera, distrito considerado portal da região, aproximadamente 500 mil habitantes. De 2011 a 2014, o bairro-dormitório localizado na periferia passou por transformação simbólica, tudo para atender às exigências da Fifa e assim abrigar o jogo de abertura da Copa do Mundo no Brasil, realizado na Arena Corinthians, casa do Timão.

Prefeitura de São Paulo e governos estadual e federal, então, deram início a diversas obras de infraestrutura a fim de viabilizar o desejo de autoridades ligadas à entidade máxima do futebol mundial, CBF, empresários brasileiros e gringos e cidadãos paulistanos: que São Paulo se tornasse sede do Mundial – havia grande risco de o principal centro financeiro da América do Sul ficar fora da Copa, mas isso é assunto para uma outra conversa.

2014 chegou. Teve Copa, abertura em Itaquera e até vexatório 7 a 1 da Seleção Brasileira! Entretanto, com relação ao bairro em que a Arena está inserida, o que mudou de lá para cá? Quais melhorias então prometidas pelo poder público jamais saíram do papel?

O Meu Timão foi a Itaquera conversar com moradores e comerciantes para tentar responder a essas e outras perguntas. Acompanhe abaixo o especial Fala, Itaquera!.

Valorização imobiliária

Prédios grafitados dão cor a cinzenta Itaquera

Prédios grafitados dão cor a cinzenta Itaquera

Larissa Lima/Meu Timão

Tão logo a Arena foi anunciada pela Fifa como sede do Mundial e palco da primeira partida da competição, entre Brasil e Croácia, o mercado imobiliário aqueceu. O valor médio do metro quadrado de um apartamento já construído no bairro, por exemplo, saltou de R$ 3 mil para R$ 4 mil apenas em razão do rebuliço em torno da notícia de que os olhos do mundo estariam voltados para ali.

De acordo com André Luis Moraes, gerente da imobiliária Vivacce Imóveis, próxima à estação Artur Alvim, a valorização da região foi perceptível, mas não tanto quanto a esperada. “Os imóveis naquela época estavam em torno de R$ 150 mil. Falaram: ‘Vai pra R$ 250 mil quando o estádio ficar pronto’, e na verdade não foi tão grande. Teve reajuste, como em São Paulo inteira, mas não só dos imóveis”, aponta.

André lembra que parte da população viu com receio a chegada da Copa a Itaquera, sobretudo por conta da expansão imobiliária, que prometia encarecer a área. Quase quatro anos depois do torneio, ele vê com bons olhos não só o evento como as obras executadas no entorno do estádio do Timão.

“Veio a ideia do estádio, bastante especulação, a gente ficava com ponto de interrogação pra saber se seria bom ou ruim. Temos exemplos de outros estádios, como o Pacaembu, o Morumbi, que os moradores acabaram se prejudicando pelo fato do acesso quando tinha jogo. Em contrapartida, falaram que ia valorizar os imóveis, a procura por imóveis... Haveria uma visão de Itaquera melhor, fariam vias de acesso. E isso foi realmente muito bom, as vias de acesso hoje, pelo fato também de ter o estádio, acabaram ajudando os moradores a não sofrerem tanto com o transito”, opina.

Infraestrutura (ou falta dela)

Arena Corinthians vista do alto; à esquerda, Radial Leste e Terminal Metrô Itaquera

Arena Corinthians vista do alto; à esquerda, Radial Leste e Terminal Metrô Itaquera

Danilo Augusto/Meu Timão

Há quem pense diferente. Residente em Itaquera, Telma Ribeiro lamenta a maneira como o distrito foi deixado de lado pelas autoridades pós-Mundial. Também contesta promessas dos governos municipal e estadual não cumpridas, como o projeto de ampliação da Avenida Radial Leste e a entrega de um terminal de ônibus na Avenida Líder.

“Só trouxe especulação. No momento, foi só uma especulação mesmo”, sentencia Telma, corretora na imobiliária MM Sales Imóveis. “Pelo menos em questão de benfeitorias, esperava que fosse bem melhor. Falaram da rodoviária, que é o projeto que está aprovado para fazer em Itaquera, no metrô, e não fizeram”, lembra a corretora. “Como teria a Copa, a gente esperava que alguma coisa desses projetos saísse do papel. No fim, não saiu”.

“É um investimento de quase meio bilhão de reais que vai beneficiar a cidade de São Paulo. São obras permanentes que atenderão às necessidades dos moradores da Zona Leste de São Paulo”, afirmou o governador Geraldo Alckmin em 18 de abril de 2011, ao anunciar convênio para realização de obras direcionadas ao Mundial.

Dentre as principais construções na Zona Leste voltadas à Copa do Mundo está o Complexo Viário Polo Itaquera, inaugurado em 2014. O empreendimento, que interliga a Radial Leste à Arena Corinthians, tinha como objetivo impulsionar a acessibilidade à região via carro e ônibus, dando fôlego ao tráfego local.

Questionada se a obra havia valorizado o bairro financeiramente, Telma é franca. “Não, em relação ao Complexo Viário, não. Na época foi sim valorizado, pessoal começou a jogar o valor do imóvel no alto achando que ia ganhar muita coisa, mas ninguém ganhou nada com isso”, declarou.

Jamais construído: Polo Institucional Itaquera

Apresentado como futuro centro do bairro, ele teria:

  • Fórum
  • Rodoviária
  • Fatec/Etec
  • Senais
  • Alimentação e serviços
  • Incubadora e laboratórios
  • Centro de Convenções
  • Auditório
  • Edifício comercial
  • Polícia Militar e Bombeiros
  • Instituto Dom Bosco
  • Parque Linear Rio Verde

“Saúde mesmo aqui é mais complicado, os hospitais... A gente vê por pessoas próximas da gente, às vezes vai e não tem médico, isso é difícil e não mudou. O que valorizou foram os próprios comércios. Sem nenhum incentivo, viram que teria um público maior vindo pro bairro e melhoraram. Mobilidade também facilitou, você não vê tanto transito como em outros lugares de São Paulo. Pessoal às vezes reclama da Radial Leste, mas, se você for ver no geral de São Paulo, ainda é mais tranquila que muitas avenidas por aí”, pondera André Moraes.

Educação e segurança

Espaços educacionais funcionam de frente à Arena Corinthians

Espaços educacionais funcionam de frente à Arena Corinthians

Larissa Lima/Meu Timão

Duas instituições educacionais funcionam a poucos metros da Arena Corinthians, ambas situadas à Rua Álvaro de Mendonça, em lado oposto da Radial: o Centro de Educação Infantil (CEI) Itaquera, que funciona como creche, e o Centro de Desenvolvimento Social e Produtivo Bom Bosco, oferecendo cursos profissionalizantes e atividades esportivas a adolescentes, jovens e adultos.

As principais reclamações de funcionários dos espaços ouvidos pela reportagem dizem respeito à falta de segurança na região. Como os centros de educação estão no fim de um morro sem residências e ao lado de um viaduto, assaltos e furtos se tornaram frequentes por lá. “Falta policiamento na rua”, resume uma professora.

Elefante branco

Passarela sobre Radial é alvo de reclamações de diversos moradores

Passarela sobre Radial é alvo de reclamações de diversos moradores

Larissa Lima/Meu Timão

Ainda assim, segundo relatos, o alvo número um de protestos de quem mora e trabalha em Itaquera se trata de uma passarela erguida para facilitar a passagem de torcedores sobre a Radial Leste. Atualmente, a edificação está abandonada: sobram pichações tanto internas como externas, além de ser utilizada constantemente por usuários de drogas e assaltantes.

“Construíram coisas que não têm nada a ver, só nós que pagamos. A população que pagou, gastou não sei quantos milhões do nada... Essa passarela aí mesmo, não valeu de nada. Só tem assalto, o pessoal não a usa porque, se usar, é roubado”, denuncia Tadeu de Souza Brito, funcionário de um restaurante à beira da Rua Doutor Luís Aires.

Na visão dele, a única solução para o problema seria implodir o empreendimento. “Polícia nada, tem de destruir mesmo! Se não serve para nada, por que está ali? Só roubou nosso dinheiro... E nós pagamos para isso, é imposto de não sei o quê, prefeitura, é subprefeitura, intermunicipal... Pagamos tudo”, reivindica Tadeu, apoiado por outros personagens.

“Precisa tirar uma passarela que eles fizeram que não dá em lugar nenhum. Pelo contrário, estão assaltando o pessoal do lado de cá (Artur Alvim) e fazendo fuga por lá, atravessando. E pichador. Deu muito pichador... Os corinthianos são terríveis”, generaliza Telma.

O futuro é logo ali

André recebeu reportagem em seu escritório, a poucos metros da estação Artur Alvim

André defendeu escolha da Arena como abertura da Copa

Larissa Lima/Meu Timão

Outra Copa do Mundo bate à porta, mas na Rússia, a mais de 12 mil quilômetros dali. Enquanto outro país se prepara para receber o segundo maior evento esportivo do planeta – atrás somente dos Jogos Olímpicos –, os habitantes de Itaquera mantêm esperança pelo desenvolvimento do bairro-dormitório.

Sobre a Arena Corinthians, a maioria dos personagens ouvidos pelo Meu Timão conclui que a concepção do estádio alvinegro dentro de Itaquera trouxe progresso ao território, ainda que aquém do esperado.

Hoje quantos corinthianos vêm assistir (às partidas de futebol)? Ou o quanto foi visto na abertura da Copa do Mundo? Teve uma atenção maior pro bairro, sim, os comércios começaram a melhorar, a se valorizar, muitas empresas foram se atualizando, padarias, comércio em si”, defende André.

“Para a população, o estádio foi bom", resume Tadeu. Telma, por sua vez, anseia por obras que possam, enfim, fomentar a infraestrutura não apenas do bairro mas de toda a Zona Leste.

“Esperar a gente espera. A gente mora na região, entendeu? Esperamos que uma hora eles finalizem isso”, completa.

Telma mora em Itaquera e trabalha como corretora em uma imobiliária local

Telma mora em Itaquera e trabalha como corretora em uma imobiliária local

Larissa Lima/Meu Timão

Veja mais em: Especiais do Meu Timão e Arena Corinthians.

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