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História
Público e renda da Neo QuÃmica Arena no Dérbi da 'Cabeça de Porco'
Danilo Fernandes / Meu Timão
Cabeça de porco
Opinião de Rafael Castilho
São Paulo, 04 de novembro de 2078.
Relíquias do esporte
Há exatos 54 anos, um dos acontecimentos mais curiosos que envolvem a rivalidade entre Corinthians x Palmeiras ocorreu no estádio do Timão em Itaquera, área nobre da cidade de São Paulo.
Uma cabeça de porco foi atirada ao gramado durante o primeiro tempo do clássico ocorrido entre as duas equipes, no dia 04 de novembro de 2024. Sim, uma cabeça real de um suíno foi atirada no setor Sul do estádio que, naquele tempo, comportava apenas 48 mil torcedores.
A imprensa da época tratou o acontecimento com grande preocupação, sendo que alguns jornalistas se sentiram pessoalmente ofendidos. A manifestação da torcida do Corinthians foi tratada como bizarra, ofensiva e macabra.
A torcida organizada Fiel Macabra, que hoje possui 85 anos de história, negou a autoria do “atentado”, muito embora seus integrantes mais idosos relembram o ocorrido com algum saudosismo, dizendo que a ação direta foi realizada por populares corinthianos.
Perguntamos ao sociólogo Rafael Castilho, hoje com 102 anos, mas gozando de uma saúde invejável, o contexto do ocorrido. O Seu Rafael disse que estava no estádio naquela noite de segunda-feira, mas prefere desconversar sobre o assunto. “Sou sociólogo, não cagueta”, argumenta de maneira evasiva, dando pistas que os responsáveis pela “cabeça de porco” ainda estejam vivos e até mesmo frequentando os jogos do Corinthians, que esse ano celebrou 168 anos de história.
Depois de insistirmos mais um pouco, Seu Rafael abriu seu coração. Sem poder conter a gargalhada, esse velho simpático disse que o episódio foi merecido. Talvez não para o pobre animal que não tinha nada com a história, mas que a ofensa tinha sim alguma razão de existir.
“O Palmeiras sempre quis humilhar o Corinthians”, disse ele. “Sempre que se sentiram por cima do torresmo (ou da carne seca), fizeram de tudo pra pisar no Corinthians”. Para ele, não bastava o Palmeiras ser campeão ou ter a própria felicidade. “A necessidade de pisar no alvinegro do Parque São Jorge era imensa”, continua.
“Lembro bem daquela noite. Fomos ao estádio com um gosto amargo na boca. A nossa voz custava a sair. Era o grito sufocado de um povo. Todos sentiam um nó na garganta. O Corinthians estava ameaçado pelo rebaixamento no Campeonato Brasileiro. O Palmeiras entrou com o pé murcho. Teve diversas oportunidades de definir o jogo no primeiro tempo. Mas seus jogadores estavam muito seguros de si. Consideravam que era uma questão de tempo para o Corinthians ser devorado e pretendiam impor uma goleada histórica. Mas aí, o Corinthians se fez Corinthians. Com muita garra e Garro vencemos aquele jogo”.
“Foram três grandes prazeres. Vencemos o clássico, evitamos nosso rebaixamento e eliminamos o Palmeiras da conquista do Campeonato Brasileiro daquele ano. Literalmente cortamos a cabeça do porco”, lembra ele.
A expressão “cortar a cabeça do porco” ficou conhecida desde então e hoje faz parte do vocabulário informal cotidiano do povo brasileiro.
Nossa coluna: “Relíquias do Futebol”, que dispensa o uso de inteligência artificial e é totalmente escrita por jornalistas humanos, foi atrás das histórias contadas por Seu Rafael e verificou que em 22 de fevereiro de 2017 ocorreu vitória semelhante.
O clube da Barra Funda entrou como grande favorito no clássico contra o Corinthians. Com ajuda do juiz – que expulsou o jogador errado do Corinthians (Gabriel), deixando o time do Parque São Jorge com um jogador a menos durante grande parte do derby - o Palmeiras que estava embalado e cheio da grana foi com tudo para humilhar o Corinthians que vinha de uma fase muito ruim. Mas quase no final do jogo, o histórico atacante Jô fez um gol, sacramentando a vitória mosqueteira.
O ano de 2017 acabou sendo glorioso para o Corinthians que a partir daquele jogo, em que supostamente seria humilhado, cortou também a cabeça do porco e decolou para uma campanha histórica em que foi campeão paulista e campeão brasileiro.
Antes de o Palmeiras ser vendido para um banco, a rivalidade entre os dois clubes era muito maior. Há quase 80 anos, em 1999, uma final de Campeonato Paulista terminou em grande confusão. O histórico atacante Edilson, o capeta, realizou uma série de embaixadinhas no segundo tempo do derby, quando a partida e o campeonato já estavam decididos em favor do Corinthians. Muitos consideraram a atitude de Edilson como uma espécie de “cabeça de porco”, ou mesmo um ato de desprezo pelo adversário.
Mas o fato é que os palmeirenses já haviam entrado em campo para humilhar o Corinthians. Sabedores que perderiam inevitavelmente a final do Paulista, levaram escondidas no calção as faixas comemorativas da conquista da extinta Copa Libertadores. “Também nessa vez a equipe alviverde entrou em campo para humilhar e saiu com cara de “cabeça de porco”, disse Seu Rafael.
O Parque São Jorge, hoje conhecido complexo de recreação, escolas de tempo integral e sede da Universidade Corinthians que atende gratuitamente a população de São Paulo, já foi muitas vezes chamado no passado de Marginal Tietê sem número, de maneira jocosa pela antiga torcida do Palmeiras. Na época o Rio Tietê era poluído, muito longe do balneário de recreação e descanso que se vê nos dias de hoje.
O banco que adquiriu o Palmeiras investe bilhões de dólares em propaganda para reverter essa má fama e promete: “De 2079 não passa, o Palmeiras vai ter mundial”.
Seu Rafael ri com satisfação e grita com a voz satisfeita: “O Palmeiras não tem mundial”. O Corinthians segue firme rumo ao Hexa FIFA no mês que vem.
No ano passado, o banco que adquiriu o Palmeiras também comprou a fábrica Pirassununga 51, com o objetivo de se associar a essa marca que é mundialmente conhecida.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.