Com o Corinthians enfrentando uma enxurrada de condenações na Fifa por dívidas de contratações e rescisões contratuais , todas ligadas à gestão de Augusto Melo, a discussão sobre de quem é a responsabilidade pelos prejuízos financeiros ganhou força nos bastidores. Em entrevista exclusiva ao Meu Timão, o ex-diretor jurídico do clube, Vinícius Cascone, se posicionou sobre o tema, comentou a tentativa do ex-presidente de se isentar de culpa e defendeu que a apuração dos fatos seja feita com critério, sem perseguições políticas.
"Não vejo problema algum (em apurações internas). Desde que se identifique a responsabilidade objetiva, direta e individualizada de cada diretor, e qual foi o fator que isso causou, não vejo nada de errado. O único ponto é que o processo não seja utilizado apenas para fins políticos. Infelizmente, vemos muito no Corinthians pessoas querendo usar processos para justificar uma 'caça às bruxas' ou perseguição a quem não se alinha politicamente. Isso acontece historicamente no clube, e não é só lá; a perseguição política ocorre de forma generalizada no Brasil", iniciou o ex-dirigente ao programa Tabelando, no YouTube do Meu Timão.
Cascone ressaltou que, em qualquer análise de responsabilidade, é preciso individualizar as decisões. Segundo o ex-dirigente, embora diretores tenham influência, a palavra final sempre é do presidente, que deve ser assessorado por sua equipe.
"Para mim, nessa questão específica, não vejo problema algum, desde que seja um processo democrático, que cumpra as regras e que garanta o direito de defesa a todos. Todos estão dispostos a esclarecer. Em relação à eventual responsabilidade, é preciso limitar a responsabilidade de cada diretor. A palavra final e a decisão sempre são do presidente. É claro que ele tem que ser assessorado, não tenho dúvidas. Não podemos responsabilizar o presidente por ter que resolver tudo sozinho. O chefe do Poder Executivo tem que ter assessores. Precisamos voltar a 2024 para entender o que estava acontecendo", disse.
Buscando justificar os gastos exacerbados em contratações na temporada passada, Cascone explicou ainda que, no início do ano, um elenco reduzido e envelhecido, com várias saídas e aposentadorias. A solução encontrada foi investir pesado na reformulação do grupo. O diretor de futebol estatutário na época, Rubão, teria tido ampla autonomia nas negociações.
"No início de 2024, o Corinthians não tinha um elenco. Havia poucos jogadores, e o grupo estava bastante envelhecido, com algumas saídas e aposentadorias. Houve, então, uma tentativa de reorganizar o clube, período em que eu não estava na diretoria. Assumi a Secretaria Geral logo no começo de fevereiro. Para quem não sabe, o cargo visava articular as diretorias, mas, na estrutura montada pelo Augusto, a Secretaria ficou esvaziada no começo. Fiquei quase sem funções no início da gestão", explicou.
"A gestão administrativa tinha uma força muito grande nesse aspecto. É importante deixar claro que essa é uma liberdade do presidente. O diretor de futebol estatutário na época (Rubão) tinha muita autonomia para fazer as negociações dos atletas. Isso foi acontecendo. O Corinthians tentou, de fato, montar um novo elenco, e gastou bastante, não há dúvidas. Algumas contratações deram certo, outras não", afirmou.
O ex-diretor citou o meia Rodrigo Garro como um dos acertos da gestão no mercado de transferências, destacando sua boa performance desde a chegada ao clube. Em contrapartida, mencionou que o zagueiro Félix Torres, apesar do histórico promissor como titular da Seleção Equatoriana, ainda não correspondeu às expectativas e tem sido alvo de críticas. Segundo Cascone, o debate sobre o custo-benefício das contratações é subjetivo, mas reforçou que não participou diretamente das decisões.
"Garro é um exemplo de contratação que deu certo. Félix Torres está lutando para se afirmar e sofre bastante crítica. Mas, se considerarmos o histórico dele na época - e não estou defendendo a escolha, pois não participei dela - ele era o zagueiro titular da seleção do Equador. Lembro de um jogo em que a seleção do Equador anulou o Messi nas Eliminatórias, e ele jogou muito", disse.
"Meu entendimento era: 'Puxa, estamos trazendo um jogador de primeira linha.' Ele não se firmou aqui e recebeu muitas críticas, mas o atleta está no clube. A discussão principal é se o investimento e o valor pago pela aquisição eram razoáveis. Esse ponto é bastante subjetivo, pois o futebol cresceu demais. Deixo claro que não estou querendo me responsabilizar por esse processo."
Razão das dívidas
Cascone explicou que, mesmo com planejamento financeiro inicial, a gestão foi surpreendida por bloqueios judiciais logo nos primeiros meses de 2024. Isso comprometeu o pagamento de salários e de direitos de imagem, gerando multas, agravando dívidas e criando um ambiente de instabilidade dentro do clube.
“Na sequência dessa situação, logo no início do ano, começaram os bloqueios judiciais. Uma série de credores que tinha, por exemplo, termos de confissão de dívida ou outras pendências financeiras, passou a executar o clube de forma sucessiva. Evidentemente que isso asfixiou o caixa. Um planejamento inicial que a diretoria financeira provavelmente fez não pôde ser cumprido. É claro, se a conta está bloqueada, você não consegue pagar o jogador no dia 5. Esse atraso, muitas vezes, aplica multas e, frequentemente, antecipa o vencimento das parcelas."
Um dos pontos mais sensíveis foi a falta de planejamento diante dos bloqueios judiciais que atingiram o Corinthians ainda no começo do ano, comprometendo o fluxo de caixa. Cascone explicou que a dificuldade em cumprir pagamentos de salários e direitos de imagem agravou a situação e gerou multas, elevando a dívida.
O caso de Rojas é o exemplo mais emblemático. O clube foi condenado pela Corte Arbitral do Esporte (CAS) a indenizar o paraguaio em mais de R$ 40 milhões . Para o ex-dirigente, o problema poderia ter sido evitado se a rescisão tivesse sido acionada já em janeiro, quando os atrasos eram evidentes.
"O famoso caso Rojas: se havia um problema sério com o jogador em janeiro, época em que ainda não estava na diretoria, ele já estava pronto para sair. O clube poderia ter simplesmente acionado a rescisão por direitos do contrato de trabalho, porque nenhuma das parcelas de seus direitos de imagem havia sido paga desde que ele chegou. Ele estava há seis meses no clube; era possível iniciar a rescisão", disse.
"Essa é a questão: uma série de situações como essa veio e sufocou o caixa do Corinthians. Havia uma série de pendências atrasadas com os próprios atletas. Tínhamos jogadores com onze meses de direitos de imagem atrasados. Imagine só!", argumentou.
O ex-diretor destacou que a crise financeira afetou também o ambiente esportivo. Jogadores acumulavam atrasos em direitos de imagem, o que prejudicou o clima no vestiário e a relação de confiança entre elenco e diretoria. Segundo ele, mesmo após o pagamento das pendências no início de 2024, o cenário seguiu instável por conta da sequência de bloqueios judiciais e da crise política que afastou novas oportunidades de renda ao Timão.
"Essa situação criou um ambiente muito turbulento para os atletas. O jogador tem razão em se isolar, independentemente de quanto ganhe. Se você tem um compromisso estabelecido, precisa honrá-lo. Não há outra saída. Se o clube não paga, fica difícil cobrar o atleta, já que você não está honrando sua parte. Isso é um ponto. Quando o clube pagou mais de R$ 30 milhões em pendências salariais atrasadas no início de 2024, resolveu-se uma situação extremamente difícil", disse.
"A sequência dos fatos foi essa. Agora, responsabilizar o Vinicius, que apenas opinou sobre o que pode ou não ser feito, não faz sentido. Ele (Augusto) não tinha o controle do caixa do clube. Minha função era de secretário-geral e do Conselho Jurídico, mas claro que conversávamos sobre as situações e possibilidades da diretoria. Nós esperávamos ter uma situação de estabilidade. No entanto, a crise política no Corinthians se aprofundou demais ao longo do tempo, e isso dificultou muito o acesso a novos patrocinadores", explicou.
Apesar das dificuldades, Cascone apontou o contrato de TV assinado com a Liga Forte União (LFU) como uma das principais conquistas estruturais da gestão , garantindo R$ 225 milhões já no primeiro ano. O ex-dirigente lembrou que o clube conseguiu superar o Flamengo no valor de contrato, mas alertou que o benefício se perdeu diante da enxurrada de dívidas que comprometeu o caixa.
"Dentro dos pilares estruturais, fechar o contrato de TV era o mais importante. Hoje, o Corinthians tem o maior contrato de TV do futebol brasileiro para o próximo ciclo de cinco anos. O Flamengo, inclusive, está desesperado e ingressou com ações judiciais para questionar o contrato e a Libra", afirmou.
"Esse movimento foi muito importante em termos estruturais. No ciclo anterior, o Corinthians ficou defasado em relação ao Flamengo, e eu não acho que devamos ter um contrato de TV menor que o deles. Neste novo ciclo, evidentemente, conseguimos um contrato maior. O problema é que, ao mesmo tempo que fizemos essa conquista, o excesso de dívidas e as execuções judiciais que estão caindo nos deixaram completamente asfixiados financeiramente", disse.
Por fim, para Cascone, o caminho do clube deve ser claro: honrar compromissos e reconstruir credibilidade. Ele defende que todas as dívidas precisam ser pagas para que o Corinthians recupere confiança no mercado.
"O clube passou o ano de 2024 sob bloqueio contínuo. Era um desespero diário, com dívidas caindo, novas dívidas surgindo, inclusive aquelas oriundas de processos anteriores que precisam ser pagas", iniciou.
"Eu defendo que o Corinthians deve pagar todas as suas dívidas. É o meu pensamento: se o clube assumiu os compromissos, temos que ter responsabilidade. Isso é essencial para demonstrarmos ao mercado que estamos buscando retomar nossa credibilidade. Não são apenas falas dizendo que 'vamos ou não vamos pagar'; a credibilidade se retoma honrando os compromissos. O Corinthians precisa resgatar a sua credibilidade e, para isso, deve honrar os compromissos com seus credores", finalizou.