Após quase cinco meses fora das categorias de base do Corinthians , os ex-jogadores Chicão e Batata voltaram a falar sobre o período em que atuaram nos bastidores do clube do Parque São Jorge. Ambos chegaram no início da gestão de Augusto Melo, em 2024, e deixaram o cargo após a mudança de comando.
Mesmo após o conturbado fim de sua trajetória no clube, Chicão garantiu não guardar arrependimentos pela experiência vivida. O ex-zagueiro destacou o período como um momento de aprendizado e valorizou a oportunidade de ter contribuído com o desenvolvimento da base corinthiana, mesmo diante de um cenário instável.
“Eu não me arrependo, pois foi um ótimo aprendizado, um aprendizado de verdade. Fiz cursos na Universidade. É excelente! Tenho a licença B da CBF. Eu também caí de paraquedas na função e tentamos fazer o melhor", iniciou o ex-defensor em entrevista ao Alambrado Alvinegro.
O dirigente também comentou sobre um projeto de expansão das captações de talentos que vinha sendo desenvolvido antes de sua saída. A iniciativa previa a criação de núcleos regionais e a realização de peneiras em cidades do interior e fora do estado de São Paulo. O ex-atleta lamentou a interrupção do projeto, que havia começado com sucesso no interior, reunindo cerca de centenas de crianças em cada cidade, sem custo algum para o clube.
"Houve um projeto que desenvolvemos onde eu consegui realizar duas 'peneiras' em duas cidades. Estava criando uma situação para o clube ter núcleos no interior, até fora de São Paulo, posteriormente. Infelizmente, o projeto não teve continuidade. Realizamos peneiras em Palmital e em Cruzeiro, com 400 crianças em cada cidade. E conseguimos fazer isso sem gastar um real! Estávamos colocando essa ideia em prática. É uma pena que não tenha tido sequência, mas estávamos tentando buscar o melhor para o clube”, afirmou.
Um dos temas mais sensíveis abordados por Chicão foi o “caso Kauê Furquim”, jovem promessa que deixou o Corinthians para defender o Bahia por uma multa considerada baixa, de R$ 14 milhões . O ex-coordenador de transição relatou que tentou aconselhar o atleta e o companheiro Gui Amorim antes da saída, pedindo calma na tomada de decisão. O episódio acabou gerando polêmica nos bastidores, já que a transferência envolveu aporte financeiro do Grupo City e acabou sendo levada à Justiça.
"Quando aconteceu a situação do Furquim, peguei meu telefone e liguei para o (Gui) Amorim - ele estava quase saindo junto, e eu estava com o Batata. Eu disse: 'Cara, não tome a decisão por impulso, pois lá na frente, quem será cobrado é você, não o empresário nem o clube. Tome uma decisão de coração'. No dia seguinte, ele renovou o contrato. Posteriormente, ele (Furquim) acabou indo para o Bahia com dinheiro do Grupo City, gerando uma polêmica danada. O Osmar (Stabile) estava reclamando que usaram dinheiro estrangeiro para levá-lo. O caso está na justiça. Como o Bahia pertence ao Grupo City, eles identificaram uma brecha contratual nos valores, depositaram e o tiraram", explicou.
Chicão aproveitou para destacar a necessidade de cautela com a exposição de jovens atletas, especialmente quando possuem contratos com valores rescisórios baixos. Ele contou que evitava divulgar publicamente os treinos de jogadores da base junto ao profissional para não atrair o interesse de outros clubes - algo que, segundo ele, passou a ocorrer após sua saída.
"Não há o que fazer, a não ser que o garoto batesse o pé e dissesse: 'Não quero ir, quero ficar.' Talvez ele tenha sido convencido, não sei. A questão é que nós nunca divulgávamos que os garotos treinavam no profissional, justamente por esse medo de assédio. Se você expõe o atleta e a multa dele é baixa, isso acontece. Aconteceu, por exemplo, com o Victor Roque no Cruzeiro, um atleta que o clube foi lá e o tirou. Eu tinha um cuidado muito grande para não divulgar que os meninos iam treinar no profissional. Porque tem garoto que ganha um valor baixo e tem multa baixa. Aí pensam: 'Ele é bom, vamos levar.' Quatro meses depois (do meu desligamento), vejo que os meninos estão treinando e sendo expostos", pontuou.
O ex-zagueiro também comentou sobre a chegada de alguns nomes polêmicos ao departamento amador, como o filho do ex-executivo Alex Brasil , contratado para o time Sub-14 . Chicão minimizou a repercussão e defendeu o jovem, afirmando que o garoto apresentava qualidade técnica e merecia ser avaliado pelo desempenho em campo, e não por sua ligação familiar.
“O filho do Alex Brasil estava no Palmeiras e depois saiu. O Alex o levou para lá, mas ele era bom de bola, um bom jogador. Ele fez boas partidas recentemente. O que importa é ver a qualidade do garoto, e não julgá-lo porque o pai era executivo do clube. Mas isso é difícil de acontecer”, completou.
Saída de Batata e função do ex-coordenador no cotidiano
Já o ex-coordenador técnico Batata explicou que sua saída não foi surpresa. Ele afirmou que já esperava a mudança com a transição política no clube e considerou natural a troca de profissionais com a chegada de uma nova gestão. O ex-jogador, contudo, lamentou a interrupção do trabalho em andamento, principalmente com os jovens que vinham sendo integrados aos treinos do elenco principal.
“A notícia chegou: o Chicão me ligou e disse: 'Estamos fora.' Mas, para mim, não foi nenhuma surpresa. Com a troca de presidente, quando o ex-presidente saiu, já sentíamos que outro grupo político assumiria, e, automaticamente, quem o apoiava sairia, como está acontecendo agora", iniciou.
"Não me surpreendeu (a saída). A única coisa que lamento é a interrupção do trabalho que estava sendo feito, principalmente com os meninos que estavam sendo aproveitados nos treinos da equipe principal. Mas isso é normal. Resta apenas agradecer a oportunidade que o Corinthians me deu. É natural que, em um clube da grandeza do Corinthians, com a entrada de uma nova gestão, a outra saia”, desabafou.
Batata também negou qualquer envolvimento em contratações de atletas ou cobranças financeiras a pais, destacando que sua função era restrita ao campo e à coordenação com treinadores. Segundo ele, chegou a participar de reuniões pontuais a pedido de colegas, mas nunca teve responsabilidade sobre negociações ou tratativas com empresários.
“Olha só, minha função não era contratar. Minha responsabilidade era a coordenação dentro de campo. Eu debatia, como eu disse, com os treinadores. Não, eu não contratava ninguém. Eu participei apenas de uma reunião com os pais e o Robson, porque o Robson me pediu para conversar com um garoto que estava de saída. Nós só começamos a fazer essas reuniões com todos na sala depois. Eu não participava de reuniões com empresários. Minha função era, estritamente, com os treinadores, no campo", explicou.
O ex-coordenador ainda relatou episódios de pressão por parte de empresários e familiares de atletas, que tentavam interferir nas escalações e decisões técnicas. Batata contou que buscava agir com transparência, mantendo conversas diretas com os jovens e reforçando a importância da disciplina e da postura profissional.
"Teve um empresário que nos disse: 'O pai do Fulano não gosta de vocês, porque o pai queria que ele jogasse.' Mas não sou eu quem escalo. Essa é a questão, muitas vezes você não pode falar abertamente com um atleta, pois o empresário estará lá no dia seguinte. O comportamento (do treinador) precisa ser cauteloso em relação ao jogador", disse.
Por fim, Batata afirmou que sua principal missão era formar caráter e responsabilidade nos atletas, mais do que apenas lapidar talentos. Ele destacou que trazia aprendizados de sua carreira como jogador para orientar os meninos, com conversas francas sobre erros e acertos dentro e fora de campo. Para ele, a honestidade e o diálogo eram fundamentais para construir atletas conscientes e comprometidos.
"Mas eu disse a eles: 'Um dia, eu vou falar o que vocês têm que ouvir. Eu sou amigo de vocês, não posso mentir. Não posso passar a mão na cabeça de vocês quando estiverem fazendo as coisas erradas. Se eu fizesse isso, não seria sincero nem honesto. Gostar ou não é uma escolha de vocês, mas eu não posso mentir'. Essa é a experiência que eu adquiri com outros jogadores mais velhos com quem trabalhei. Eu dizia a eles: 'Temos um campeão mundial aqui, o último campeão mundial pelo Corinthians. Pensem nisso. Quantas vezes descemos no intervalo, pegamos o zagueiro e dissemos: Você está fazendo isso errado'", finalizou.