"Muita violência na derrota do Corinthians. A torcida não admitiu perder de goleada e, enquanto o XV ganhava três pontos, o jogo também era marcado por uma selvagem violência." Assim, a Folha de São Paulo abriu uma das páginas de seu caderno de esportes no dia 6 de junho de 1977 para se referir ao revés do Timão no dia anterior por 3 a 0 para o XV de Jaú , que terminou em pancadaria com direito até a um carrinho de um policial. Apesar das cenas lamentáveis e da volta amarga para o Parque São Jorge, a partida teve seu saldo positivo para o Corinthians: foi o maior público da história do estádio Zezinho Magalhães, atual sede do Timãozinho na disputa da Copinha 2026.
Ao todo, 24.828 pessoas acompanharam a derrota do Corinthians, sendo 22.416 pagantes e 2.412 menores de idade. Líder do segundo turno do Campeonato Paulista, o Corinthians buscava emendar sua terceira vitória seguida após bater Noroeste e Santos por 5 a 1 e 4 a 0 , respectivamente. O XV de Jaú, por sua vez, contava com o apoio da torcida local para bater o gigante.
Com torcidas incendiadas de ambas as partes, os relatos da época contam que as provocações começaram antes mesmo do apito inicial. Até por isso, o policiamento foi feito por oficiais de Bauru, não de Jaú, mas que também tiveram postura questionada após o jogo. A bola rolou mesmo com trocas de socos e arremessos de pedras, garrafas e sapatos nas arquibancadas.
As torcidas se acalmaram ao início do jogo, porém durou apenas até a reta final do primeiro tempo, quando, inconformado com a anulação de um gol do Corinthians - em um momento que o XV de Jaú já havia aberto o placar -, um torcedor invadiu o gramado para agredir o árbitro Romualdo Arpi Filho. Sem sucesso, o torcedor foi retirado de campo pedindo ajuda ao técnico Oswaldo Brandão.
Após o XV de Jaú ampliar o placar, aos 17 do segundo tempo, foi a vez de dois torcedores locais invadirem o campo. O primeiro para sem sucesso tentar fincar a bandeira de escanteio no centro do gramado. O segundo tentou abraçar os jogadores do seu time, rendendo um bom momento para quem assistia. "Irritados, os policiais partiram para cima dele e a torcida se divertiu. Muito ágil, ele conseguiu escapar do cerco de seis guardas. Apanhou, saiu preso, mas aplaudido", escreveu a Folha no relato da partida.
Mais uma vez, a Fiel invadiu o gramado quando o time mandante fechou a conta. Para abraçar o atacante Moisés, uma moça conseguiu furar o bloqueio. Perseguida por diversos policiais, a torcedora recebeu um carrinho e foi agredida, em uma cena avaliada como "a mais chocante deste espetáculo à parte". Jogadores do Corinthians tiveram que intervir para acudir a apoiadora.
Furiosos, os dirigentes e jogadores do Corinthians voltaram para São Paulo. Além da derrota, a crítica detonou a atuação da equipe comandada por Oswaldo Brandão, que usou e abusou das bolas lançadas à área durante os 90 minutos - o próprio treinador reconheceu a atuação ruim após o apito final. Já os atletas do XV de Jaú celebraram um bicho especial de dois mil cruzeiros pela vitória.
Todavia, o Corinthians sorriu ao fim do Campeonato Paulista de 1977 com o título da competição, também quebrando uma sequência de 23 anos sem títulos de grande magnitude.
Sobrou até para o ministro da Ditadura...
No auge da Ditadura Militar, o Brasil discutia, em 1977, a alta quantidade de violência na televisão. Esse debate se baseava muito numa alta de programas e filmes policiais importados, que eram considerados muito violentos e expositivos nas perseguições de criminosos. A discussão rumou para outro lado após o ministro de comunicação da época, Euclides Quandt de Oliveira, demonstrar-se preocupado com o aumento da violência na TV e iniciar um projeto para terem mais filmes nacionais, com temas tidos como "positivos", sendo televisionados.
Logo a preocupação virou chacota, uma vez que o país vivia uma ditadura. A ironia de um ministro do regime se mostrar contra a violência tornou Quandt de Oliveira motivo de piada.
A derrota do Corinthians foi televisionada e sobrou para o ministro:
"As últimas preocupações que o ministro das Comunicações, Euclides Quandt de Oliveira, demonstrou, respeito à violência na TV, têm justificativa (...)
No domingo, em Jaú, o Ministro foi novamente decepcionado. Só que dessa vez, todos os participantes da violência na TV eram brasileiros. No Estádio Zezinho Magalhães, onde o Corinthians perdeu do XV de Jaú, por 3 a 0, além das já costumeiras pancadarias entre as duas torcidas, a polícia deu show de violência contra os torcedores, que aproveitaram as péssimas condições de segurança do estádio e invadiram o campo para se manifestar.
Os policias corriam e distribuíam rasteiras. Milhões de brasileiros viram através das pantalhas de TV como uma torcedora corinthiana foi violentamente agredida depois de perseguida por mais de cinco policiais. Se não tivesse sido a intervenção dos jogadores corinthianos, talvez neste momento o Ministro estaria se lamentando e preocupando ainda mais", escreveu a Folha de São Paulo em outra cessão.
Recorde do Corinthians inquebrável
Wanderson Oliveira / Corinthians
O recorde de público do jogo entre Corinthians e XV de Jaú é inquebrável nos moldes atuais. O Zezinho Magalhães ainda tem capacidade para 25 mil pessoas. Contudo, com as novas normas de segurança dos estádios de futebol, o público máximo foi reduzido para 9.999.
Desta forma, o feito do Corinthians e do XV de Jaú só será possível caso o Zezinho Magalhães seja ampliado ou as entidades locais flexibilizem as medidas de segurança.
Em seus jogos na Copinha, o Corinthians vem conseguindo manter público bem significativo no Zezinho Magalhães, com públicos superiores a cinco mil espectadores.
Corinthians busca novo apoio da torcida para se classificar para o mata-mata da Copinha
Nesta sexta-feira, às 18h15, o Corinthians enfrenta o XV de Jaú no Zezinho Magalhães buscando carimbar sua vaga no mata-mata da Copinha 2026. Para isso, basta um empate dentro das quatro linhas.
Para além do resultado positivo, o Timãozinho também espera ter melhor atuação se comparado às duas primeiras partidas da equipe. Na estreia, o Corinthians até bateu o Trindade, de Goiás, por 1 a 0 , mas na segunda rodada empatou sem gols com o Luverdense e recebeu várias críticas da torcida.
Wanderson Oliveira / Corinthians
Independente de ficar em primeiro ou segundo colocado de sua tabela, o Corinthians vai enfrentar um rival do Grupo 7 se avançar ao mata-mata. Com sede em Assis, o grupo conta com Assisense, Guarani, Athletic, de Minas Gerais, e Navaraiense, do Mato Grosso do Sul.