O dia 13 de outubro de 2025 foi sinônimo de festa para o Corinthians. O clube paulista não estava em campo, mas o São Vicente, da segunda maior ilha de Cabo Verde, país da costa ocidental da África, comemorava junto aos conterrâneos a classificação histórica para a Copa do Mundo de 2026.
Fundado em 1987, o Corinthians São Vicente vive o "corinthianismo" a quase cinco mil quilômetros de distância do Sport Club Corinthians Paulista. Inspirada na equipe do Parque São Jorge, a agremiação africana carrega a conexão no peito a cada partida, mesmo estando em prateleira completamente diferente do "irmão" brasileiro.
Dentre as figuras responsáveis pelo projeto está Marcos Fonseca, atual vice-presidente do Corinthians São Vicente. Antes de se tornar jornalista, Marcos (também conhecido como "Xuster" pela idolatria ao ex-jogador Bernd Schuster) viveu uma infância igual à de muitas crianças, respirando futebol. O talento, porém, não prevalecia, como admitido pelo próprio em entrevista exclusiva ao Meu Timão, mas a paixão seguia viva em mergulhar no esporte.
"Comecei desde jovem e adolescente. Futebol me levou para o jornalismo, principalmente esportivo, devido a esse envolvimento. Joguei bola na infância, comecei a jogar em uma equipe, mas não tinha muito do talento. Jogava o futebol básico que as crianças jogavam. Passei a ser dirigente do Corinthians São Vicente em 1992, daí nasceu a vontade de fazer jornalismo, além da vontade de divulgar o esporte. Gostava de ouvir Rádio Globo, via Campeonato Espanhol, Brasileiro, e sempre fui apaixonado. Comecei a organizar arquivos de futebol", iniciou Marcos.
Corinthians São Vicente carrega a bandeira de Cabo Verde no meio do atual formato do escudo corinthiano
Reprodução / Facebook Corinthians São Vicente
O futuro jornalista teve a oportunidade de passar alguns anos no Brasil na década de 1990, ao lado de outros 100 cabo-verdianos. O destino? São Paulo, para estudar jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O Corinthians São Vicente, criado a partir de uma aparição do time paulista na Revista Placar, serviria como um elo entre Marcos e o Corinthians, que viveu uma época de ouro durante a estadia do morador de Cabo Verde.
"Um grupo de jovens nosso, inclusive um colega de São Paulo, acabou escolhendo o nome. Ele jogava futsal na quadra da Gaviões da Fiel. E o grupo criou uma equipe de bairro, mas precisava de um nome. Viram na Revista Placar e sugeriram. O Corinthians foi crescendo, durante muito tempo sendo referência de revelar jogadores, muitos saíram, foram profissionais no exterior, mas hoje menos. É muita dificuldade, e hoje já não moro em São Vicente, eu vivo na ilha maior, e temos que nos deslocar e não tem toda a disponibilidade de tempo".
Ao assistir ao bicampeonato brasileiro (1998 e 1999), a conquista do Mundial de Clubes (2000) e o Paulista (2001) como títulos mais memoráveis, Marcos impulsionou a paixão criada pelos ídolos Vampeta, Freddy Rincón e Ricardinho e a levou para o arquipélago africano. No entanto, havia uma dura realidade de colocar a mão na massa e fazer a roda girar com as próprias pernas em Mindelo, principal cidade de São Vicente.
Corinthians conquistou a segunda divisão de São Vicente em 2017/2018
Reprodução / Facebook Corinthians São Vicente
Apesar do histórico trabalho com jogadores jovens, o Corinthians São Vicente, segundo Marcos Fonseca, é como uma ONG, sem fins lucrativos. Todo o trabalho é voluntário, com investimento e colaboração dos próprios atuantes, sem apoio governamental. Para ele, o clube do pequeno país africano vive o mesmo sentimento que os torcedores do Corinthians, sobretudo pela forma como encaram as adversidades.
"Disputamos a segunda divisão da nossa ilha e temos muitos jovens, de 17 a 19 anos, além de adultos. Todo ano construímos o time, não temos estrutura para manter. Eles jogam bem uma temporada, chamam a atenção e vão jogar por outros times. É um sonho nosso ter investimento e transformar em clube grande", afirmou.
Um dos nomes icônicos do projeto é Fernando Neves, ex-capitão de Cabo Verde na primeira participação do país na Copa Africana de Nações, em 2013. O ex-zagueiro somou 42 aparições pela seleção e rodou por diversas nações europeias, após passar período de formação no Corinthians São Vicente.
"Às vezes é difícil dar refeição para os jogadores. De uma forma geral, o corinthianismo é lutar contra a dificuldade, mesmo o do Brasil, nunca nada é fácil, tudo tem que lutar muito. Eu interpreto isso como uma filosofia de vida, lutar contra a adversidade. Estamos sobrevivendo há 40 anos, já chegamos à primeira divisão, em 2017, quando fomos campeões da segunda (divisão). É um clube com muita simpatia popular, tem muita gente que gosta do Corinthians. Nesse momento, precisamos de investimento para organizar o time, e com uma equipe disputando, as pessoas vão nos apoiar. Hoje, a maioria foi fazer faculdade fora, tem uma profissão e deixa o futebol. Temos muitas pessoas que tomam decisão no país que torcem para o Corinthians. Conseguimos manter por muito tempo, mesmo outros times e países levando os atletas", completou.
Corinthians São Vicente carrega o Timão no peito em todos os jogos em Cabo Verde
Arquivo pessoal
Uniforme verde?
Por não ter investidores externos e patrocinadores, boa parte dos equipamentos são obtidos via doações de amigos e conhecidos do projeto. Em razão disso, o Corinthians São Vicente vivenciou um episódio curioso em sua história, ao atuar com a cor verde, que está ligada ao Palmeiras, maior rival do Corinthians. Marcos admite que, em condições normais de temperatura e pressão, não faria tal escolha, mas o contexto já se não resume a opções, mas sim a necessidades.
"É um grupo de jovens, que cria sua equipe e vai lutando para manter. Nunca tivemos apoio do governo de Cabo Verde, funcionamos com base da vontade do pessoal. Não temos verba, patrocínio tivemos pontualmente, mas há muitos anos não temos. Precisamos de material esportivo, alguém oferece e só tem verde. Se não aceitarmos, corre o risco de não jogar e a equipe ser extinguida, mesmo contra a nossa vontade", relembrou.
Time juvenil do Corinthians São Vicente em 2008
Reprodução / Facebook Corinthians São Vicente
O episódio, inclusive, gerou contato com a diretoria do Corinthians em 2007, quando Andrés Sanchez, então presidente e atualmente desligado do quadro de associado do clube, se ofereceu a enviar materiais esportivos para evitar a alusão ao rival. No entanto, em meio às falhas de comunicação entre as partes, das quais Marcos assume parte da culpa, o intercâmbio não avançou.
"Ele chegou a oferecer os materiais esportivos, mas faltou da nossa diretoria estabelecer melhor esse contato com eles. Um dos nossos treinadores foi em São Paulo, falou com ele pessoalmente e mandou um cartão de visitas para entrarmos em contato", disse Marcos.
Durante a passagem por São Paulo, Marcos chegou a comprar diversas camisas do Corinthians, no Parque São Jorge, aproveitando a troca da Batavo para a Pepsi como patrocinadora máster, em 2000. A queima de estoque ajudou o Corinthians São Vicente a sentir na pele o uniforme alvinegro.
"Quando eu estava lá, eu comprei equipamentos do Corinthians. Corinthians estava com Batavo, mas o clube mudou de patrocinador e estava com queima de estoque. Fui e comprei, mandei para cá e deu um alento para o time porque os jogadores vestiam uma camisa do Corinthians e se sentiam orgulhosos", concluiu.
Jogadores do Corinthians São Vicente utilizando camisas compradas por Marcos Fonseca
Arquivo pessoal
Reconectar virou sonho
Visitar a Neo Química Arena? Enfrentar o Corinthians? Diversas alternativas estão na lista de desejos do clube cabo-verdiano, mas o momento de instabilidade política no Parque São Jorge afasta o time africano de uma reconexão. O pedido mais modesto se resume à ajuda com materiais esportivos, dado o alto custo de importação dos produtos em Cabo Verde.
Marcos Fonseca (em pé à esquerda) ao lado do elenco do Corinthians São Vicente, em 1996
Reprodução / Facebook Corinthians São Vicente
"Seria um sonho, mesmo que fosse com Sub-20 do Corinthians, ter um amistoso, (ter) mais ligação com o Corinthians. Tentamos depois do Andrés, mas não conseguimos, e tem tido muita instabilidade lá. Esperamos acalmar", iniciou Marcos.
"É um sonho ter um intercâmbio, um dos nossos jogadores no Corinthians, nem que seja para uma semana de estágio, treinar com o Corinthians. Eu gostaria que o Corinthians nos fornecesse material esportivo, porque aqui não fabricamos nada, tudo é importado da Europa. Às vezes mudam equipamentos, sobram quando muda de patrocinadora, e para nós seriam muito bom, mesmo que fossem bolas, chuteiras, materiais de treino, para ajudar a organizar e trazer muita gente", completou.
O dirigente não esconde o carinho com São Paulo, destino para o qual quer retornar em breve. Os cinco gols de Fernando Baiano contra o Cerro Porteño, do Paraguai, na vitória por 8 a 2 pela Libertadores de 1999, e o gol de Ricardinho contra o Santos, na classificação para a final do Paulista de 2001, estão entre as lembranças mais vívidas de Xuster, que navegou entre Pacaembu, Morumbi e Canindé como mais um do bando de louco.
"Eu continuei acompanhando daqui, pela Record, TV Globo também. Sempre ficou uma ligação forte com Corinthians e a cidade de São Paulo. Eu dizia para minha falecida mãe que meu corpo vivia em Cabo Verde, mas meu espírito em São Paulo. É o melhor lugar do mundo", relembrou.
Davi contra Golias no Mundial
O Corinthians São Vicente, embora não tenha jogadores convocados para a seleção nacional, estará ao lado de aproximadamente 530 mil pessoas para apoiar a jornada histórica de Cabo Verde no Mundial deste ano. O início do caminho não poderia ser dos mais simples: a atual campeã europeia Espanha, tida como uma das favoritas ao título no torneio que será disputado nos Estados Unidos, no México e no Canadá. Marcos Fonseca sonha com um triunfo diante dos europeus.
"Temos muita expectativa. Vamos estrear contra a Espanha, respeitamos a Espanha, mas sonhar é de graça. Estamos sonhando, por mais difícil que possa ser, eu sonho com uma vitória. Sabemos que são fortes, mas às vezes a Espanha dá alguns brancos. No Mundial do Brasil, não passou de fase defendendo o título de 2010", destacou.
13/10/2025 https://t.co/UZCpdeWnj1
— Federação Cabo-verdiana de Futebol (@fcfcomunica) October 15, 2025
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Além dos espanhóis, a equipe lusófona (que também tem o português como idioma oficial) vai enfrentar o Uruguai, bicampeão mundial, e a Arábia Saudita no Grupo H. Uma vitória diante da Espanha já seria de grande orgulho para os Tubarões Azuis, referência à vasta vida marinha presente no oceano Atlântico. Marcos Fonseca relembrou uma vitória sobre a Seleção Olímpica do Brasil, em 2021, por 2 a 1, como incentivo para derrubar os Golias.
"É um sonho, já seria um Mundial excelente. É uma seleção muito forte, vai dar visibilidade para nossos jogadores, vão conseguir mudar de clube. Acredito sempre na vitória e na minha seleção, que já venceu Brasil Sub-23 (em 2021) e tem bom histórico contra seleções europeias. A experiência conta, mas não temos nada a perder. Ainda temos Uruguai, adversário agressivo, parecido com futebol africano, e Arábia Saudita. Temos o sonho de passar, mas meu maior sonho é vencer a Espanha, mesmo que perca para as outras duas", finalizou.
Seleção de Cabo Verde venceu o Brasil, que se preparava para os Jogos de Tóquio, em 2021
Divulgação / FCF
Cabo Verde estreia nesta segunda-feira, 15, às 13h (de Brasília), contra a Espanha, em Atlanta, nos Estados Unidos. Depois, enfrenta os uruguaios no dia 21, às 19h, em Miami, e fecha a fase de grupos contra os sauditas no dia 26, às 21h, em Houston.