O jogador do Corinthians que foi um dos grandes pintores do sec. XX e fez nosso escudo

Fórum do Corinthians
Tópico Lendário Entenda as regras

Mestre #1.705 @mestre.dos.magos1 em 29/07/2017 às 17:06

Em uma tarde de domingo, caminhando pelo magnífico Palácio dos Bandeirantes, no tour gratuito oferecido pelo Acervo dos Palácios de SP, deparei-me com uma sutil, mas bela, obra de arte em uma das dezenas de galerias artísticas do local. No quadro, estava retratada uma casa simpática, interiorana, cercada de verde e com montanhas ao fundo, daquelas que dá vontade de largar tudo e se mandar para lá, sem a preocupação do trabalho, sem o barulho dos carros e ônibus, sem correria. Uma casa para descansar. Ouvir apenas o som da natureza e dos pássaros. Na legenda, os dizeres: “Paisagem do Morumbi (casa do pintor), 1948. Óleo sobre tela”. Na autoria, o simples nome Rebolo. Pergunto para a educadora e guia do tour: “Mas quem é esse tal de Rebolo?”. Ela me responde: “Foi um dos grandes pintores modernistas do século XX, com várias obras expostas no país e também lá fora, além de ter sido jogador de futebol e de ter desenhado o escudo do Corinthians”. Quando ela terminou de falar isso, fiquei estupefato. Como assim!? Um ex-jogador que virou artista e ainda desenhou o escudo de um time de futebol? E mais: ele mesmo jogou no clube alvinegro e foi campeão paulista no ano do centenário da independência do Brasil, em 1922. Precisava pesquisar mais sobre tal figura ilustre. Como, em mais de uma década de pesquisa futebolística, não conhecia a história de Rebolo?

Francisco Rebolo Gonsales, com descendência espanhola, nasceu em 1902, e, desde muito pequeno, dava mostras de que teria um futuro artístico brilhante. No início da pré-adolescência, começou a aprender técnicas em artes com Giuseppe Barquita, entre 1915 e 1917, na Escola Profissional Masculina do Brás, e virou ajudante de pintor, quando começou a fazer lindos adornos e decorações em casarões e mansões de São Paulo, nos bairros da Mooca, Brás e Barra Funda. Naquela mesma época, se interessou, também, pelo futebol. Rebolo, com 14 anos, começou a jogar no Argentinos, um time da rua do Glicério, no parque Dom Pedro. Rápido e driblador, o atacante era muito elogiado e fazia quase sempre boas partidas. Mas os bate-bolas do Formiguinha (apelido que ganhou por ter apenas 1,60m de altura) na várzea durou pouco. Depois de passar pelo São Bento, foi jogar no Corinthians, seu time do coração, em 1922, e logo de cara venceu o Campeonato Paulista daquele ano, marcado pelo centenário da independência do Brasil. Mas o mais curioso foi a maneira como Rebolo foi contratado.

O jovem foi fazer uma pintura em um salão alugado pelo clube, no centro de São Paulo. O imóvel era um armazém do pai de Filó, um conhecido jogador do alvinegro na época. Neco, também do Timão, viu Rebolo trabalhando nas paredes do salão e disse:

“Você vem tirar nosso dinheiro, como pintor de salão, e joga no São Bento? ”

Depois da indireta, Rebolo conversou com a diretoria e foi jogar no clube alvinegro. Lá, não teve muitas oportunidades na equipe titular, figurando sempre no time B. No entanto, cultivava amizades e mantinha seus trabalhos como pintor, participando da decoração das igrejas Santa Cecília e Santa Ifigênia, ambas no centro de São Paulo, e dezenas de residências. Depois de quase cinco anos, o jogador-artista deixou o Timão para jogar no Ypiranga, onde ficaria até 1934.

Nesse período, Rebolo recebeu mais um convite do Corinthians, dessa vez um que entraria para a história. O clube não era mais apenas um time de futebol, mas também de regatas, e precisava de um escudo novo, que mostrasse essa mudança para todos e não fosse apenas “uma bolinha com uma bandeira no meio”. Amigos de Rebolo o chamaram para conversar e o artista aceitou de bate-pronto.

'Nós discutimos (o novo escudo) e eu dei a ideia daqueles remos, da âncora. Sugeri o tema e pintei o distintivo na sede do clube. Havia medalhões, onde fui pintando, sempre na sequência, um distintivo, uma paisagem, um distintivo, uma paisagem. Na arquibancada do Parque São Jorge, também pintei o novo emblema”. – Rebolo, em entrevista aos sociólogos Antonio Gonçalves e José Rodrigues Barbosa, em 1977.

Crescendo cada vez mais na área artística, ainda mais depois da criação do símbolo do Timão, Rebolo transferiu seu atelier de pintura e decoração para uma sala no Palacete Santa Helena, na Praça da Sé, em 1934. No ano seguinte, juntamente com Mario Zanini e, posteriormente, outros artistas, ele criou o Grupo Santa Helena, que foi a união espontânea de artistas que ocupavam as várias salas do Palacete. Manoel Martins, Fulvio Pennacchi, Bonadei, Clóvis Graciano, Alfredo Volpi, Humberto Rosa e Rizzotti foram os outros artistas que também mantiveram ateliers no local e integraram o Grupo. Ambos trocavam conhecimentos sobre técnicas de pintura e até economizavam na hora de pintar modelos-vivos (ao invés de cada um pagar para um (a) modelo, eles rachavam o valor e pintavam na mesma sessão). Em comum, os artistas tinham a origem ligada à imigração, o ofício de decorador de parede, a vocação autodidata e o apego à representação da realidade, característica que os fazia pintar paisagens, vistas dos subúrbios, arredores da cidade e praias visitadas nos fins de semana.

Rebolo, apesar de não se alinhar à ousadia das correntes mais avançadas do modernismo, colocava em suas pinturas muita técnica, lirismo e singeleza principalmente nas paisagens naturais, características que o tornaram um mestre no meio-tom.

Nos anos seguintes, o talento de Rebolo ganhou o Brasil e o mundo. Ele venceu a medalha de ouro no IV Salão Paulista de Belas Artes, o bronze no Salão Nacional de Belas Artes, participou da criação do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), em 1948, e ganhou o prêmio de viagem ao exterior no 3º Salão de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, em 1954. Esse prêmio catapultou sua ida à Europa, em 1955, onde aprendeu novas técnicas e passou a pintar de maneira mais estrutural e geométrica, mas sem perder a capacidade incrível de tocar e emocionar. Em 1956, fez curso de restauração no Vaticano e teve a honra de restaurar, inclusive, uma obra do gênio Rafael (1483-1520). Nos anos 1960, arriscou-se na gravura. Nos anos 1970, usou mais tintas acrílicas para pinturas chapadas, mas manteve a figuração e as pinturas de paisagem e naturezas-mortas até o fim da vida.

A obra “Futebol”, de Rebolo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: < http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra1919/futebol&gt http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra1919/futebol&gt enciclopedia.itaucultural.org.br ;

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Paulo Paulo Paulo #40 @paulo.52 em 29/07/2017 às 21:14

Parabéns pela preocupação com nossa história! Falta isso ao Fórum, frequentemente. Esse resgate do passado é fundamental para conscientizar as novas gerações de corinthianos...

Nacib Abu #254 @nacibabu em 30/07/2017 às 13:40

Tópico espetacular..a cultura e saber das nossa história, personagens e origens é muito engrandecedor..

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.PARABÉNS!

Últimas respostas

Anisio Molim #122 @amoamolim em 31/07/2017 às 17:07

Bastava-me, se houvesse menos fanatismo! Já estaria bom demais. O fanatismo cega até mesmo esses esplendores pertencentes à história do clube.

Mestre #1705 @mestre.dos.magos1 em 30/07/2017 às 18:13

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Obrigado, Convido você a também dividir um pouco de conhecimentos aqui no fórum, aqui precisa mais informação e menos repetição.

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Tadeu Bazaia #3.227 @bazaia em 31/07/2017 às 10:15

Esse Rebolo esmerilhou, parabéns pelo tópico (e desculpe pelo trocadilho)

Eduardo Spicacci #4.983 @eduardospicacci em 31/07/2017 às 09:55

E assim Rebolo criou o símbolo de time mais bonito do futebol mundial...

Sandra Lima #1 @sandra.lima4 em 31/07/2017 às 09:11

Nossa história é belíssima;
Excelente Tópico;
Parabéns.

Bob Marley #62 @felipemarley em 31/07/2017 às 08:36

Que história maravilhosa, parabéns cara, estou arrepiado...

Diogo Aurelio Sanfins @diogoaureliosanfins em 31/07/2017 às 08:01

Belo artigo, parabéns pelo resgate, uma história muito interessante.

Renato Sccp #2.206 @renato.sccp3 em 31/07/2017 às 00:07

A história do Corinthians é surreal. Que orgulho desse time. Obrigado Deus, por ser corintiano.

Dioclecio Chagas Mota #23 @dioclecio.chagas.mo1 em 30/07/2017 às 23:37

Muito bacana o tópico

Mestre Mortal #1.705 @mestre.dos.magos1 em 30/07/2017 às 23:09

A crônica esportiva deveria enaltecer mais e mais contos de realizações fantasticas como do Saudoso Rebolo, espero ter contribuído um pouco para trazer reviver novamente algo tão lindo como é nossa rica e volumosa história.

Gerald #462 @luterley em 30/07/2017 às 22:35

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Que aula! Fez juz ao nick: Mestre. Que clube incrível este que temos o privilégio de torcer! Ter um dos mais belos dos emblemas do futebol mundial criado por um grande artista plástico de seu país e que ainda jogou em sua equipe, só podia ser coisa do Corinthians mesmo!

Mestre Mortal #1.705 @mestre.dos.magos1 em 30/07/2017 às 23:05

Pois é Antônio! Nosso passado tem tantas histórias incríveis que daria um almanaque somente nos seus primeiros 50 anos de vida.

Estarei trazendo mais curiosidades para vocês, abraço!

ANTONIO #904 @andrade1977 em 30/07/2017 às 20:31

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Que linda história! Para um país que está cada vez mais pobre na cultura isso é um colírio para quem ama a cultura e, principalmente, a HISTÓRIA do GLORIOSO SPORT CLUB CORINTHIANS PAULISTA!