Na tarde desta sexta-feira, o presidente do Corinthians, Augusto Melo, concedeu uma entrevista coletiva apresentando os novos diretores do clube. Durante o evento, o mandatário foi perguntado sobre o envolvimento do Timão com a UJ Football Talent , empresa ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC), de acordo com um relatório policial, e que agencia um ex-atleta da base alvinegra.
Augusto afirmou que, assim que os relatos vieram a público, foi determinada uma apuração interna detalhada, especialmente no setor das categorias de base. O presidente reforçou que, até o momento, não há nenhum indício de envolvimento da atual gestão nos casos mencionados e defendeu a responsabilidade dos atletas na escolha de seus representantes.
"Foi assim que saíram essas notícias, a primeira coisa que nós fomos fazer é levantar isso. Não consta esse atleta na nossa gestão, constam dois atletas que foram na gestão passada, não podemos falar sobre isso, porque não é na nossa gestão. E não existe esse atleta, por exemplo, que saiu, pelo menos eu que pedi para averiguarem, olharem, não existe isso. Mas quando uma empresa traz um atleta para o Corinthians, a gente avalia o atleta, a gente não avalia a empresa, é avaliado o atleta. Se o atleta tem condições, é o atleta que tem que se responsabilizar pela empresa que ele está", iniciou Augusto na coletiva.
"Às vezes, você tem um atleta já dentro do Corinthians. Automaticamente ali, ele rompe, às vezes, com esse empresário. E ele já nos traz um outro empresário para discutir o contrato dele, ou um próximo contrato dele. E o Corinthians não tem essa responsabilidade. Então, o Corinthians negocia com o empresário, esse atleta que está no Corinthians. Então, a gente não tem como falar para ele, eu não quero essa empresa, eu não quero que você trate com essa empresa", acrescentou.
"Dentro de tudo que saiu, nós fomos mandar investigar, principalmente parte de base, no profissional nós não temos nada, e até agora não constou nada, e não existe esse atleta que saiu na mídia, ele não está no Corinthians, e na nossa gestão, que eu saiba até agora, que estão investigando desde ontem que saiu, até agora, levantaram tudo e não acharam nada ainda, e vai continuar as investigações. Está na hora do futebol ser passado a limpo e o Corinthians está sendo pioneiro nisso. Deixei muito claro que o Corinthians está passando por uma reformulação. O Corinthians está sendo passado a limpo e eu não abro mão disso", concluiu.
A UJ foi mencionada em um relatório da Polícia Civil como a empresa que recebeu mais de R$ 1 milhão proveniente da intermediação do contrato entre o Corinthians e a casa de apostas VaideBet . De acordo com o delegado Tiago Fernando Correia, a UJ está envolvida em um esquema de lavagem de dinheiro associado ao PCC, que teria desviado valores dos cofres do clube por meio de empresas de fachada.
O advogado do presidente Augusto Melo, Ricardo Cury, comentou sobre um relatório parcial da Polícia Civil que acabou vazando e ganhou repercussão. Cury destacou a seriedade do trabalho feito pela equipe do delegado Tiago, que adotou a estratégia de seguir o rastro do dinheiro — método comum em casos dessa natureza.
Segundo o advogado, o relatório, embora ainda parcial, aponta com clareza o caminho do dinheiro que saiu do clube e foi transferido por diversas empresas até chegar à UJ, onde, de acordo com a investigação, estaria aplicado em uma conta poupança.
Ele reforçou que novas pessoas foram citadas no documento e defendeu a continuidade da apuração, que, para ele e para o presidente Augusto Melo, representa uma chance de ampliar a investigação não apenas no clube, mas em todo o sistema do futebol brasileiro.
"Só um comentário adicional: isso não é da atual gestão. Sobre esse relatório parcial que foi divulgado pela polícia — na verdade, ele não foi divulgado oficialmente. Esse relatório foi anexado ao inquérito e acabou vazando, naquele típico caso de vazamento seletivo. É um trabalho muito bem feito pela polícia. Nós tivemos acesso porque estamos habilitados no inquérito e acompanhamos sua evolução diariamente. Assim como nós, outros advogados também estão habilitados para esse acompanhamento. O trabalho da polícia, da equipe e do doutor Tiago foi muito bem conduzido. O valor sai do Corinthians, vai para uma rede social, passa pela Neway, segue para outra empresa — seja ela X, Y ou Z — e então chega até a UJ", explicou o advogado.
"Algo que consideramos positivo — e falo em nome do presidente Augusto — é que surgiram novos nomes no relatório, pessoas que ainda não foram ouvidas no inquérito. Isso levanta uma dúvida legítima: será que a investigação vai continuar ou o delegado vai encerrá-la neste ponto? Do nosso ponto de vista, como há novas pessoas mencionadas, acreditamos que esta é uma oportunidade não apenas de investigar o Corinthians como ponto de partida, mas também de ampliar a apuração para todo o futebol brasileiro e suas possíveis conexões com o crime organizado", adicionou.
"Estamos satisfeitos com a rastreabilidade do dinheiro. Foi possível acompanhar o caminho dos valores desde a saída dos cofres do Corinthians até o destino final. Agora, o próximo passo é entender melhor esse fluxo e as circunstâncias que levaram àquele destino. E, principalmente, ouvir quem recebeu esse dinheiro", finalizou.
Como foi a rota do dinheiro?
Meu Timão
A Delegacia de Repressão à Lavagem de Dinheiro da Polícia Civil de São Paulo mapeou o trajeto do dinheiro envolvido no contrato de patrocínio assinado entre o Corinthians e a casa de apostas VaideBet, oficializado em 2024. Conforme apontam os documentos, cerca de R$ 1,4 milhão foi desviado dos cofres do clube por meio de uma rede de empresas de fachada, até chegar à UJ Football Talent — a mesma empresa citada como representante de um jogador das categorias de base do time.
O rastreamento bancário mostra que o valor saiu da conta do Corinthians em duas parcelas de R$ 700 mil, direcionadas à Mídia Design, empresa sob responsabilidade de Alex Fernando André, conhecido como Alex Cassundé, que atuou na campanha presidencial de Augusto Melo. A quantia, então, foi transferida para a Neoway Soluções Integradas, registrada em nome de uma moradora da periferia de Peruíbe, no litoral paulista. Na sequência, os recursos passaram pela Wave Intermediações Tecnológicas, que repassou mais de R$ 870 mil à UJ Football Talent em apenas dois dias.
Segundo os investigadores, a operação configura um esquema de lavagem de dinheiro, com a participação de empresas sem respaldo financeiro e pessoas ligadas ao crime organizado. O nome de Danilo Lima, conhecido como “Tripa”, surgiu em delações como o verdadeiro controlador da UJ, apesar de não figurar formalmente como sócio. A apuração também aponta o desaparecimento de cerca de R$ 525 mil ao longo das transferências, valor que teria sido diluído entre contas e empresas envolvidas. Para a polícia, há fortes indícios de furto qualificado e lavagem de dinheiro.
Além do presidente Augusto Melo e de Cassundé, outros dirigentes do clube também estão entre os investigados. Em nota oficial divulgada nesta quinta-feira, o Corinthians reafirmou ser vítima do esquema .