A categoria de base do futebol feminino do Corinthians vive momento de consolidação, com atletas cada vez mais presentes em convocações da Seleção Brasileira e participando de treinos com o time profissional. Em entrevista ao Meu Timão, em parceria com a página Meninas do Timão, Rafaela Esteves, coordenadora da base alvinegra, explicou como funciona esse trabalho, com foco na formação de jogadoras, na estrutura oferecida pelo clube e na integração com a equipe principal.
Rafaela destacou que a transição entre base e profissional depende do planejamento conjunto feito com a comissão técnica da equipe de cima, comandada por Lucas Piccinato.
"O processo de transição vai muito da demanda de cada categoria. Sempre digo que a atleta não é da base ou do profissional, ela é do clube. Quando há necessidade de alguma posição, isso é alinhado entre os treinadores e a gestão", iniciou a coordenadora.
"Recentemente, tivemos reuniões com o Lucas Piccinato e até com a Grazi, em que falamos sobre atletas em destaque. Ele (o treinador) tem um olhar muito aberto para a base, o que facilita bastante. Nosso objetivo é formar jogadoras para o profissional, e ver atletas novinhas tendo oportunidade. Mostra que estamos no caminho certo. Essas chances de treinar com o grupo de cima ajudam muito na adaptação, deixam as meninas mais tranquilas e seguras. Dá orgulho ver atletas da geração 2007, 2008 já participando disso", complementou.
Ao comentar sobre o preparo das atletas da base para os treinos com o profissional, a coordenadora destacou a importância de um trabalho completo e multidisciplinar. Segundo ela, o desempenho positivo das jogadoras ao serem chamadas para o elenco principal é reflexo de uma formação cuidadosa e alinhada com a metodologia do clube.
"Acho que o preparo é num contexto geral — desde a parte de psicologia até a parte física, técnica e tática. Cada treinador tem seu modelo, seu estilo de jogo. Claro que, na base, tentamos nos aproximar do profissional, justamente para facilitar essa adaptação. Mas é o que eu sempre digo: quando a atleta consegue ter uma boa performance e evolução nas categorias de base, especialmente nas competições do Sub-20, isso ajuda muito. Ela consegue jogar, ter minutagem, se expor, entender onde está e o que precisa melhorar", afirmou.
"Quando é chamada para o profissional, tentamos sempre deixá-la tranquila, preparar antes. Também buscamos estar presentes nesses dias, para dar apoio, facilitar a adaptação e até oferecer um feedback pós-treino — que é diferente, difícil. Hoje, temos uma equipe multidisciplinar que ajuda bastante nesse processo, tentando deixar a atleta o mais natural e leve possível. E, pelo menos nas últimas vezes em que as atletas foram lá, elas conseguiram desempenhar bem, foram elogiadas até pelas outras atletas. Isso mostra que estamos fazendo um bom trabalho como um todo", disse.
A boa fase das categorias de base do Corinthians se reflete tanto nas frequentes convocações para as seleções de base quanto na presença de jovens talentos no time principal. Um exemplo é a atacante Jhonson, que, apesar de não ter trabalhado diretamente com a atual coordenadora nas categorias inferiores, teve seu percurso valorizado por ela.
"A Jhonson é uma atleta com quem, particularmente, não tive a oportunidade de trabalhar na base. Quando cheguei, ela já estava nessa transição para o profissional. Ela só desceu na reta final para disputar a semifinal do Brasileiro Sub-20. Mas, como teve uma sequência de lesões, isso talvez tenha impactado na chance de ter uma participação mais longa no Sub-20 no ano passado", iniciou a dirigente.
"Graças a Deus, ela conseguiu dar a volta por cima. É uma atleta que brilha os olhos — muito forte, intensa, artilheira. E, se está sendo convocada e tendo oportunidades, é porque fez por merecer. Eu sempre falo para elas: a querência é algo fundamental. E isso é muito nítido na Jhonson. E hoje, ao ver onde ela chegou, a gente fica muito feliz", continuou.
Nascida em 2005, Jhonson chegou ao Corinthians por empréstimo em dezembro de 2022, após se destacar com a Seleção Brasileira no Sul-Americano Sub-17. No fim de 2024, foi contratada em definitivo e passou a integrar o elenco profissional. Atualmente, é um dos destaques do time, com nove gols e uma assistência em 16 partidas. Na última Data Fifa, marcou também seu primeiro gol com a Seleção Brasileira principal.
Neste fim de semana, Jhonson será desfalque no Dérbi, pelo Paulistão Feminino, assim como Mariza, Duda Sampaio e Yaya. As quatro jogadoras estão com a Seleção Brasileira, que enfrenta a Colômbia neste sábado, na final da Copa América Feminina, em Quito, no Equador.
"Tem muita atleta que gostaria de ter a oportunidade que ela está tendo. Se ela já conseguiu chegar à Seleção principal, é porque houve um trabalho muito sério, tanto do pessoal do profissional quanto de quem estava com ela na base em 2023. Foi preciso "roer o osso" para que hoje a gente veja a Jhonson brilhando. Claro que a atleta tem papel fundamental nesse processo, mas ter bons profissionais ao lado dá confiança para seguir o caminho. E, graças a Deus, ela está sendo muito feliz nessa trajetória", disse.
Outro exemplo que vem ganhando destaque na base do Corinthians é a goleira Ana Morganti, de apenas 16 anos, que inclusive foi convocada por Arthur Elias para um período de treinos com a Seleção Brasileira principal. A coordenadora falou sobre a jovem atleta e não economizou elogios ao comentar sua evolução e potencial dentro do clube.
"A (Ana) Morganti é um caso curioso. Lembro do primeiro Paulista Sub-15, em 2022 — foi onde ela teve o seu ápice. Eu estava lá. Ela brilhou os olhos de todo mundo presente, não tem como negar. De lá para cá, depois que veio para o Corinthians, conseguiu dar continuidade ao trabalho que já vinha desenvolvendo no clube anterior e teve uma ascensão constante. Hoje, temos o privilégio de ter uma atleta que transita entre categorias, que participou da pré-temporada com o profissional, realizou muito bem, teve boa performance. Hoje, é titular do Sub-17 e tem sido convocada para a Seleção", iniciou.
Morganti chegou ao Corinthians em setembro de 2022, aos 13 anos, após passagens pelas bases do Santos e do projeto Meninas em Campo. Foi decisiva na final do Paulista Sub-15 de 2023 ao defender dois pênaltis contra a Ferroviária. Em 2024, foi titular da Seleção Brasileira na Copa do Mundo Sub-17 e no título do Sul-Americano da mesma categoria. Rafaela comenta as expectativas sobre a jovem arqueira, junto com o planejamento para a sequência da carreira.
"A gente fica na expectativa de que ela seja chamada para o Mundial. Sempre falo para elas que, como instituição, precisamos ter cuidado com essas transições. Mas, por outro lado, é importante que a atleta encerre o ciclo na sua categoria. A Morganti encerra o ciclo no Sub-17 da CBF, da seleção, e também do clube. A ideia é que ela continue com a gente, treinando, sendo estimulada, mas encerrando esse processo com as atletas da sua categoria", disse.
Com o bom desempenho, assinou seu primeiro contrato profissional com o Timão em janeiro e passou a treinar com o elenco principal. Com o afastamento de Lelê, a jovem ganhou ainda mais espaço. Apesar de ainda não ter estreado pelo profissional, Morganti já é bastante elogiada internamente por sua segurança, tempo de reação e desempenho nas penalidades.
"Ficamos felizes de vê-la no profissional, claro — é uma demanda do time de cima quando precisa. Mas também é muito gratificante tê-la aqui conosco, porque ela é uma peça fundamental, uma liderança incrível. Ela agrega muito nesse sentido", completou.