O Corinthians venceu o Sesi Araraquara por 77 a 48 , na última segunda-feira, no Ginásio Wlamir Marques, e abriu 2 a 1 na série decisiva do Campeonato Paulista Feminino de Basquete. Após a partida, o técnico Bruno Guidorizzi fez uma análise completa do desempenho da equipe, dos ajustes táticos que mudaram o jogo e do peso emocional que envolve a reta final da modalidade no clube.
O comandante destacou que, apesar do placar elástico, o duelo manteve o nível de tensão característico dos confrontos contra a equipe de Araraquara, um adversário que considera resiliente e capaz de reagir em cenários adversos. Guidorizzi reforçou que a vantagem não refletiu totalmente a complexidade do jogo, que exigiu atenção constante da equipe alvinegra.
“Jogar contra o SESI é sempre uma partida tensa porque é um time muito competente, resiliente e sempre consegue sair de várias situações difíceis. Então, mesmo com uma vantagem grande, o placar, acho que não refletiu a dificuldade que foi o jogo”, iniciou na zona mista.
O técnico admitiu que o time não iniciou a partida com o mesmo padrão do jogo anterior, repetindo falhas principalmente nos rebotes. Porém, segundo ele, a equipe corrigiu rapidamente os erros ainda na primeira etapa e retomou os elementos que garantiram a vitória no segundo duelo da série. A melhora defensiva devolveu confiança ao ataque, que passou a executar com mais tranquilidade.
“A gente não começou da mesma forma, mas conseguiu consertar aquilo que nos deu a vitória no jogo 2, que foram principalmente as falhas de rebote que a gente teve hoje e resolveu isso no segundo tempo. Então, acho que isso deu uma certa tranquilidade para a gente poder ir para o ataque, executar nossas jogadas, com a tranquilidade de finalizar sabendo que a retaguarda estava protegida, porque a gente estava defendendo muito bem”, complementou.
Questionado se o baixo rendimento no primeiro tempo foi consequência do curto período de descanso, Guidorizzi descartou a ideia, apesar da diferença de quase 24 horas entre os jogos. Para ele, ambas as equipes chegaram desgastadas, mas o Corinthians demorou um pouco mais para entrar no ritmo. Quando ajustou o foco e neutralizou as ações defensivas do Sesi, conseguiu controlar o jogo e impor ritmo para garantir o triunfo.
“Não acho que foi isso, porque as duas equipes estavam cansadas. Acho que elas demoraram, uma ou outra jogadora, para focar no que estava acontecendo no jogo, mas elas voltaram rápido para a partida. Então, isso foi importante, elas não deixaram de jogar. Quando tiveram dificuldades, e o time do SESI é bom, vai criar dificuldades para a gente. Quando a gente conseguiu estar atento, focado no que o SESI estava fazendo defensivamente, acho que foi isso o que machucou a gente, porque tomamos muitas chances de contra-ataque e estávamos perdendo bola. Entramos no jogo, executamos melhor, estávamos mais concentrados e conseguimos a vitória. A partir disso, a gente manteve o nível”, disse.
“Como falei, teve uma palavrinha que mudou tudo: rebote. Isso foi o diferencial (no segundo jogo) e hoje, no começo, não estava sendo. Então, muito turnover e bola de segunda chance, inclusive de lance livre; isso é falta de atenção. Quando elas corrigiram isso e voltaram para o jogo logo no primeiro tempo, a gente estava atrás, recuperou e saiu para o intervalo com uma vantagem, pequena, mas uma vantagem. A gente voltou lembrando dessa importância focada nesse fundamento tão importante que é o rebote e falei muito do rebote para elas, porque o rebote representa muito uma situação do jogo, que é disputa, entrega, raça, ir atrás da bola e isso é muito Corinthians. Então, quando elas vão atrás, se doam para pegar uma bola, uma sobra, que às vezes no holofote não é tão vista. Isso é um ego desprendido, mas que faz toda a diferença para a gente vencer uma partida”, comentou.
Guidorizzi também falou sobre Jamile, recém-chegada do 3x3. Explicou que a atleta foi contratada para compor o grupo devido às regras de inscrição do Paulista. Mesmo com pouco espaço em quadra, ela tem demonstrado evolução, satisfação em integrar o elenco e valorizado a oportunidade de treinar ao lado de jogadoras de nível de Seleção Brasileira.
“É uma jogadora que veio para compor o grupo, ela sabia disso desde o início. Tem uma regra na Federação que é obrigatório ter jogadoras mais novas. Então, a gente foi buscar uma jogadora que pudesse vir e complementar o grupo. E ela está vindo, está treinando, está feliz de estar com grandes atletas do Brasil, da Seleção Brasileira. O fato de ela não estar entrando não incomoda tanto ela, porque ela está feliz de ter essa oportunidade de jogar no Corinthians e estar ao lado de grandes jogadoras. Tem sido uma oportunidade engrandecedora”, explicou.
O técnico ressaltou o impacto direto da torcida, que compareceu em peso ao ginásio e ajudou a impulsionar o time no momento em que a equipe retomava a intensidade defensiva. Ele destacou que raça, disputa pela bola e apoio da Fiel caminharam juntos na virada de postura da equipe ao longo da partida.
“É totalmente diferente. Quando você entra na quadra e a Fiel consegue gritar, está gritando, está empurrando… Acho que quando a gente fala que o rebote representa muito a raça corinthiana, daí você tem a torcida. Acho que coincidiu a torcida e a melhor, essa raça, essa entrega, essa disputa para ter a bola, coincidiu com a chegada da torcida. Então, acho que isso diz muito”, disse.
Com 24 jogos à frente do Corinthians no Wlamir Marques — 17 vitórias, sete derrotas e 70,83% de aproveitamento —, Guidorizzi não escondeu o orgulho de defender o clube. Emocionado, admitiu que o jogo pode ter sido sua última partida no local, visto que o basquete feminino deverá ser descontinuado a partir da próxima temporada . Disse sentir tristeza pelos impactos que isso causa especialmente nas atletas, mas reforçou que seguirá focado no que pode controlar e nas oportunidades futuras.
“É um grande orgulho vestir a camisa do Corinthians. Estou num templo do basquete, o ginásio chama Wlamir Marques. Uma das lendas do basquete brasileiro, é muito representativo isso para estar no Corinthians. Pode ser a minha última partida, mas saio daqui muito feliz pela oportunidade que tive. Caso saia realmente, a gente não sabe, foi um prazer enorme as pessoas que conheci aqui, trabalhando, foram muito importantes para a minha carreira, que somaram muito.”
“Mas é difícil falar, até vim de carro para cá pensando nisso. É um legado ruim da minha carreira, que sempre mudei de clube, cheguei nas equipes muito por mérito e raramente saio por falta dele. Normalmente, são por motivos alheios à quadra, ao resultado. Fico triste por isso, porque o basquete feminino padece muito por conta disso. Então, ele é sempre o primeiro atingido”, revelou.
O treinador ainda falou da situação delicada para todo o elenco com o possível fim da modalidade. Embora tenha reconhecido que não seja a pessoa mais apropriada para falar do tema, se colocou no lugar das comandadas pela dificuldade do cenário brasileiro do basquete feminino.
“Sinto a dor das meninas, isso porque sou homem, branco, hétero, tudo oposto das meninas. Então, se estou sentindo isso, acho que elas sentem muito mais, porque é uma grande pancada na trajetória, na carreira delas. Então, sinto muito por elas. Não é nenhum espaço de fala isso, mas sinto muito por elas. E assim, a gente foca naquilo que a gente pode controlar. Então, se a gente vier aqui, vou ter de proposta, de oportunidade para trabalhar. E é isso, tem que focar nas coisas que posso controlar.”
Questionado se conquistar o título longe do Parque São Jorge deixaria um “gosto menos doce”, Guidorizzi negou. Para ele, vencer é sempre especial, independentemente do local. Porém, pediu atenção total no jogo 4, lembrando que já viveu viradas adversas contra o próprio adversário desta série. Segundo ele, qualquer brecha pode recolocar o rival na disputa.
“De modo comum. Ganhar, independente de ser em casa ou fora de casa, é sempre muito bom. E a comemoração não precisa acabar depois do título; depois a gente pode voltar para casa e comemorar. Mas, antes disso, a gente tem que pensar em comemoração, tem que pensar em ganhar o título, porque ir para lá e sofrer um revés, isso pode dar uma moral para o SESI. Já estive nessa situação contra elas de 2 a 0, inclusive, e foram atrás e recuperaram. Então não pode dar a menor chance para elas, tem que estar atento o tempo inteiro, porque não é fácil”, finalizou.
O quarto jogo da final do Paulista Feminino acontece nesta quinta-feira, às 19h30, no Ginásio Sesi Araraquara, no interior de São Paulo. O Corinthians precisa de mais uma vitória para fechar a série e conquistar o título estadual.