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Argumentação vazia
O gramado híbrido da Neo Química Arena é considerado referência nacional em qualidade de piso
Foto: Jhony Inacio / Meu Timão
O ruim não pode justificar o pior
Opinião de Beatriz Maineti
O debate sobre a utilização de gramados sintéticos no Brasil ganhou ainda mais volume na última terça-feira. Em meio a realização dos campeonatos Estaduais, os jogadores de diversos clubes da elite do futebol nacional se manifestaram publicamente contra o tipo de piso em questão.
As manifestações aconteceram em massa e pelas redes sociais. Um texto padronizado, escrito e publicado em conjunto por atletas de equipes de todos os cantos do Brasil. A mensagem era clara: o gramado sintético prejudica o andamento do futebol nacional e não poderia ser permitido em um país que tenta desenvolver seu esporte como protagonista no cenário mundial. Não há dubiedade na interpretação do texto; apenas um entendimento era possível.
No segundo parágrafo do texto publicado, a frase final não abre espaço para leituras nas entrelinhas. O que se lê é: “A solução para um gramado ruim é fazer um gramado bom, simples assim”. Com uma sentença de 13 palavras, os jogadores deixam muito claro que a reclamação visa melhorar a qualidade do esporte praticado, e não apontar os clubes A, B ou C como culpados pela utilização do gramado sintético.
Dias depois da publicação dos atletas, o tema segue sendo debatido pelos cantos das redes sociais. Esta guerra de opiniões tem girado muito em torno de uma justificativa que diz que não é possível questionar a implementação de gramados sintéticos enquanto tivermos, espalhados pelo Brasil, campos com grama natural em péssima condição de jogo.
Essa argumentação se baseia na condição verdadeiramente precária de alguns estádios brasileiros. Em 2024, o torcedor brasileiro, independentemente do time, viu campos absurdos sendo utilizados como palco de partidas importantes, como o Barradão, que virou assunto, inclusive, após o jogo entre Vitória e Corinthians, que teve o gramado como protagonista.
Em 2025, o próprio Corinthians foi prejudicado pelo estado dos gramados, onde jogou em um janeiro de muita chuva no Estado de São Paulo. O Morumbis, com grama natural, apesar de ser considerado um dos melhores estádios do país, foi castigado por uma tempestade antes do primeiro Majestoso da temporada e a partida precisou ser adiada em mais de uma oportunidade. Pouco tempo depois, o mesmo voltou a acontecer no estádio Moisés Lucarelli, em Campinas, e no Allianz Parque - este, com piso sintético.
A argumentação não se baseia em qualquer tipo de inverdade. O futebol brasileiro está abarrotado de campos esburacados, em péssimas condições de conservação que prejudicam, também, o jogo. A discussão, porém, não pode se basear em uma tentativa de justificar o horrível com o pior, mudando de pista para uma conversa clubista.
Enquanto o embasamento da manutenção do gramado sintético se sustentar em exemplos ruins da grama natural, não haverá qualquer evolução. Afinal de contas, como manter um piso que foi amplamente reprovado nas principais ligas de futebol na Europa e no resto do mundo usando como justificativa que a grama natural não é 100% perfeita?
Um estudo realizado pela UEFA ao longo de mais de 18 anos, e referenciado pela Dra. Ana Carolina Côrte, chefe do departamento médico do Corinthians, demonstra que o número de lesões não é muito diferente entre gramados sintéticos e naturais. O que muda, porém, é o tipo e a gravidade da lesão. Enquanto os campos com grama verdadeira são palco de lesões musculares, às quais todos os atletas estão sujeitos, os artificiais ocasionam mais contusões ligamentares, que demandam mais tempo de afastamento e carregam consequências mais graves.
Se os gramados naturais apresentam problemas, é preciso oferecer soluções para eles. Os clubes deveriam se unir, exigir uma padronização por parte da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e pedir mais investimento nos palcos de jogos nacionais, mesmo que o aporte financeiro não venha, necessariamente, do clube responsável pelo estádio.
Ao optar por gramados sintéticos, os clubes escapam para soluções mais simplistas e menos assertivas que podem, a curto prazo, prejudicar o esporte. Os benefícios deste tipo de piso são exclusivos das administrações dos clubes, que têm menos custo de manutenção e podem adaptar mais facilmente o estádio para eventos culturais. E o problema jamais será esse, mas sim fazer isso às custas do bom espetáculo futebolístico.
A manifestação dos jogadores não é um ataque clubista ou uma forma de desmerecer o adversário - estadual ou nacional. Embora alguns clubes tenham tratado a situação dessa forma, a discussão é mais profunda do que qualquer tipo de rivalidade ou de “inveja” de torcedor. O papo é sério e tem que ser tratado como tal, não como qualquer tipo de rixa.
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.





