Neymar, o caso de estupro, Corinthians e uma xícara de chá: o que tem a ver?

Lucas Faraldo

Escrevendo sobre o Corinthians desde 2014

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Neymar, o caso de estupro, Corinthians e uma xícara de chá: o que tem a ver?

Xícara de chá é metáfora usada em vídeo didático para falar sobre abuso sexual

Foto: Reprodução

Nada tem a ver o Corinthians com a mais grave polêmica em que Neymar se envolveu nos dez anos de carreira. Começo esse texto assim porque certamente é a pergunta que todos (inclusive o fundador e dono do Meu Timão) fariam ao ver tal assunto por aqui.

Pois bem. Se nada tem a ver com o Corinthians, por que está sendo discutido aqui?

Vou falar sobre consentimento. E nada seria mais bizarro, portanto, do que obrigar alguém a ler o que escreverei abaixo. Você quer entender o elo que (não) faço entre Corinthians e o "caso Neymar"? Se sim, bora lá. Se não, bola pra frente e siga navegando pelo nosso site.

Ontem numa conversa com a equipe de jornalistas e demais funcionários do Meu Timão, Danilo (justamente o fundador e dono desse espaço virtual) contou que aproximadamente 88% das pessoas que acessam o site são homens; só 12%, portanto, são mulheres por aqui.

E ainda que muita mulher também tenha visão equivocada sobre o que é estupro (e pode nem saber que está sendo ou que já foi estuprada), o mais grave é quando homens não sabem. Por quê? Porque, salvo raríssimas exceções, são homens que estupram (e podem nem saber que estão estuprando ou que já estupraram).

Dito isso, quero compartilhar com vocês (os prováveis 88% de homens e 12% de mulheres) o incômodo que tem me dado ler/ouvir/ver opiniões e até debates "jornalísticos" sobre esse caso de possível estupro do Neymar. E como aqui todo mundo gosta de Corinthians e inevitavelmente está por dentro dos principais assuntos do mundo da bola, suponho que esse combo de desinformação já tenha chegado a vocês ou em breve chegará.

E desinformação a gente combate com informação (e às vezes de forma magistralmente rápida e didática, como no vídeo de 3 minutos que encontrarão ao fim desse texto).

Primeiro que ninguém deveria estar tomando partido nenhum a não ser o de legitimar os direitos da moça em acusar e de Neymar em se defender. Mas já que vivemos num mundo onde cada vez mais todo mundo tem opinião formada sobre tudo, que pelo menos as opiniões não sejam burras.

Estão chovendo teorias (inclusive na TV aberta por formadores de opinião) pró-Neymar baseadas em argumentos que apontam estupro só como aquela visão tradicional de um desconhecido agarrando uma mulher enquanto rasga suas roupas e lhe dá socos e pontapés pra depois do crime jogá-la nua numa rua qualquer e nunca mais vê-la na vida.

"Ah, eles trocaram mensagens sensuais."

"Ah, ele pagou a viagem dela pra Paris."

"Ah, ela tinha insinuado que queria transar com ele."

"Ah, eles se falaram no dia seguinte."

"Ah, ela (supostamente) tentou extorquir."

E??? A questão chave pra entender estupro é o não-consentimento da relação sexual. E isso pode acontecer das formas mais sutis possíveis, inclusive entre pessoas que estavam se dando super bem antes nas preliminares ou que voltam a se encontrar depois para transar (justamente a desinformação sobre o que é ou não estupro faz a vítima muitas vezes duvidar de si própria sobre estar sendo ou ter sido estuprada, sobre estar ou não "exagerando").

Assistir ao vídeo abaixo pode evitar que você estupre (sem nem saber que estaria estuprando). Pode evitar que você seja estuprada (sem nem saber que estaria sendo estuprada). E pode também, claro, nos dar munição pra combater esse monte de desinformação que rola no mundo – especificamente nesse caso, no mundo da bola.

Ah! Respondendo a pergunta da manchete: não fosse o Corinthians, não estaríamos nos comunicando por meio desse texto, dos comentários abaixo e, principalmente, desse vídeo. E no fim das contas não é, nunca foi e nunca será só futebol, independentemente do que tenha acontecido entre Neymar e a moça em Paris (até porque essa parte é com a polícia, não comigo, com vocês ou com qualquer um que esteja falando na televisão).

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Por Lucas Faraldo Knopf

Jornalista pela ECA-USP e ex-Esporte Interativo, Jovem Pan e Lance!. Hoje trabalha no Meu Timão. Autor do livro 'Impedimento - Machismo, racismo, homofobia e elitização como opressões no futebol'.

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