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Olha a bomba!
Raro dia de torcedores com bandeiras de mastro e bilheteria popular num treino aberto na Arena Corinthians
Foto: Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians
Você provavelmente defende o antifascismo no futebol. E não é terrorista
Informação de Lucas Faraldo
Nos meus primeiros meses trabalhando no Meu Timão, há pouco mais de quatro anos, escrevi o livro Impedimento - Machismo, racismo, homofobia e elitização como opressões no futebol. Estudei na época alguns assuntos que estão agora no noticiário esportivo depois da participação de grupos de torcedores do Corinthians e de outros times no protesto de domingo na Avenida Paulista.
Ciente de que não há verdades absolutas e de que tudo está em constante transformação, vou compartilhar o que aprendi na época. Quem quiser depois dar uma olhada no livro: aqui.
Protesto de torcidas
É algo que faz parte da história das principais torcidas organizadas. Não é exclusividade de tempos do Bolsonaro, do PT, do PSDB, nem de nenhum outro protagonista político do país. Mas é especificamente mais importante quando diz respeito a princípios democráticos.
Foi assim que nasceu, por exemplo, a Gaviões da Fiel, em 1969, durante a Ditadura Militar. Eram torcedores que questionavam os regimes autoritários que comandavam o Brasil e o Corinthians. Defendiam direitos civis e tiveram como grande vitória o apoio às Diretas Já.
Escrevi sobre como a Gaviões foi pioneira numa onda de protestos ali em 2016. Com faixas nos estádios e caminhadas nas ruas de São Paulo, a uniformizada cobrava coisas como:
- maior transparência nas contas do Corinthians;
- afastamento de empresários ligados a jogadores das categorias de base;
- maior rigor e agilidade nas investigações de corrupção contra cartolas do futebol brasileiro;
- o fim dos jogos às dez da noite.
As manifestações ganharam adesão de torcedores não-organizados e de uniformizadas de outros times do país. E atingiram ápice com protestos em frente à Assembleia Legislativa de São Paulo, presidida por Fernando Capez, contra quem os torcedores exigiam uma CPI para averiguar o esquema de desvio do dinheiro de marmitas escolares. O que também não deixa de ser vingança contra um inimigo pessoal das torcidas tornou-se luta por justiça social.
Torcidas organizadas em protesto contra desvio de dinheiro público
Divulgação/Gaviões da Fiel
Nada disso, claro, apaga episódios de violência ligados às organizadas. Assim como esses episódios não apagam os protestos sócio-políticos historicamente ligados a elas. Certo?
Violência policial
A resposta a quase qualquer protesto de torcidas são bombas de gás e balas de borracha. Era assim naquele início de 2016 e foi assim no último protesto da Avenida Paulista.
Não sejamos também ingênuos: nos inúmeros protestos do tipo ao longo de mais de meio século, certamente o estopim para o confronto já partiu ora dos torcedores e ora dos policiais.
No domingo, antes da chegada dos corinthianos e demais grupos para a marcha pró-democracia, uma minoria de extremistas apoiadores do presidente da República (que não representa a totalidade dos apoiadores de Jair Bolsonaro) carregava faixas e fazia pronunciamentos inconstitucionais. Isso é crime. E a polícia nada fez.
Os torcedores corinthianos e de outros times chegaram então do outro lado da Paulista. Foram revistados. Depois do ato, a PM disse ter encontrado armas brancas com alguns.
Não vi registro de revistas policiais do lado onde estava o outro protesto. Mas vi manifestante ameaçando os torcedores enquanto carregava um bastão de beisebol e sendo abraçada por policial que não viu ali arma branca. Estaria de passagem rumo a um treino de softbol?
Pouco depois, a manifestação onde estavam os torcedores foi dispersa pelos policiais. Eram bombas e balas de borracha de um lado. E pedras do outro – não sei se havia também bastão de beisebol entre os torcedores; acho provável que tenham usado só as mãos.
Fernando Bezerra, repórter da Agência EFE, ferido por bomba da PM
Pedro Ribeiro Nogueira - Ponte Jornalismo
'O fato de serem torcidas desarmou um pouco a retórica dos bolsonaristas. Como não eram simplesmente ‘os vermelhos’, tiveram que sair do argumento político para o moral, de que as organizadas são ‘violentas’, ‘promovem o caos’, o velho estigma', analisou o sociólogo Bernardo Buarque de Hollanda, professor da FGV e pesquisador das torcidas organizadas, em entrevista concedida nesta terça-feira ao jornal O Globo.
Grupos antifascistas
Provavelmente você já leu ou pelo menos viu de passagem alguma menção a antifascismo nos últimos dias. O assunto ganhou força porque grupos antifas estiveram com os torcedores no protesto de domingo. Alguns inclusive formados por torcedores.
Contando algumas histórias de grupos de torcedores que se consideravam antifascistas lá em 2016, entendi em partes quem são esses braços de torcidas (nem sempre organizadas).
Muitos na verdade nem se entendem como torcida, mas sim como movimentos (formado por torcedores) que foram surgindo em diferentes estados do país como resposta à presença de minorias ultrarradicais nos estádios. Essas minorias, quando não se autodenominam, ao menos flertam com neonazismo – odeiam pretos, mulheres independentes, gays, índios...
'Acompanhava um jogo no estádio do Pacaembu e avistei um grupo de torcedores com jaquetas de uma torcida uniformizada fascista da Lazio, da Itália', explicou na época a fundadora de um desses grupos de torcedores antifascistas.
Às vezes misturando organizados e não-organizados, são grupos formados por torcedores que:
- dentro dos estádios, tentam coibir atos discriminatórios ainda comuns no ambiente do futebol como homofobia, machismo e racismo;
- fora dos estádios, promovem discussões sobre esses e outros assuntos de relevância não só para o futebol mas para a sociedade de forma geral.
O movimento antifascista, futebol à parte, é crítico também ao capitalismo. No futebol, é o que rotulamos 'ódio ao futebol moderno'. Essa é uma pauta, em essência, antifascista. E também presente nas tais discussões desses torcedores fora das arquibancadas.
E muitos dos leitores do Meu Timão a defendem. Muitos dos torcedores do Corinthians e de outros clubes são críticos ferrenhos à modernização do futebol. Somos terroristas por isso?
'A mercantilização excessiva do futebol gera processos de elitização e de exclusão, os quais indiretamente podem ser vistos como violências simbólicas contra os mais carentes, os mais necessitados, camadas sociais onde se situam imensas massas de torcedores', pontuou na época o sociólogo Mauricio Murad, autor do livro A Violência no Futebol: Novas Pesquisas, Novas Ideias, Novas Propostas.
'Futebol é economia e mercado, sim, mas historicamente foi e é sobretudo e antes disso cultura, socialização, identidade, simbologia coletiva', acrescentou.
Voltando ao protesto: existem também os torcedores organizados que simpatizam com as ideias antifascistas. E os antifascistas que nada tem a ver com torcidas de futebol.
Esse monte de gente se juntou no protesto pró-democracia de domingo. Eles questionavam, além dos pedidos inconstitucionais do outro protesto, a presença de grupos neonazistas infiltrados entre os bolsonaristas. A PM inclusive admitiu não só a presença dos neonazistas na Paulista como atribuiu a eles o início dos confrontos.
'Gente pobre, gente que reivindica direito ser oprimida pela polícia e pela sociedade de forma geral não é particularidade do futebol. A sociedade funciona assim. Reivindicar direito é criminalizado na nossa sociedade (...) O futebol está inserido na sociedade. Todos os problemas que se associam a ele são problemas da sociedade que são reproduzidos no futebol, como violência', analisou Penélope Toledo, então porta-voz do Coletivo Futebol, Mídia e Democracia, grupo de torcedores com quem fiz estudos enquanto escrevia o livro.




