Libertadores fora do Corinthians

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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Libertadores fora do Corinthians

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Foto: Reprodução

Na noite de 4 de julho de 2012 estava no Tobogã do Pacaembu. Quando o juiz apitou o fim do jogo, recordo-me de um misto de sensações, sentimentos e também ressentimentos que circulavam dentro de mim.

É claro que a alegria prevalecia, mas curiosamente comecei a gritar na arquibancada num daqueles surtos que só experimentamos nos estádios de futebol. Sim, dentre as coisas que o futebol nos proporciona está essa catarse. Quase que um ritual xamã. A gente trafega na borda da loucura e depois retorna. Nunca totalmente normal. Uma parte dessa maluquez segue com a gente misturada com nossa lucidez.

Mas para espanto de quem estava ao meu lado, quando trilou o apito final eu gritava:

- Acabou! Acabou essa merda de Libertadores! Foda-se você, Libertadores! Ganhamos essa bosta dessa várzea! Estamos livres! Agora pega essa merda dessa taça e joga no lixo!

Sim, parecia uma grande blasfêmia que eu cometia naquele momento. Depois de a Fiel pedir tanto essa conquista eu me desfazia dela assim na cara larga?

Mas aquele meu súbito desabafo era uma percepção instantânea que havíamos feito tudo aquilo mais pelos outros do que por nós mesmos. Era como se a gente precisasse provar que podíamos sim vencer aquela competição.

Minha ilusão tola me fez acreditar que nos livraríamos daquele peso. Nossa história nos mostrou que permanecemos na mesma. Buscando aceitação. Jogando uma pressão absurda nos nossos ombros por algo que, a meu ver, não deveria ser tão importante.

Juro que pensei em escrever esse texto logo depois do segundo gol do Corinthians. Quando já havíamos sido roubados pelo juiz e marcamos um gol logo em seguida. Naquele momento acreditei que nos classificaríamos e poderia escrever esse texto sem o signo da derrota.

Sim, porque parece choro de perdedor, mas a verdade é que não estou nem ligando para o que vão dizer. O fato é que o Corinthians, na minha avaliação pessoal, deveria deixar de disputar esse lixo que é a Taça Libertadores.

Estamos sendo roubados, extorquidos, ludibriados e surrupiados durante anos. Outros clubes brasileiros também, mas rendidos que são, chamam isso de "alma de Libertadores". Ou seja, deveríamos nos submeter a quase tudo para comprovar que depois de escarrados, agredidos, enganados e roubados passaríamos a possuir essa tal "alma de Libertadores".

Se olharmos para o todo, o Corinthians tem muito pouco a perder sem a Libertadores. O Corinthians quer conquistar a Libertadores, mas na verdade a Libertadores é que deveria respeitar o Corinthians.

Os clubes aceitam toda sorte de atrocidades na competição e em verdade não se respeitam. Um clube com o peso e o tamanho do Corinthians iria colaborar para a transformação dessa máquina opressora.

O que ocorreu em Itaquera foi mais um roubo escancarado. Daqueles roubos cometidos por profissionais. Uma intervenção cirúrgica no campeonato.

Da mesma forma que ocorreu com Amarilla em 2013, colocaram um árbitro experiente para "fazer o serviço" do jeito certo. Dessa vez, um juiz que apitou a última final de Copa do Mundo .

É um roubo clássico, quase que limpo, senão marcado pela sujeira de suas intenções. Não precisa de um grande acontecimento ou escândalo. O juiz vai minando um dos lados, impedindo de jogar numa avalanche de cartões até encontrar uma expulsão absurda. Uma tentativa de bicicleta, talvez o lance mais bonito do futebol. O zagueiro se antecipou, mas isso jamais poderia ser encarado como jogo perigoso. Pronto! Não foi apenas uma expulsão, ficamos sem o craque do nosso time.

Foi revoltante. Naquele momento o Corinthians deveria deixar o campo para nunca mais voltar.

Aí o amigo corinthiano pode me dizer: "ah, mas se o Corinthians se recusar a jogar a Libertadores, irão dizer que é porque cansamos de perder". Ora, se formos nos preocupar com o que dizem nossos detratores, o Corinthians nem teria sua razão de existir.

Quando a gente ganha um campeonato cheio de glórias eles não dizem também que foi roubado? Pois então. "Haja o que hajar" o Corinthians vai incomodar.

E estejam certos, o Corinthians já nasceu pra incomodar os dominantes. Fomos mal quistos nos salões e jogados pra fora desde que nascemos. Aliás, o talvez o sentido da nossa existência seja realmente esse. É só olhar com alguma atenção a nossa história.

Mas com a Libertadores os limites do absurdo foram ultrapassados. A atitude do Corinthians, com seu tamanho todo, nos faria ser mais respeitados. Não estamos no mesmo lugar de 110 anos atrás. Temos um peso econômico, apesar da crise em que vivemos.

Tanto temos peso, que temos sofrido retaliações.

Quem não se lembra da entrevista do presidente Andrés Sanchez no dia do sorteio das chaves. Foi lá ele dizer que o campeonato não era tudo isso, que precisava ser melhor organizado, que a pré libertadores era terrível porque atrapalhava todo planejamento financeiro do clube e que melhor era nem ser chamado pra essa fase. Que não se importaria em ficar de fora, pois a competição é a que menos paga para o clube.

Pois bem, fomos cirurgicamente retaliados. Assim como fomos em 2013, não só pela tragédia de Oruro, mas porque os nossos outros presidentes também já haviam criticado a entidade suprema do futebol sul americano.

Lá são verdadeiros canalhas. A justiça tem mostrado isso. Uma verdadeira organização criminosa. Ironicamente usam o nome dos grandes Libertadores da América, mas exigem total submissão e bajulação de seus filiados. Conferem tratamentos distintos aos clubes que fazem parte da panela. A competição é deles.

Aí alguém vai dizer que os presidentes do Corinthians deveriam tentar se aliar ou calarem-se para que não sejamos punidos no campo.

Essa é uma questão existencial. O mundo realmente se divide nesses dois tipos de indivíduos. Mesmo guardando importantes e decisivas críticas ao presidente, também não componho a fileira daqueles que preferem se curvar para ver se recebem um tratamento melhor.

Não deveríamos nos curvar diante desse absurdo.

O Corinthians é muito grande e não deveríamos também ser como outras torcidas que desnudam sua submissão cultural e se deleitam com o fetiche da Libertadores como quem adora ser pisado.

Hoje funciona assim, a Copa do Brasil é boa porque o campeão se classifica para a Libertadores. No Campeonato Brasileiro os clubes não disputam o título, mas a vaga na Libertadores. A Sul Americana dá vaga na Libertadores.

Isso é uma frescura sem tamanho. Somos duas vezes campeões do mundo. E a partir do ano que vem o mundial de clubes só irá ocorrer de quatro em quatro anos. Ou seja, é preciso relativizar essa competição.

O Corinthians é sim um dos maiores clubes do mundo, queiram ou não. Só não enxerga no Corinthians uma grande potência quem é subjugado e deslumbrado.

Somos um verdadeiro milagre. Um clube que já nasceu pra incomodar. Um dos pouquíssimos grandes clubes do mundo formado por trabalhadores. O time da ralé.

Mas vejam, não somos o que eles gostariam.
Não baixamos nossa cabeça! Não somos e nem seremos submissos! É justamente nessas horas em que o Corinthians se agiganta.

O Corinthians tem que se dar ao respeito!

A manchete do dia não deveria ser Corinthians fora da Libertadores.

O correto seria Libertadores fora do Corinthians!

Veja mais em: Libertadores da América.

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Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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