O mundo sem Sócrates

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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O mundo sem Sócrates

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O mundo sem Sócrates

Sócrates nos deixou em 2011

Foto: Arquivo

Como você faz falta nas nossas vidas, Doutor. Uma década sem você. Ao mesmo tempo que tudo passou tão rápido, foi também tudo tão devastador.

Dez anos que voaram. Ou dez anos que perdemos, não sei. Parece mesmo que fomos tragados por uma força terrivelmente avassaladora. A vida escorrendo por entre os dedos e muitas vezes desperdiçadas em tolices sem tamanho que o mundo escolheu como prioridades.

Doutor, não parece que se passou uma década. Parece que regredimos um século.

Sem você o mundo não é a mesma coisa. Você veio ao mundo para estar pouco tempo entre nós, mas transformou tudo de maneira impactante. Sua presença, ainda que breve foi definitiva.

Esse mundo sem Sócrates desconhece a genialidade. É tudo tão sem graça. Essa genialidade tinha nos seus pés um veículo terminal, mas que vinha antes do seu corpo, da sua mente, do seu espírito livre. Esse mundo sem Sócrates desconhece a genialidade porque está repleto de decisões que, de tão pragmáticas, chegam a ser mesquinhas.

Você, como ídolo de uma nação, sabia muito bem que não existe nada que ocorre nas quatro linhas de jogo que não tenha correspondência com a vida cotidiana, com o funcionamento da nossa sociedade e com as grandes experiências históricas.

Então é isso, nesse mundo sem você até outros craques surgiram. Mas um craque vazio por dentro tem muito pouco a oferecer. Não passa de um malabarista da bola. Alguém que faz coisas que os outros não conseguem fazer, mas que está no mundo a passeio. Passeando também no campo de jogo. O mundo sem você tem jogadores que até juntaram algum dinheiro, mas que servem apenas para comprar um monte de coisas. Tá bom, bacana. Parabéns! Vivem cheios de uma vida vazia.

Doutor, passo horas aqui em casa vendo vídeos de seus jogos. Fico abismado ao perceber como você decidia as partidas. Seu maior recurso era a inteligência. Além de perceber que você, com a bola nos pés, tinha uma habilidade muito acima dos demais, também conseguia ver um jogo que ninguém via. Um jogo que ainda hoje ninguém consegue ver. Quantos jogos você decidiu em um lance, uma virada de corpo, um passe que ninguém podia imaginar, um chute aparentemente simples, mas que até hoje ninguém consegue dar. Você batia na bola como se fosse uma tacada de sinuca. A bola muitas vezes parecia percorrer lentamente o campo de jogo, como numa mesa de bilhar. Naquela fração de segundos o goleiro e todos aqueles que assistiam ao jogo poderiam supor que seria possível alcançar a bola. Mas, não. Já era. A bola já tinha endereço certo bem antes de seu chute. Porque houve a imaginação antes mesmo da execução. Antes de posicionar o corpo, antes do defensor, antes de todo mundo.

Assim era você, um intelectual, um criador, um artista, um visionário.

E só poderia ser ídolo do Corinthians. Não apenas para nos redimir. Não apenas para nos fazer vencer. Não apenas para nos dar alegrias incríveis. Mas estava escrito que Sócrates Brasileiro seria o maior ídolo da história do Sport Club Corinthians Paulista.

O Doutor Sócrates era uma espécie de muralista. Sua arte estava lá, ao alcance do nosso povo. Ele tinha uma arte refinada, mas coerentemente com sua ideologia, era o refinamento ao alcance das pessoas. Era a prova de que a arte não deveria estar somente em espaços de privilégio. Era a esperança de que a beleza, o conhecimento, a informação e a sabedoria poderiam estar ao alcance de todos, poderiam ser tocadas, poderiam ser experimentadas.

Simbolicamente, haveria de ser no Corinthians, doutor.
Haveria de ser no Corinthians a avenida de sua grande luta. Não poderia haver melhor espaço para a luta pela democracia. Democracia Corinthiana!

Incautos podem dizer, com algum ressentimento, que o Corinthians esteve a serviço de aspirações e movimentações políticas lideradas pelo Sócrates.

Mas é isso mesmo, meu filho. Por isso o Corinthians é diferente e por isso haveria de ser o Corinthians a casa do Sócrates. É para isso que nasceu o Corinthians, se é que você não percebeu.

Não sei se você já se deu conta, mas desde a sua formação, o Corinthians não surgiu para ser mais uma grife do futebol. É por isso que somos realmente diferentes. É por isso que somos o clube mais original do Planeta Terra. Não somos mais um time. Somos uma expressão da identidade da nossa gente. Somos sim um instrumento de luta e representação. Não é bordão político. Sócrates percebeu isso como ninguém. Tanto que não existe muito essa coisa de Corinthians e torcida do Corinthians. O Corinthians é a torcida e a torcida é o Corinthians.

Não somos diferentes porque nossa torcida é mais fanática que as outras. Essa coisa de fanatismo é relativa. Tem muitos torcedores pelo mundo que também são apaixonados por seus clubes. Não é que nossa torcida seja somente a mais fanática. Nossa torcida é mais participativa. Nossa torcida vive o Corinthians. Nossa gente precisa do Corinthians para viver, essa é diferença. O que seria de nós sem o Corinthians? A gente precisa do Corinthians para existir. Para suportar as coisas ruins desse mundo e também para viver e desfrutar as coisas lindas dessa vida. O Corinthians é uma continuação de nós mesmos. É a expressão daquilo que somos.

Ah, Doutor. Às vezes eu penso que você deveria ser eterno. As vezes concluo que você passou tão rápido porque você está muito além das coisas desse mundo.

Esse mundo sem Sócrates tem muito menos democracia. Esse mundo sem Sócrates tem o povão abraçando umas ideias erradas. Falta a sua força pra falar com nossa nação.

Esse mundo sem Sócrates tem muito menos inspiração.
O Corinthians sem o Sócrates sofre um bocado também. Doutor, vejo umas coisas erradas no Corinthians. Me incomoda muito usarem o seu nome, a sua face, a sua genialidade, a sua figura humana, mas transformarem isso tudo apenas numa marca.
Quando olhamos mais atentamente, o Corinthians continua a mesma porra! Forças atrasadas, conservadoras, injustas. Usam seu nome (e o nome do Timão) para vender camiseta, mas no minuto seguinte desprezam a história do Corinthians. Falam de Democracia Corinthiana, mas fecham a porta cada vez mais para as experiências democráticas.

Mas, Sócrates, quando eu paro pra pensar, percebo que é melhor mesmo que sua face esteja por todos os lados. O que nos diferencia dos outros seres vivos é que nós, homens e mulheres, podemos deixar uma história, uma biografia, nossos gestos e ações permanecem por mais tempo na terra. Então eu chego à conclusão que é melhor mesmo que as novas gerações saibam de sua importância. Você é uma bandeira e uma lição. Então que façam mais mil camisetas e mais mil bandeiras. Sempre haverá um corinthiano que irá aprender mais com você.

Você também não viveu dias fáceis nesse mundo. Passou boa parte de sua vida na Ditadura Militar e o mundo experimentava também coisas terríveis.

Aí eu olho para suas fotos e vídeos e você estava sempre sorrindo. Aquele sorriso largo e generoso. Penso em Doutor Sócrates e vejo aquela mesa com cerveja e seus amigos fazendo um batuque. Penso no samba, na Música Popular Brasileira. Penso que seu palco de resistência foi o futebol. Concluo que mesmo nos seus tempos igualmente difíceis você criou, produziu, viveu a vida com alegria.

A resistência está na luta. Mas a resistência também está na ternura, na alegria, na cervejinha com os amigos, no batuque, a resistência está em não sucumbir. O sistema nos quer na lona, eu prefiro encontrar a alegria transformadora, a felicidade com queridos amigos dividindo a mesma mesa e o mesmo sorriso.

E aprendi com você que a resistência também passa pelo Corinthians! Temos a graça e a alegria de sermos corinthianos!

O Corinthians para lutar! Mas o Corinthians também pra gente ser feliz, pra gente torcer, pra gente gritar, pra gente se amar.

O mundo não está sem o Sócrates, porra nenhuma.

Você ainda está por aqui, falando e ensinando muita coisa pra gente.

Veja mais em: Sócrates, Ídolos do Corinthians e História do Corinthians.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.

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Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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