A torcida do Corinthians vai se encontrando em Itaquera

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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A torcida do Corinthians vai se encontrando em Itaquera

Torcida do Corinthians antes da final contra a Ponte Preta

Foto: Reprodução Instagram/t.ribeirofotografia

Ao lado da barraca de pernil o DJ montou uma tenda bem bacana. Colocou ali sua picape, seus discos de vinil e seu notebook recheado de musica boa. A galera toda feliz se divertia em paz. Nessa festa, o traje obrigatório era a camisa do Corinthians. Nem a poluição da cidade conseguia esconder todas as estrelas, como de costume. Restavam ainda algumas para a Fiel Torcida contemplar. As estrelas que faltavam eram produzidas no céu com fogos de artifício. Eles explodiam felizes e depois escorriam na noite preta como lágrimas de emoção e felicidade. Muita gente feliz carregava no peito a faixa de Campeão Paulista de 2017 que a cada abraço se esfarelava e deixava a roupa toda brilhante.

O som era bom. Rolava de tudo um pouco. O povão dançava ao som do Tim Maia e cantava com a alma. As pessoas se abraçavam como irmãs. Havia um clima especialmente gostoso naquela noite de domingo em Itaquera. Ao lado se via a COHAB com suas janelas acesas. Os prédios pareciam felizes. Logo depois começou o Rap. Sabotage cantava Mun-Rá: “Sou Gavião da Fiel de Origem Louco”. Rolou Racionais. Rolou Bob Marley. Rolou até Chico Buarque.

Aos poucos, a Fiel vai se encontrando em Itaquera. Resistindo e existindo em meio ao tormento da pós-modernidade. Encontrando seu lugar no estádio quadrado e compartimentado, tal qual a sociedade globalizada. Cheio de setores, níveis, classes, pedaços, galeras, lugares, fileiras, blocos, status, visões de mundo, andares, experiências, assentos, e espaços que quase nunca se encontram.

Antes seus amigos eram seus parentes, seus colegas de escola, quem frequentava seu clube, quem vivia na sua vizinhança, na mesma quadra. A interação se dava principalmente por parentesco ou pela proximidade geográfica. Hoje em dia vivemos em redes. Aproximamo-nos daqueles que tem interesses compartilhados. Adoramos viver com quem concorda com a gente e gosta das mesmas coisas, ficou mais fácil de encontrar a própria turma. Por outro lado vivemos desgraçadamente odiando quem pensa diferente. Não aceitamos as divergências e temos muita dificuldade de conviver com o contraditório. Nesse aspecto, nunca fomos tão infelizes.

Certamente, o mundo já foi um lugar muito mais simples.

Se antes a galera se encontrava nas grandes praças públicas, nos grandes espaços físicos, também se encaixava em grandes projetos políticos, sociais e culturais totalizantes. Hoje não. São milhões de livros sagrados, doutrinas, conceitos, quereres, identidades e prioridades em permanente conflito. Cada um defendendo fervorosamente a sua visão de mundo e se chocando em guerras santas cotidianas com os próximos.

Mas a vida é assim. A natureza é assim. Estamos em permanente transformação. O mundo mudou debaixo do nosso nariz e permanecemos buscando um caminho de felicidade.

A torcida do Corinthians é a simbiose entre resistência e adaptação. Desde o início foi assim. Resistir é heroico, mas se adaptar é necessário. Somos transformados pelo mundo, mas também sempre fomos capazes de transformá-lo.

Se tempos atrás a Praça Charles Miller era o lugar de encontro de todas as turmas que depois se integravam e viravam uma só, hoje a galera se encontra nos múltiplos pontos de encontro no entorno do estádio. Se antes a praça era o grande espaço geográfico capaz de receber a população que precisava se reunir, hoje os lugares são difusos. Não é mais tão necessária a grande praça, ainda que seja delicioso se encontrar numa praça. Os grupos de Whatsapp, Facebook e outras redes sociais organizam múltiplos lugares, onde de uma forma ou de outra as pessoas insistem em conviver.

As pessoas insistem em se encontrar. Ainda precisam uma das outras. Ainda necessitam do toque, do abraço e de ouvir a voz do próximo. O Corinthians resiste sendo um instrumento de solidariedade entre pessoas diferentes que precisam encontrar convergências e consensos. O Corinthians é um instrumento de paz, de harmonia, onde a vida acontece. O Corinthians é amor.

Depois da barraca do DJ, andando mais alguns metros, havia outra tenda. Lá, um grupo de samba juntava muita gente em volta de sua mesa. A galera cantava a poesia dos morros naquele encontro lindo na periferia de São Paulo. Era pura energia.

Nas ruas, travessas e vielas do fundão da Zona Leste os churrascos nas calçadas se multiplicavam. As galeras encontraram o seu cantinho preferido para o esquenta antes do jogo e também para a comemoração. As caixinhas de som tocando no último volume. Uma variação rica de ritmos e gostos.

As biroscas e botecos também estavam cheios. Cada galera foi adotando o seu boteco preferido. Espaço para confabulações. Para falar do Corinthians, mas também para as ideias loucas. Para jogar conversa fora sem compromisso ou para falar à meia voz ideias subversivas. Botar a cabeça pra funcionar em como ameaçar o sistema. Devaneios sem compromisso ou aquela ideia que fica martelando a cada dia até que todo mundo em sinergia diga já sem medo: É isso! Assim as coisas funcionam e assim o mundo se transforma.

O Coringão é isso aí! Nós estamos no tudo, mas também estamos no nada. Somos insurgentes todos juntos no mesmo lugar, mas continuamos existindo espalhados nas esquinas. Somos sólidos, mas também somos fluidos. O Corinthians é força da natureza, mas também é metafísico. É matéria, mas também é espírito. Estamos no Parque São Jorge, no Pacaembu e em Itaquera. Mas estamos principalmente na cabeça da nossa gente. E isso não tem como controlar. Não há como nos dissolver. O Corinthians paira no ar. O Corinthians continua existindo e resistindo.

Veja mais em: Torcida do Corinthians.

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Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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