Lições para o conformismo e o apequenamento

Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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Lições para o conformismo e o apequenamento

Corinthians: novamente, a entrega da vantagem no Dérbi

Foto: Rodrigo Coca / Agência Corinthians

A verdade é esta: tomamos um chocolate, amargo, 4 a 0, em derrota para o maior (e pior) rival, que assumiu novamente a vantagem no Dérbi.

A ordem geral, no entanto, é minimizar o impacto, é procurar ver o copo meio cheio, é comemorar a permanência na primeira divisão.

Prevalece essa tendência de atribuir fracassos à má sorte, conduta que revela desprezo pelo mundo da ciência e da razão. "Ah, se o Gil tivesse feito aquele gol; ah, se o goleiro deles não estivesse tão ligado"...

Períodos de decadência no futebol, entretanto, são resultado de equívocos no campo da gestão e de conformismos de comodidade.

Isso vale para o Corinthians, enfiado desde 2017 no lodo imobilizante da autossatisfação e da autocomiseração.

"Ah, tá bom assim, já fizemos o que podíamos fazer", repete para si mesmo o torcedor resignado, tentando convencer-se de que basta viver de recordações.

A história dos ciclos nada mais é do que a história do sucesso ou do fracasso das gestões.

O Corinthians "faz me rir", dos anos 1960, não é obra do ocaso ou de forças sobrenaturais, mas da inépcia e da estupidez de quem o comandava.

O período de jejum apresenta-se, em boa parte, como obra máxima de Wadih Helu, o homem do regime dentro do Parque São Jorge.

Até meados de 1950, o Corinthians tinha essa aspiração imodesta de ser o mosqueteiro imbatível, essa saudável prepotência de time sempre vencedor.

Depois do jejum, contudo, a fidelidade se misturou - frequentemente - com submissão servil ao sofrimento, com a capacidade de aplaudir magnatas derrotados ao fim de um fiasco em campo.

Em paralelo, manifestou-se o provincianismo. Havia gente, lá atrás, argumentando que o importante era vencer o Paulistão, e não o Brasileiro.

Em seguida, o desdém se estabeleceu em relação à disputa continental, de forma brutal e danosa. E veio a frase: "o Corinthians não precisa da Libertadores, a Libertadores é que precisa do Corinthians".

Um clube com 30 milhões de torcedores, na cidade mais rica, poderosa e povoada da América do Sul, deveria ter história mais nobre e decente na competição.

O Boca tem 6 títulos. O Peñarol tem 5. O River tem 4. O São Paulo tem 3, assim como o Grêmio. O modesto Santos pode chegar a 4. O que seria "menos ruim", para que o arquirrival não erga seu segundo caneco.

Roubam a gente? Sim, mas roubam os outros daqui também. Não é desculpa para os malogros em série nas competições internacionais.

Um Guarany do Paraguai, um Tolima, um Independiente del Valle, como regra, nos metem em apuros. Mesmo no jogos que disputamos em casa.

Porque sem projeto, sem "casca" grossa e sem cultura de disputas internacionais, somos presa fácil para qualquer timeco meia boca que fale castelhano. Ou não?

Nesta passagem de década, a ordem é contar títulos de um passado mais ou menos recente e disparar: "está bom assim".

Quem pensasse dessa forma, nas três primeiras décadas da agremiação, levaria uma cintada do Neco. Na década de 50, um tapão n'oreia desferido pelo Idário.

Convém estudar a história e verificar como o Corinthians entrava como um leão nas competições internacionais da primeira metade de sua história, logrando ótimos resultados.

Depois do Mundial e do belo título brasileiro de 2015, resolvemos nos apequenar e nos defender, mental e administrativamente.

E o título "por uma bola" de 2017 sacramenta essa visão. De modo que mesmo o pior anti-jogo do mundo, utilizado lá fora como exemplo de como NÃO se organizar em campo, tornou-se orgulho de parte da torcida.

A rigor, o Corinthians não pratica decentemente o ludopédio desde o meio daquele ano, no qual já não teve futebol brilhante.

Misturou-se o não-jogo modorra com a ineficiência e a ineficácia do último e trágico mandato de Andrés Sanchez, um elemento que privilegiou tubarões, endividou o clube e reproduziu as repreensíveis condutas da era Wadih Helu.

Em período recente, cresceu tremendamente o número de derrotas em Itaquera. Consultem os almanaques.

Desde que se sacramentou a conquista do título de 2017, por exemplo, o Corinthians enfrentou o Flamengo em 10 oportunidades.

Ganhou apenas UMA vez. Você sabia disso? Empatou duas vezes. Perdeu SETE. Sete!

Tomamos duas vezes de 3 a 0, um 4 a 1 e um 5 a 1. Tomamos 20 gols. Fizemos 5. 20 a 5: é normal?

Péssimo marketing para quem pretendia se tornar o clube o mais popular do país.

Depois de um longa era glacial, o Corinthians recuperou a hegemonia no Derby, com vitória de 1 a 0, em casa, no inverno da pandemia.

Depois disso, no entanto, dois empates e duas derrotas. Nesses quatro jogos, 7 gols para os verdes, 1 para o Corinthians. Exatamente, 7 a 1.

Épocas de vacas magras têm relação com gestões destrutivas. O Milan pós Berlusca, o River da trapalhadas de Passarela, a Juve das tramoias de Franzo Grande Stevens, o São Paulo dos cartolas que trocavam sopapos, o Cruzeiro de transportadores de pó e bandidos congêneres, o Vasco coronelizado de Eurico-Dinamite.

Quer ser mesmo grande, grande de verdade? Pense grande. Administre com seriedade, senso de inovação e justiça!

Quer ser grande? Seja um torcedor fiel, mas nunca se contente com o segundo lugar.

Veja mais em: Dérbi.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.

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Por Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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