As veias abertas da Itaquera Latina

Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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As veias abertas da Itaquera Latina

Coluna do Walter Falceta

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As veias abertas da Itaquera Latina

Festa interrompida: razão de nenhum dos lados

Foto: WFJr.

Em seu famoso livro “As Veias Abertas da América Latina”, lançado em 1971, o escritor e pensador Eduardo Galeano descreve e analisa as mazelas do continente.

“Nossa comarca no mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi precoce: especializou-se em PERDER desde os tempos em que os europeus do Renascimento se aventuraram pelos mares e lhe cravaram os dentes na garganta”, define, de forma crua e direta.

Nesta quarta-feira outonal, Itaquera exibiu essas chagas que teimam em sangrar, mais de cinco séculos depois do processo de apropriação da terra pelos ditos civilizados do além-mar.

Houve, desde a hora vespertina, desconforto e incômodo. Borrou-se a cena esportiva com a conduta inadequada, com o ilícito vergonhoso. Mas por quê?

Cabe lembrar que parte considerável da massa torcedora é composta deste mesmo povo que sofre com a exclusão social, com a seletividade do aparato jurídico e, principalmente, com a obsolescência dos conteúdos educacionais, incapazes de constituir vocações para o exercício da cidadania.

Também é verdade que esses setores da multidão carregam na pele as marcas do preconceito e do arbítrio. Caiu a ditadura chilena, do monstruoso Pinochet, como caiu a ditadura brasileira, que fez chorar tantas Clarices e Marias.

No entanto, o chicote da autoridade segue rasgando a carne dos jovens das periferias, de Santiago e de São Paulo, de Antofagasta e do Rio de Janeiro. Não poupam os olhos rasgados indígenas nem a pele solar da África, tampouco a mistura desses ricos genes.

É muito ingênuo quem imagina que algum amor possa nascer do ódio. A opressão pode gerar silêncio e imobilidade, mas nunca autêntica simpatia pelo sistema. Na base da pirâmide, o Estado, tal qual tutor hipócrita, segue alimentando o ódio e o ressentimento.

As políticas de contenção da violência no continente raramente se pautam pela educação. Porque educação de verdade envolve reciprocidade. Aprende o aprendiz e também o professor.

Neste imenso território, o Estado moralmente falido exerce o poder com soberba. Não ensina, não aprende, apenas reprime.

Supostamente empenhados em combater a violência, os legisladores e membros da juristocracia acabam por incentivá-la e fomentá-la.

Porque dividem as pessoas como gado, porque proíbem o contato de iguais, porque repetem, o tempo todo, nas entrelinhas da burrice, que o “outro” é o inimigo.

Um mastro de bandeira não faz o vândalo, porque dano semelhante pode ser produzido por um punho cerrado. Censurar a festa no estádio não faz ninguém mais civilizado, porque existe a malha urbana inteira para o confronto.

Os chilenos de La U vieram pilhados e receberam todos os estímulos para que essa mágoa se convertesse em beligerância. É o agente da força coercitiva do Estado que o cerca, revista de forma hostil, espreme, aperta e condensa.

Porque essa força não é treinada para promover a paz ou para patrocinar qualquer tipo de conciliação. Sua função, desde sempre, é identificar um inimigo do Estado e convertê-lo em inimigo pessoal, contra o qual pode descarregar sua ira punitiva.

Ocorreu assim no Maracanã, em outubro do ano passado, quando os instintos mais rudes da massa, de um lado e de outro, foram encorajados pela força armada da lei.

Jaz ultrapassado o discurso tosco e moralista sobre as arquibancadas convulsionadas. Multidões, sejam elas TOs ou barras, reagem de acordo com o caldo cultural em que estão mergulhadas, respondem a estímulos sociais e reproduzem as contradições das sociedades das quais fazem parte.

Nesta quarta-feira, o Corinthians venceu um time chileno, trajado de azul, por 2 a 0. Este poderia ser o tema desta coluna. Mas o jogo dessa competição parece menor que o drama humano que cercou as quatro linhas.

Do lado alvinegro, reclamava-se da alegria censurada e proibida. Os artefatos pirotécnicos produziam a fumaça que encobria a mensagem de advertência estampada no placar.

Do outro lado, queixavam-se de maus tratos os visitantes. “Tudo começou porque os fardados agrediram uma mulher”, justificava-se um jovem Juán, cujo sobrenome ocultava, enquanto comprimia um calombo no braço. Será verdade? Ou pretexto?

O resultado do entrevero foi a triste depredação de parte da arena, os ferimentos sofridos por uma funcionária, um jornalista chileno preso por filmar a confusão, muita pancadaria, gente da barbárie apanhando, gente inocente apanhando também, gente agressiva tomando borrachada, gente ingênua recebendo golpes semelhantes. Construiu-se ainda mais um argumento em favor da infame torcida única nos espetáculos esportivos.

Nesta noite dedicada ao futebol, Itaquera foi nada mais que espelho de uma sociedade confusa e doente. Exibiu as veias abertas de um continente que tem donos muito antigos, poderosos que rejeitam o rito civilizatório, que patrocinam (de caso pensado) a ignorância e que jamais abandonam a violência como política pública.

* E, por ser uma sociedade confusa e doente, haverá quem veja neste texto uma apologia de "baderneiros" e não uma radiografia do descompasso.

Veja mais em: Torcida do Corinthians.

Coluna do Walter Falceta

Por Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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