O Corinthians que os dirigentes destroem - o início de tudo
A crise financeira do Corinthians não nasceu com a Neo Química Arena e não pode ser atribuída a apenas um presidente. Ela é consequência de quase duas décadas de irresponsabilidade administrativa, orçamentos ignorados, contratações sem capacidade de pagamento e receitas futuras comprometidas para cobrir despesas presentes.
A situação tornou-se estrutural a partir de 2014, mas o maior ponto de ruptura ocorreu entre 2018 e 2020, quando a dívida diretamente ligada ao clube praticamente dobrou. Em 2024, houve um novo desastre: mesmo com receita recorde, o endividamento aumentou cerca de R$ 600 milhões em apenas um ano.
No final de 2025, a dívida bruta oficialmente divulgada chegou a R$ 2,723 bilhões. Desse total, R$ 642 milhões pertenciam à Arena. Portanto, não existe mais espaço para utilizar o estádio como justificativa para todo o rombo. A maior parte da dívida está no próprio clube: impostos, fornecedores, empréstimos, direitos de imagem, processos judiciais e receitas antecipadas.
O retrato da incompetência fica ainda mais evidente quando se observa o caixa. Em março de 2026, o Corinthians possuía aproximadamente R$ 1,21 bilhão em obrigações de curto prazo e apenas R$ 23,5 milhões disponíveis.
É assim que um clube capaz de movimentar quase R$ 1 bilhão por ano sofre transfer ban por dívidas muito menores. Não falta potencial econômico. Faltam planejamento, responsabilidade e vergonha administrativa.
O Corinthians também passou a depender da venda de jogadores para pagar despesas correntes. Os jovens formados ou valorizados pelo clube deixam de ser parte de um projeto esportivo e passam a funcionar como ativos destinados a cobrir erros dos dirigentes.
O RCE pode organizar aproximadamente R$ 450 milhões em dívidas, mas não resolve o problema tributário, a Arena, os compromissos internacionais nem os novos déficits. Sem redução de despesas, o regime apenas reorganizará a fila dos credores.
A SAF também não pode ser tratada como solução milagrosa. Trocar o formato jurídico sem mudar a governança apenas transferiria a incompetência para uma nova empresa. Por outro lado, se o modelo associativo continuar dominado por grupos políticos incapazes de controlar gastos, uma reestruturação societária poderá tornar-se inevitável.
A torcida fez sua parte. Lotou o estádio, comprou produtos, aderiu ao Fiel Torcedor e manteve o Corinthians entre as maiores marcas do futebol brasileiro.
Quem falhou foram os dirigentes.
Eles transformaram receitas extraordinárias em déficits, anteciparam o futuro, acumularam impostos e comprometeram a competitividade do clube. Enquanto brigam pelo poder, fornecedores, bancos, empresários, clubes e órgãos públicos disputam o dinheiro do Corinthians.
O clube ainda pode ser recuperado. Mas isso exige uma ruptura verdadeira: austeridade, transparência, administração profissional e responsabilização de quem assumir compromissos sem recursos para pagá-los.
Sem essa mudança, presidentes continuarão passando pelo Parque São Jorge, enquanto a conta permanecerá com a torcida.
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