Todos os corintianos sabem e se lembram bem dos principais temas de piadas aos quais fomos submetidos – e como é o caso de muitos outros times essas piadas não necessariamente condizem com a verdade – ser um time sem casa, quando tivemos a ponte grande e temos a fazendinha que tem o tamanho de muito estádio de time grande por aí; levamos cem anos para ganhar um torneio que não tem ainda cem anos e etecetera. Entretanto, assistimos nos últimos tempos estas jocosas imaginações derreterem mesmo aos rígidos critérios dos antis. As piadas mais elaboradas perderam o sentido nos últimos anos e o que sobrou foi somente uma única forma de resistência ao tamanho incontestável do timão: o debate sobre arbitragem.
Após a final do paulista 2018, que ainda não acabou do outro lado, às vésperas de uma Copa do Mundo e com um sorteio de Copa do Brasil que pretende implantar o VAR – vejam vocês que coerência – a partir das quartas de final, considero importante debater de forma clara a questão da arbitragem e a forma como ela se torna um escape de ódio ou de escarnio contra o Corinthians.
Todos sabemos que o Corinthians é o time de maior audiência. Por ter a maior (ou segunda maior torcida do Brasil) e por causar incômodo aos torcedores rivais dos pavilhões das mais variadas cores. Ao registrar uma polêmica com o nome Corinthians ela vai vender mais. E vender mais e mais é a única obsessão da imprensa caro amigo corintiano, portanto, não se iluda quando apresentadores dizem que estão a serviço da informação. Se a desinformação vender mais, esta será eleita para as capas de jornais e chamadas de tevê. Mas não é para este fenômeno tão manjado que quero chamar a atenção.
Outra característica a ser colocada é a falta de respeito que os adversários têm pelo Corinthians. Existe uma premissa, e ela está em todos os campos, de que tudo no Corinthians é inferior. Isto é histórico e se deve ao fato de que o Corinthians é o time do povo, um time de origens humildes e que para muitos nunca deveria ter nascido. Os herdeiros destes antis pensam mesmo e chegam a sonhar com o dia que o Corinthians deixará de existir. Entretanto, não tenham dúvidas torcedores fieis, é justamente essa humildade o motivo de nossa força. Nossa origem humilde nos fez o time do povo. E sendo o povo gigante, seu time só poderia ser gigante. Não esqueçam suas origens nem confundam seus valores. Somos o time formado por operários, acostumado a ganhar o jogo no suor, imitando aquilo que se faz na vida, o time que vê crescer a torcida na fila (torcida essa que é a nossa única característica que os descarados não tem coragem de subestimar), o time da democracia, da volta por cima, o time que cruza o mundo sem esquecer da favela. Mas ainda não é este o fenômeno central deste texto, muito embora seja dele derivado.
Da perspectiva de um time centenário, é recente a criação e proliferação de um apelido (de autoria do comunicador Milton Neves) segundo o qual o Corinthians seria beneficiado pelo apito amigo. Ainda sobre o ódio que as origens e valores corintianos despertam, este discurso caiu como uma luva, deixando de lado como sempre a coerência, chegando a dizer que o Corinthians, time falido, compra juízes. Pois bem, se tratando de um time inferior, que não tem valores, que não tem futebol, não tem (tinha) estádio, nem títulos importantes, ou seja, um time pior do que “o meu”, como explicar o sucesso deste time? Como o “meu time” que é superior perde para o Corinthians? Os antis não se debruçam muito tempo sobre esta questão, pois explicação é simples: o Corinthians nunca vence, mas quando vence é roubado! Devemos, de forma óbvia fiel, desconfiar das respostas simples.
O futebol é maravilhoso porque não sabemos quem vai ganhar ou quem vai perder de antemão. O favoritismo é um mero fetiche e o melhor muitas vezes não vence no futebol. Até uma criança de dez anos percebe isso. E ao assistir futebol ficamos aflitos, porque não sabemos, às vezes até o último minuto, se vamos vencer ou não. O ser humano quando tem suas convicções contestadas procura desculpas para explicá-las. Alguns dizem que o 7x1 da Alemanha em 2014 foi comprado. Então devo dizer que a diferença de saldo de gols na partida só pode ser explicada devido ao fato da CBF não ter troco. Partindo desta nova perspectiva, observo que os antis ao enfrentarem o Corinthians não arrumam desculpas posteriores para as derrotas, mas já vêm para o confronto predispostos a encontrar o erro de arbitragem. E eles encontram o erro de arbitragem, mesmo quando este não está lá. A este fenômeno irei chamar de “febre de apito”.
Em seu livro “O apanhador de sonhos” Stephen King descreve um fenômeno que, segundo um de seus personagens, é o segundo maior causador de acidentes de caça, atrás somente da embriaguez. Trata-se da “febre de olho”. Ela surge da ansiedade gerada numa caçada e leva os caçadores a perceberem após um disparo:
“ (...) que tinham atirado contra um moirão de cerca, um carro que passava ou a borda de um celeiro, ou mesmo um companheiro de caçada (em muitos casos, o companheiro era um cônjuge, um parente ou uma criança). ‘Mas eu vi o gamo’, contestavam, e muitos deles (...) conseguiram passar num teste de detecção de mentiras sobre o assunto. Tinham visto o cervo, o urso ou o lobo, ou apenas o galo silvestre movendo-se aos pulos no capinzal alto do outono. Eles o viam.
O que acontecia (...) era que esses caçadores sofriam de uma ansiedade de fazer o disparo, de acabar com aquilo, de um modo ou de outro. Essa ansiedade se torna tão forte que o cérebro convence os olhos de que veem o que ainda não é visível, com o propósito de pôr fim à tensão. Isso é a febre de olho.”
Querer ver, portanto, torna-se mais importante do que de fato ver. Este fenômeno pode ser transferido para o futebol. Muitas vezes queremos ver uma atuação que nosso time não teve, uma sorte que nosso time não teve, e uma ajuda que o adversário não teve. Os erros de arbitragem ocorrem para todos os lados em todos os jogos, mas por dar mais audiência, e por ser mais odiado esses erros são amplificados quando se trata de Timão, eles reverberam. E eles são apontados, mesmo quando não existem. No caso do Corinthians, muitas vezes se questiona a atuação do juiz, mesmo quando ela foi a correta. Sem nenhum pudor os adversários pedem que o Juiz erre contra o Corinthians e chegam ao cúmulo de chamar de injustiça o acerto a nosso favor. Esta minha pequena provocação tem como objetivo acalmar alguns torcedores que, mesmo sendo corintianos, muitas vezes se deixam levar por notícias e polêmicas forjadas que nada ajudam nosso time. Notem vocês que um erro a favor do Corinthians é relembrado por anos e anos. Alguém aqui tem dúvida que em uma década vão esquecer o primeiro turno brilhante de 2017, mas vão se recordar do gol de mão de Jô contra o Vasco?
Portanto, fiel torcida, nunca se esqueça de estar atento para as notícias, e parem de consumi-las com tanta benevolência, pois este tipo de produto não ajuda a verdade nem a informação, mas tem alimentado um mal, uma verdadeira febre que só tem como propósito difamar o todo poderoso Timão. Vai Corinthians!