Time que inspirou o Corinthians sonha com jogo no Brasil

Atrás de uma larga avenida fica a modesta e escondida sede do Corinthian-Casuals Football Club, um time amador, que não paga salários e joga numa espécie de sexta divisão do futebol da Inglaterra. É...
Foto de um jogo do Corinthian-Casuals Football

Foto de um jogo do Corinthian-Casuals Football

O marceneiro Kane Sergeant, 24 anos, é volante e capitão do Corinthian. É ele quem serve água aos colegas. O pedreiro Brian Adamson é uma espécie de "manager". Carrega as bolas, os cones, comanda o treinamento e escala o time em dia de jogos. O treino, longe do Parque São Jorge, é num jardim público de Tolworth, pequeno distrito a uma hora e meia de Londres.

Atrás de uma larga avenida fica a modesta e escondida sede do Corinthian-Casuals Football Club, um time amador, que não paga salários e joga numa espécie de sexta divisão do futebol da Inglaterra. É o "Corinthians inglês", como dizem os corintianos no Brasil.

O Estado visitou o treinamento do clube que, 100 anos atrás, era uma superpotência do futebol da Inglaterra, inspirando a criação do Sport Club Corinthians Paulista após uma visita de dez dias ao Brasil, em 1910. O saldo, naquele tour, não poderia ter sido melhor: seis jogos, seis vitórias e 38 gols - dez desses gols contra um único time, o Fluminense.

Os ingleses foram embora sem noção do que haviam deixado para trás.

Entusiasmados com o que viram na arquibancada do Velódromo em São Paulo, em 31 de agosto de 1910, jovens operários do Bom Retiro decidiram criar um time de futebol no dia 1.º de setembro e homenagear os ingleses. Cogitaram chamá-lo de Santos Dumont ou Carlos Gomes, mas deram ao novo clube o mesmo nome do esquadrão inglês. Sonhavam em um dia chegar perto do que viram ali. Nascia, sob a luz do lampião, o Corinthians Paulista.

Aqueles operários só não sabiam que, um século depois, criador e criatura trocariam de papéis: enquanto o Corinthians "brasileiro" comemora seu centenário em 2010 com 25 milhões de torcedores e uma história de glórias, o Corinthians inglês virou um clube pobre e, por ironia do destino, formado por operários.

A relação histórica entre os dois Corinthians é nítida para quem chega ao clube inglês: no pequeno salão de festas, destaca-se um troféu que o time de Londres recebeu da Federação Paulista quando fez um amistoso festivo com o coirmão brasileiro, em 1988, no Pacaembu. No site oficial do clube, os ingleses destacam a fundação do time paulista, a quem chamam de "primeiro" campeão do Mundial de Clubes da Fifa, em 2000.

Sem uniforme. Tem de tudo no treino do time inglês: marceneiro, pedreiro, professor, estudante, garçom, especialista em computador, dono de loja. Não há uniforme nos treinamentos, realizados às terças-feiras e sábados. Prevalecem camisas de times ingleses, como Chelsea e Arsenal. O preto e branco passa longe da camisa oficial. Não há preocupação com estilo: a cor é salmão e marrom, e o calção, azul marinho.

Por amor. Aos 128 anos, o clube, que fundiu-se ao time Casuals em 1939, sobrevive da contribuição de antigos sócios e do aluguel do seu salão de festas, colado ao campo "Arena Rei George". O "manager" explica a decadência do Corinthians inglês: "Há 100 anos, Manchester, Arsenal e Corinthians eram amadores e estavam no mesmo nível. Depois, eles passaram a pagar aos jogadores. Mas nós, não. Quem não pagou não cresceu. Jogamos por amor ao futebol".

O time inglês não esconde que gostaria muito de participar das celebrações do centenário do Corinthians. Chegou a acertar a realização de um amistoso no Brasil no primeiro semestre, mas desistiu da empreitada por falta de patrocínio. Agora, faz um último apelo à diretoria da equipe paulista. "Se pagarem o voo e hospedagem, nós vamos a qualquer momento. Paramos tudo e vamos", diz Brian Adamson.

Fonte: Estadão

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