Caso VaideBet: denúncia anônima foi fundamental para conclusão do inquérito policial
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Por Victor Godoy
A Polícia Civil recebeu uma carta anônima que fez uma série de denúncias
Jozzu/Agência Corinthians
Na última segunda-feira, a Polícia Civil concluiu definitivamente o inquérito do caso de VaideBet. Para além dos cinco indiciamentos, o documento esmiuçou a operação para a suposta lavagem de dinheiro e, nesse movimento, trouxe um fato inédito: em dezembro de 2024, a polícia recebeu uma denúncia anônima que delatou diversas situações que foi fundamental para a conclusão das investigações.
"No transcurso do presente Inquérito Policial, houve o encaminhamento de denúncia anônima à sede do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), posteriormente retransmitida a esta Unidade, aqui aportando em 12.12.2024", diz o documento que o Meu Timão teve acesso. Por ser um arquivo sem identidade, a polícia ressaltou que "ressalvas foram levadas em conta".
O denunciante anônimo alegou que Augusto Melo teria acumulado uma série de dívidas durante as campanhas presidenciais de 2020, na qual foi derrotado por Duilio Monteiro Alves, e de 2023, quando saiu vencedor. Para quitar esses débitos, ele teria aberto as portas do Corinthians para determinados indivíduos - contexto no qual se insere o caso VaideBet. Segundo a denúncia, o presidente afastado deveria para:
- Empresários de jogadores da base;
- O influenciador Buzeira, que tem o nome bastante citado no decorrer do inquérito;
- Roberto Graziano, empresário dono da Magnum Indústria da Amazônia e do São Bernardo;
- Laboratório EMS;
- Um doleiro do Tatuapé;
- Uma parceria com o Água Santa e o PCC, "cuja ponte seria feita por Marcos Boccatto, presidente de honra do Clube e ocupante de cargo no SCCP";
- Um agiota, que, inclusive, "estaria no encalço de Augusto, ameaçando matá-lo caso não pagasse o débito".
A situação, segundo a denúncia, estaria tão grave que Augusto Melo vinha sendo cobrado por alguns desses indivíduos e que até estaria andando com colete à prova de balas. O inquérito inclui parte do texto enviado. Confira:
"Aos responsáveis da investigação SCCP
Não posso me identificar por risco de vida, mas quero ajudar vocês para entenderem algumas coisas que aconteceram nos últimos anos. Desde os tempos da campanha eleitoral, tanto a de 2020 que terminou em segundo, como a de 2023 que ganhou a campanha, Augusto Melo recebe muita doação. Tem empresários de jogadores de base que querem ter mais espaço nas categorias de base, como o Marino (Rosa) e esse monte de MC, como Buzeira, que lava dinheiro do CO (Crime Organizado) fazendo rifa online e é recebido pelo Augusto e pela direção da Gaviões (da Fiel, torcida organizada). Tem também empresário que enfiou milhões, como Roberto, da Magnum, que já atua também no futebol do São Bernardo. Outro é daquele laboratório EMS, acho que fica em Campinas. Tem também um doleiro do Tatuapé que fica zanzando ali perto do bar do Augusto e agitou uma grana para ele na campanha.
Tem também um esquema muito conhecido em Diadema como o Água Santa que todo mundo que é do futebol sabe que é comandado pelo PCC. O ponto em Diadema é o Marcos Boccatto. Essa pessoa é presidente de honra do Água Santa e tem um cargo na diretoria do Timão (superintendente de novos negócios).
Esse Roberto já foi para cima do Augusto em um restaurante para cobrar a dívida. E essas dívidas o Augusto só consegue pagar se está como presidente, pois precisa dar espaço na administração para essa gente operar dentro do clube. Agora está milionário. Agora ele tem que pagar tudo o que recebeu nas duas campanhas e, se não pagar, já sabe como os caras fazem. O Augusto está usando colete (a prova de balas) porque um agiota da zona leste diz que vai matar se ele não pagar o que pegou."
No inquérito, a Polícia Civil afirma que o documento enviado está alinhado com diversas provas já coletadas, além do depoimento de Rubens Gomes, o Rubão, considerado relevante por ter sido braço direito de Augusto Melo na última eleição. Segundo o ex-diretor de futebol, a campanha de 2023 do presidente afastado teria custado cerca de R$ 3 milhões.
Pouco após a denúncia anônima, a Polícia Civil também teve acesso a extratos do Banco Safra, que deram força ao texto: "Reiterando: o primeiro depoimento de Rubens ocorreu em 08.08.24, enquanto que a aludida delação apócrifa (denúncia anônima) foi recebida nesta Delegacia em 12.12.24. Só efetivamente tomamos ciência de que os valores furtados do Corinthians haviam desaguado na UJ Football quando o Banco Safra, em 15.01.2025, remeteu os extratos. Noutras palavras, o Inquérito Policial, antes dessa data, já possuía em seu bojo indícios apontando que o dinheiro (da intermediação da VaideBet) poderia ter ido parar em contas ligadas a pessoas a quem Augusto devia, fossem agências de jogadores, fosse o crime organizado (ou ambos numa só figura, como parece ser o caso da UJ)."
Vale lembrar que Rubão foi ouvido pela Polícia Civil como testemunha, assim como Rozallah Santoro (ex-diretor financeiro) e outros funcionários do Corinthians. As oitivas fundamentais, porém, foram as dos indiciados, principalmente pelas diversas contradições apresentadas.
Augusto Melo (presidente afastado do Corinthians), Marcelo Mariano (ex-diretor administrativo), Sergio Moura (ex-superintendente de marketing) e Alex Cassundé (dono da Rede Social Media Design) foram indiciados por associação criminosa, lavagem de dinheiro e furto qualificado. Já Yun Ki Lee (ex-diretor jurídico) foi indiciado por omissão imprópria.
