Gil relembra classificações dramáticas e convívio com dores em segunda passagem pelo Corinthians
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Por Matheus Fiuza, Matheus Quintino e Vitor Chicarolli
O ex-zagueiro Gil viveu momentos inusitados em sua segunda passagem pelo Corinthians. Em entrevista exclusiva ao Meu Timão, ele relembrou duas classificações dramáticas contra argentinos em competições sul-americanas: Boca Juniors, em 2022, e Estudiantes, em 2023.
A primeira ocorreu na Bombonera, com dois empates e disputa por pênaltis em Buenos Aires nas oitavas de final da Libertadores. O zagueiro, que retornava de lesão, não tinha a pretensão de entrar em campo, mas precisou aparecer nos minutos finais devido a um problema físico de João Victor. Gil destacou o contexto repleto de jovens em campo e a pressão exercida pelo Boca ao longo do jogo.
“A gente não esperava nunca que ia passar. Eu voltei naquele jogo de lesão também. O João Victor machuca. Era para eu voltar com três semanas, eu voltei com duas. Tanto é que eu entro no jogo mancando, praticamente. Estava fazendo força. Na hora em que o doutor fez assim, velho, p*ta que pariu. Eu lembro que o Willian estava no banco, ele estava com a tipoia assim, ele me olhou assim. Eu fiz assim para o Willian, eu falei, 'p*ta que pariu'. Minha perna assim, mais dura, travada. Eu lembro que estava aqui a posterior, 'calombão' desse tamanho", iniciou.
Antes da viagem, o ex-zagueiro contou um bastidor durante a preparação em que Luciano Rosa, ex-massagista do Timão, sugeriu que o jogador fizesse uma ativação na coxa, local da lesão. Gil relutou em um primeiro momento por acreditar que não seria utilizado, mas percebeu que seria necessário ao ver as dores sentidas por João Victor nos minutos finais e ser acionado por Vítor Pereira.
"Só que no dia anterior, o Luciano, na época, o massagista, falou assim para mim: 'Vou te falar um negócio. Você sabe como é que é o futebol. Eu não preciso nem falar isso para você. Você voltou a treinar agora, você estava machucado. Eram três semanas, você voltou com duas, beleza. Você quer fazer uma massagem antes do jogo para soltar? Você pode entrar no jogo'. Ele falou assim para mim ainda. Eu lembro até agora. Ele falou assim para mim: você pode entrar no jogo. Eu falei: 'Para, Luciano, eu não vou entrar no jogo. João Victor, estão os moleques tudinho aí. Eu não vou, estou voltando de lesão agora. Como é que eu vou?' Ele falou: 'Faz uma massagem, solta essa perna sua, que você vai entrar no jogo'. Ele falou assim para mim ainda. Concordei", comentou.
"Passou o dia. Sabia que todo mundo ia jogar. Até quando o João Victor, duas vezes o João Vitor. Ele caiu primeiro, eu falei: 'Moleque, vou matar ele'. Bombonera agora, ele vai machucar. Ele está de brincadeira com a minha cara. Então, eu no banco, quietinho. Ele caiu, o Vitor (Pereira) pediu alguém para aquecer. Acho que o Bruno Méndez para aquecer. Aí eu falei, 'caraca, o João Victor caiu de novo. Acho que faltaram uns cinco minutos para acabar o jogo, eu acho. Aí o Vitor (Pereira), 'Gil, vai'. Eu falei, 'vambora', fazer o quê? Paciência. E o jogo foi daquele jeito", completou Gil.
O Corinthians entrou em campo com cinco jogadores formados na base, incluindo a dupla de zaga titular (João Victor e Raul Gustavo). O Timão pouco criou e sofreu com a intensidade adversária, que chegou a desperdiçar um pênalti no tempo regulamentar. Com o empate no placar agregado, a decisão foi para a marca da cal. O zagueiro precisou pedir uma dica para o atacante Róger Guedes para vencer o goleiro Rossi, hoje no Flamengo.
"A gente não passava do meio de campo. O Guedes era o nosso volante. O nosso primeiro volante era o Guedes. (Lucas) Piton, Bruno Méndez e Bruno Melo. Raul Gustavo, acho que o Robson Bambu, eu, Bruno Méndez, Roni, só defensores. E o Guedes era o cara do nosso círculo do meio de campo. Eu lembro que eu falei assim para o Guedes: 'Esse goleiro vai para aquele lado?' Ele falou que, do lado direito dele, ele vai em todas. Ele vai em todos do lado direito dele, o goleiro, que era o Rossi. Bate um, bate outro, bate mais um. Um perde. Falei: 'Alemão, você está de brincadeira. Você vai matar a gente do coração. Fábio Santos, eu já sabia. Fábio está na faixa. Isso é ótimo. Aí, Bruno Melo bateu e perdeu. Raul Gustavo bateu e perdeu. Na hora da minha vez, eu falei: p*ta que pariu! Eu não treinei. A gente treina no CT na terça, né? Nós treinamos aqui na terça e viajamos. Eu não treinei. Eu estava voltando de lesão. Eu treinei normal. Treinei lá com o time reserva, tudo bem. Mas levantar no jogo, nada, cara. Estou machucado, ainda mais para bater um pênalti. Acabou o treino, eu saí, fui lá para a fisioterapia. Fiquei lá na fisio, fazendo as minhas coisas. A gente conseguiu passar, não sei como. A gente conseguiu passar do Boca”, relembrou.
Apesar dos erros de Raul Gustavo e Bruno Melo, Gil decretou a classificação corinthiana para as quartas de final da Libertadores. Ele aproveitou a ocasião para contar que o desejo era tirar sarro com Raul Gustavo, que desperdiçou a penalidade, mas frisou a resiliência alvinegra para eliminar o gigante argentino.
“Vou te falar, eu só lembrava de zoar o Raul (Gustavo). Porque o Raul estava todo cagado. Ele perdia o pênalti. Eu falei: 'Cara, vou zoar muito ele. Ele está enrolado comigo'. A gente não esperava. A gente tomou, na verdade, foi um amasso. Terminou o jogo com seis, sete defensores. A gente vai pegar, tinham seis, sete defensores ali. Tinha uma molecada, mas o Du Queiroz, o Gustavo, Piton, Giovane, (Gustavo), Mantuan, tinha uma molecada".
Roteiro de dores semelhante contra o Estudiantes
No ano seguinte, o Corinthians precisou dos pênaltis para eliminar o Estudiantes, após perder no tempo normal por 1 a 0 e receber quatro bolas na trave ao longo dos 90 minutos. O zagueiro, porém, também conviveu com problemas físicos, ao dividir com o centroavante Guido Carrillo e lidar com dores no pé em mais da metade da partida.
“A história desse jogo também é legal. Eu joguei machucado esse jogo desde os 20 do primeiro tempo. O cara pisou no meu pé, meu pé inchou desse tamanho, aos 20 do primeiro tempo. Aquele atacante, um grandão que tinha lá do Estudiantes. Eu fui subir com ele na bola, eu pisei aqui. Quando ele sobe comigo, eu piso primeiro e ele cai por cima. Eu vim caminhando, a Camila (Morano, fisioterapeuta), fez e falou assim: 'Pelo amor de Deus, nem tira sua chuteira. Se tu tirar a chuteira, você não volta'. Falei para dar a injeção. No intervalo, eu não tirei a chuteira. Geralmente, a gente chega lá, tira a chuteira, baixa o meião. Ela falou: 'Não faz nada, só fica com o pé assim'. Voltei para o jogo mancando. Depois do jogo também. Não conseguia pisar. É, daquele jeito lá. Aquele jogo, aquela pressão danada que nós tomamos lá. Depois do jogo, para me tirar isso aqui, meu pé ficava doendo”, falou Gil.
“Meu pé estava desse tamanho. E eu não treinava mais, não conseguia treinar. Não conseguia treinar. Fui treinar um dia e o Cássio falou para mim: 'Lá que você é teimoso, você não está conseguindo andar direito. Olha o tamanho do teu pé'. Absurdo de inchado. Aí o Luxemburgo falou: "Não, não, pode cair dentro." Tanto é que jogava, tinha eu, Veríssimo, se eu não me engano, Murillo e o Bruno Méndez. Eu acho que o Bruno Méndez não estava jogando. O Veríssimo estava com o joelho baleado também. Eu com o tornozelo. O Luxemburgo falava que tinha que escolher quem está menos pior para poder jogar. Era assim", completou.
As dores continuaram nos jogos seguintes. O zagueiro foi titular diante de Palmeiras (empate por 0 a 0) e Fortaleza (derrota por 2 a 1), mas seguia atuando com dores no pé e à base de injeção. Ele ainda revelou que chegou a tomar corticoides em meio à rotina de jogos na temporada.
"A gente foi jogar contra o Fortaleza lá, ele entrou no meu quarto e falou assim: 'Negão, o Veríssimo está ruim, mas eu vou falar para o chefe, você está pior do que ele, olha o tamanho do seu pé. Deixa o Veríssimo jogar esse jogo'. A gente joga contra o Palmeiras, que a gente empata 0 a 0, meu pé está inchado ainda. Eu só jogava à base de injeção. Eu tomei porque eu não estava conseguindo. Normal não é. Depois eu viciei em injeção, só tomava injeção direto. Até desinchar, processo para desinchar, não treinava direito. Não conseguia treinar, só ia para o jogo. Não conseguia, não conseguia. Meu pé estava assim, eu não conseguia calçar nada. Tanto é que, depois do jogo do Palmeiras, a gente teve folga, eu fui para o Rio, eu tomei corticoide, eu passei mal. Deu crise de soluço por causa do corticoide, de tanta injeção e corticoide que tomei, ficava assim”, relembrou Gil.
No fim de setembro, Gil garantiu a vitória do Corinthians sobre o Botafogo, em Itaquera. Em meio às dores no pé, o ex-zagueiro do Timão utilizou a oportunidade para brincar com Lucas Freitas, então fisioterapeuta da equipe, que o chamava de pitbull pelo inchaço na região.
“Tanto é que o gol, quando eu faço com o Botafogo, eu vou para zoar o Lucas, fisioterapeuta, que ele ficava mexendo comigo, me chamando de pitbull porque meu pé estava inchado. Eu fiz o gol e mostrei para ele. Eu falei que meu pé estava inchado, que ele jogou com o Botafogo ainda, que eu chutei aquela bola. Eu cabeceei e depois eu chutei. Ali, meu pé estava inchadaço ainda. Muito inchado o meu pé. E eu jogava, eu tinha que colocar uma proteção, espuma, para poder não ter impacto na bola. Só isso, para poder aguentar a dor e a injeção", disse.
Retorno em 2019
O zagueiro se tornou o segundo da posição com mais jogos pelo clube por conta das duas passagens. Após o período entre 2013 e 2016, Gil rumou para o futebol chinês, defendendo as cores do Shandong Luneng. Três anos depois, ele retornou ao Parque São Jorge, cujos planos já estavam formulados para defender o Timão mais uma vez.
“Eu já estava com isso na cabeça. No final de 2018, quando acaba a temporada lá, a gente acabou de perder o título da Copa da China para o time do Renato Augusto até, mas já estava com isso na minha cabeça de ficar perto dos meus filhos e tudo. Meus filhos estavam na escola, principalmente o Gilzinho, que é o mais velho. Eu estava querendo ficar perto deles também. Eu tive outras propostas, mas eu decidi o Corinthians porque estou em casa, no clube em que eu me sinto em casa e perto dos meus filhos também”, afirmou.
Logo no ano de retorno, Gil viveu uma eliminação dolorosa para o Independiente del Valle, do Equador, nas semifinais da Sul-Americana, com derrota na ida por 2 a 0 na Neo Química Arena. Ele relembrou um gol contra que foi anulado, que evitou o prejuízo maior, e a reação insuficiente em solo equatoriano.
“Acho que o Corinthians perde aqui (a ida). Perde aqui. 2 a 0 lá. Era para ser mais. Até eu fiz gol contra, eu falei para o VAR: ‘Me ajuda agora, por favor’. O cara estava impedido, no começo da jogada. Aqui nós tomamos um baile. Um dos maiores. E quase que lá que a gente consegue ainda. Teve uma bola no travessão até. Quase que a gente conseguiu passar lá ainda”, explicou.
Gil encerrou os oito anos de clube com 444 jogos, 19 gols e três títulos: Paulistão e Recopa, em 2013, e Brasileirão de 2015.