Presidente do Conselho responde proposta da SAFiel de quitar transfer ban do Corinthians
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Por Marina Borges e Rodrigo Vessoni

Romeu Tuma Júnior aponta contradições e freia proposta da SAFiel para quitar dívida do Corinthians
Rodrigo Vessoni / Meu Timão
O presidente do Conselho Deliberativo do Corinthians, Romeu Tuma Júnior, respondeu oficialmente à proposta enviada pela SAFiel para quitar o transfer ban imposto ao clube e avançar na discussão sobre a transformação do futebol alvinegro em uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF). O Meu Timão teve acesso ao e-mail de resposta do dirigente. A negativa, por sua vez, foi noticiada em primeira mão pela Central do Timão.
Em ofício encaminhado nesta semana, Tuma apontou contradições internas e indefinições no documento, afirmando que, neste momento, não há condições para qualquer deliberação do Conselho. Na resposta, o presidente destacou que, após uma análise técnica preliminar, o documento apresenta inconsistências que impedem uma avaliação responsável, sobretudo diante da complexidade institucional, jurídica e financeira que envolve uma eventual SAF no Corinthians.
"Após análise técnica preliminar do documento, reputo necessário registrar algumas inconsistências e contradições internas que impedem, neste momento, qualquer deliberação por parte deste Conselho Deliberativo, especialmente considerando a complexidade institucional, jurídica e financeira envolvida em eventual constituição de Sociedade Anônima do Futebol vinculada ao Sport Club Corinthians Paulista", escreveu Romeu Tuma Júnior.
A proposta da SAFiel previa um aporte antecipado para resolver duas pendências centrais do Corinthians: a dívida com o Santos Laguna, do México, referente à contratação de Félix Torres — responsável pelo transfer ban aplicado pela Fifa — e o financiamento da Neo Química Arena junto à Caixa Econômica Federal. Em caso de aprovação futura da SAF, o valor seria convertido em ações; caso contrário, o clube teria de devolver o montante aos investidores.
Contradições sobre “aporte imediato” e exigências prévias
Um dos principais pontos levantados pelo presidente do Conselho é a contradição entre a promessa de um aporte imediato e as condicionantes previstas pela própria SAFiel. Segundo Tuma, o documento condiciona o repasse dos recursos à conclusão de auditorias e à aprovação prévia da SAF pelos órgãos do clube, o que, na prática, esvazia a noção de imediatidade apresentada na proposta.
“O item 4 da Carta sustenta a necessidade de aportes imediatos para viabilizar o funcionamento regular da instituição. Contudo, o item 4.2 condiciona o suposto aporte à conclusão de auditoria e à aprovação prévia da SAFIEL pelos órgãos competentes do SCCP”, escreveu.
Ausência de base estatutária para aprovar uma SAF
Tuma também apontou como problemático o fato de se falar em aprovação de uma SAF sem que elementos essenciais, como valuation do clube — processo de determinar seu valor econômico justo —, estejam previamente definidos. Para o dirigente, isso representa uma inversão lógica incompatível com qualquer decisão válida dos órgãos estatutários.
Além disso, Tuma ressaltou que o Corinthians ainda não possui, em seu estatuto, um rito específico que regulamente a criação de uma SAF, com definição de competências e quóruns. Essa lacuna, segundo o presidente, foi reconhecida publicamente na audiência realizada em dezembro de 2025, quando a própria SAFiel apresentou uma proposta de reforma estatutária, que segue sob análise do Conselho Deliberativo.
Indefinições jurídicas e transferência de riscos ao clube
Romeu Tuma Júnior também apontou problemas na estrutura jurídica da proposta, ressaltando que pontos centrais são remetidos a documentos futuros, ainda inexistentes. “Tal estrutura transfere o núcleo econômico da proposta para instrumentos ainda inexistentes, o que compromete a segurança jurídica mínima exigível”, registrou.
Além disso, o dirigente alertou para uma assimetria entre os riscos assumidos pelo Corinthians e as obrigações efetivas da proponente. “A proposta, tal como redigida, parece projetar efeitos econômicos e patrimoniais relevantes ao SCCP em momento anterior à consolidação de obrigações firmes”, escreveu.
Possível criação de grupo interno para debater SAF
Apesar das críticas, Romeu Tuma Júnior afirmou que o tema SAF segue em pauta e merece ser tratado com seriedade, aprofundamento técnico e clareza conceitual. No ofício, ele informou que avalia a criação de um grupo interno no âmbito do Conselho Deliberativo para discutir modelos de SAF, consequências institucionais e impactos das recentes alterações tributárias:
“Estou avaliando a possibilidade da criação de um grupo no âmbito interno do Conselho Deliberativo, com a participação de diversos atores inclusive especialistas, para discussão sobre o tema SAF, seus diversos modelos, consequências e implicações”, concluiu.
A manifestação ocorre em meio ao debate crescente sobre o futuro financeiro do Corinthians. A SAFiel defende que o aporte antecipado seria uma forma de ajudar o clube a superar entraves imediatos, como o transfer ban e a dívida da Arena, enquanto o projeto de SAF avançaria pelas etapas formais. Do outro lado, o Conselho Deliberativo sinaliza que qualquer avanço dependerá de bases estatutárias, jurídicas e econômicas mais sólidas antes de uma decisão dessa envergadura.
Veja a resposta de Romeu Tuma Júnior na íntegra
"Prezados Senhores,
Acuso o recebimento da correspondência datada de 06 de janeiro de 2026, referente ao Aditamento à Carta de Intenções Não Vinculante relacionada ao denominado Projeto SAFIEL.
Após análise técnica preliminar do documento, reputo necessário registrar algumas inconsistências e contradições internas que impedem, neste momento, qualquer deliberação por parte deste Conselho Deliberativo, especialmente considerando a complexidade institucional, jurídica e financeira envolvida em eventual constituição de Sociedade Anônima do Futebol vinculada ao Sport Club Corinthians Paulista.
Em especial, chamam atenção os seguintes pontos:
1. Contradição entre a noção de “aporte imediato” (item 4) e as condicionantes do item 4.2:
O item 4 da Carta sustenta a necessidade de aportes imediatos para viabilizar o funcionamento regular da instituição. Contudo, o item 4.2 condiciona o suposto aporte à (i) conclusão de auditoria sem riscos obstrutivos e, sobretudo, à (ii) aprovação prévia da SAFIEL pelos órgãos competentes do SCCP.
Trata-se de condicionante que, na prática, esvazia a própria ideia de imediatidade, uma vez que tanto a conclusão de auditoria quanto a aprovação pelos órgãos estatutários são, por definição, processos complexos, técnicos e sequenciais, que demandam tempo, acesso a informações, análises aprofundadas e deliberações colegiadas, não se compatibilizando com a noção de aporte imediato tal como sugerida no item 4 da Carta.
Mais grave ainda, a referência genérica à “aprovação da SAFIEL”, tal como formulada no Memorando, que impõe a vinculação da maioria das ações da futura sociedade aos investidores, sem que estejam previamente definidos elementos essenciais como valuation do Clube.
Trata-se de uma inversão lógica incompatível com qualquer deliberação válida e responsável por parte dos órgãos do Clube.
Registre-se, ademais, que não há, até o presente momento, previsão estatutária específica disciplinando o rito, as competências e os quóruns para aprovação de eventual constituição de SAF no âmbito do SCCP.
Tal lacuna foi expressamente reconhecida na Audiência Pública realizada em 08 de dezembro de 2025, ocasião em que a própria SAFIEL apresentou proposta de reforma estatutária com o objetivo de incluir o referido rito, a qual se encontra atualmente sob exame do Conselho Deliberativo.
Dessa forma, a exigência de aprovação prévia da SAFIEL, nos termos colocados, revela-se não apenas contraditória, mas juridicamente prematura, por carecer de base estatutária, de objeto determinado e de condições mínimas para uma aprovação responsável e legítima.
2. Indefinição material dos instrumentos jurídicos essenciais:
Os itens 4.1, 4.2 e 4.3 remetem a documentos futuros para definição de prazos, garantias, termos e condições. Tal estrutura transfere o núcleo econômico da proposta para instrumentos ainda inexistentes, o que compromete a segurança jurídica mínima exigível, especialmente diante da natureza não vinculante da Carta e do lapso temporal por ela mesma delimitado, qual seja, 26 de janeiro de 2026.
3. Assimetria entre riscos imediatos ao Clube e obrigações diferidas do proponente:
A proposta, tal como redigida, parece projetar efeitos econômicos e patrimoniais relevantes ao SCCP em momento anterior à consolidação de obrigações firmes, claras e equivalentes por parte da proponente, o que impõe cautela redobrada sob a ótica jurídica, do dever fiduciário e da proteção institucional do Clube.
Feito esse registro, é importante consignar que o tema SAF exige seriedade, aprofundamento técnico e absoluta clareza conceitual. Construções retóricas ambíguas, sobreposição de condicionantes ou aparentes soluções imediatas que se desfazem sob leitura sistemática não podem servir como método legítimo de negociação em matéria dessa magnitude.
O Sport Club Corinthians Paulista lida com patrimônio histórico, institucional e financeiro de extrema relevância, razão pela qual qualquer diálogo sobre reestruturação societária deve se apoiar em premissas objetivas, coerentes e juridicamente sustentáveis.
Permanecemos à disposição para esclarecimentos adicionais, desde que inseridos em um ambiente de debate técnico, transparente e compatível com a responsabilidade que o tema impõe.
Não obstante, informo que estou avaliando a possibilidade da criação de um grupo no âmbito interno do Conselho Deliberativo, com a participação de diversos atores inclusive especialistas, para discussão sobre o tema SAF, seus diversos modelos, consequências e implicações frente as novas alterações tributárias.
Atenciosamente,
Romeu Tuma Júnior, Presidente do Conselho Deliberativo."
Veja a resposta da SAFiel
"Atualização à Fiel Torcida
Ao longo do dia, recebemos muitas mensagens de corinthianos preocupados com o futuro do nosso clube. Queremos tranquilizar a todos.
Informamos que a SAFiel já enviou seu posicionamento oficial aos questionamentos técnicos feitos pelo Conselho Deliberativo do SCCP.
Recebemos a solicitação com naturalidade e prestamos todos os esclarecimentos necessários com a seriedade que o tema exige, especialmente sobre a proposta de antecipação de investimentos para resolver o Transfer Ban e quitar a Arena.
Nosso foco é a construção conjunta.
Seguiremos à disposição e confiantes na parceria com o Parque São Jorge. O objetivo segue o mesmo: um Corinthians moderno, democrático e forte, viabilizado sempre de forma responsável e transparente".