Ricardo Felippi
Perfeito
em Bate-Papo da Torcida > Crônica/reflexão: desesperança corinthiana - até quando?
Em resposta ao tópico:
Recentemente revi um filme que gosto muito. Relatos Selvagens (2014). É argentino, premiado.
São seis histórias de vingança vividas por personagens que são confrontados com situações que os deixam à beira de perder o controle. É o que diz a sinopse. É o que o filme entrega.
E não teve jeito. Um dos contos me fez refletir sobre a situação do nosso tão amado Corinthians. São paralelos inevitáveis. É sobre isso que escrevo.
Em um dos contos, Simón Fisher, um engenheiro especializado em implosões, estoura no trânsito depois de uma sequência de injustiças, que começa com o seu carro sendo erroneamente guinchado. Simón é como um de nós. Exasperado pelo sistema, pelo descaso, pela impunidade... Explode.
Troque o guincho por uma diretoria perdida. Troque o carro levado por uma camisa arrancada do peito. O sentido pode ser figurado, mas o torcedor entende o significado. E principalmente o peso. O sentimento é o mesmo: um homem comum, empurrado lentamente para o limite.
Nós, torcedores, olhamos ao redor e não reconhecemos mais o time que aprendemos a amar. Dívidas viraram rotina, promessas soam como deboche. A esperança vem sempre com um asterisco... Ou com vários. Entre impeachments, escândalos policiais e ultimatos, o clube parece viver num teatro de absurdos: empresários mandam mais que presidentes, e a Fiel paga a conta em silêncio. Até quando?
Como Fisher, o torcedor acorda cedo, trabalha, sonha. E engole a raiva. Mas todo relógio de pressão (afinal é rival empilhando títulos e a gente vivendo de passado) tem um estouro anunciado. No filme, a explosão é literal. Na arquibancada, ou no sofá de casa, é tristeza, desesperança, apatia. Uma bomba emocional que não busca só justiça, mas age, principalmente, como desabafo. E o mais trágico: não explode contra rivais, mas contra si mesma.
'Bombita', título do conto de Relatos Selvagens, é um grito abafado de quem cansou. O torcedor corinthiano vive hoje essa mesma curva: do amor ao desespero, da esperança ao sarcasmo.
E a cada dia, mais um se pergunta: quantos guinchos a alma aguenta antes de perder de vez a razão?
Até quando?