Amadeu Pinheiro
Neto se diz ídolo do Corinthians e do Guarani também mas nunca me representou. A proposta de virar SAF é muito interessante pois propõe solução financeira a curto prazo e resultados no campo a médio prazo. Então qual o porque dessa resistência a proposta? Qual a sugestão?, pois sem uma ação imediata não vejo luz no fim do túnel para o nosso Timão.
em Bate-Papo da Torcida > Falsos ídolos
Em resposta ao tópico:
O ídolo, em sua origem, é um espelho do sagrado. É a imagem em que projetamos a força que nos falta, o poder que desejamos e a esperança de transcendência. Mas, quando o espelho se quebra, o reflexo se multiplica em fragmentos — cada um deles ainda brilhando, mas incapaz de refletir o todo. É o que acontece quando uma coletividade confunde a figura com o sentido, o rosto com o rito, a pessoa com o princípio. No Corinthians de hoje, essa confusão é o retrato mais cruel da nossa crise.
Durante décadas, o clube construiu — e foi construído por — ídolos que representavam mais do que técnica ou glória. Eles simbolizavam resistência popular, luta contra as elites, superação da miséria, fé coletiva. Mas, ao longo do tempo, a idolatria perdeu sua função simbólica e ganhou função narcísica. O ídolo deixou de ser o porta-voz de um povo e passou a ser o guardião do próprio pedestal. E assim, diante do colapso institucional e moral do clube, muitos desses antigos heróis se calaram ou se tornaram cúmplices da inércia — alguns, inclusive, rejeitando o único projeto que tenta manter o Corinthians vivo.
É curioso — e trágico — como a psicologia social explica o apego a figuras carismáticas, mesmo quando elas já não representam o grupo. O ídolo, quando elevado à condição de mito, passa a funcionar como um dispositivo de estabilidade emocional: protege o coletivo do caos. Admitir que o ídolo errou é admitir que o espelho se quebrou, que o ideal também é falho. E isso, para uma torcida construída sobre a fé e o sofrimento, é quase uma heresia.
Os falsos ídolos surgem nesse vácuo — quando a veneração se torna anestesia. São eles que falam em amor ao clube, mas defendem o imobilismo que o mata; que dizem preservar a história, mas vivem de sua própria versão dela; que acusam o novo de ameaça, enquanto se alimentam da ruína que ajudaram a criar. Repetem que “o Corinthians é o povo”, mas não ouvem mais o povo — apenas o eco do próprio nome nos corredores da memória.
Do ponto de vista simbólico, o que o Corinthians vive é um processo de desmitificação doloroso. O clube que nasceu para ser resistência tornou-se vítima de sua própria mitologia. O discurso da “tradição” virou muleta ideológica para justificar incompetência, vaidade e desgoverno. A fé que antes movia multidões agora sustenta estruturas apodrecidas. É um luto coletivo: o luto pelo que o Corinthians foi e pelo que ainda poderia ser.
Mas todo luto, se elaborado, pode ser também renascimento. O projeto SAFiel, com todos os seus riscos e desafios, representa mais do que uma reforma administrativa — é um gesto simbólico de ruptura. Não se trata de entregar o clube, mas de devolver-lhe o ar, a transparência, o sentido de futuro. Rejeitar isso sem propor nada é trair o próprio espírito corinthiano: aquele que nunca se conformou com o destino.
A psique coletiva precisa, às vezes, destruir seus ídolos para voltar a crer em si mesma. E talvez seja isso o que o momento exige: não mais olhar para o rosto dos heróis do passado, mas para o espelho trincado do presente — e reconhecer que ainda há vida ali, mesmo entre os estilhaços.
Porque o Corinthians não é um homem, nem um craque, nem um nome em um busto. O Corinthians é a multidão que resiste.
E, se ídolos precisam ser apagados para que o Corinthians respire, então, que se apague!