Tiago Abreu
O cara usou tudo possível
em Bate-Papo da Torcida > Descanse em paz meu amigo Thiago Romero, deixou saudades
Em resposta ao tópico:
Vou explicar tudo.
Saí no soco com o pai da minha namorada no Natal.
Só de escrever isso já dá vontade de apagar tudo e fingir que nunca aconteceu, mas vamo lá.
Namoro com ela há 8 meses. Nesse tempo fui na casa dela pouquíssimas vezes, sempre coisa rápida. O motivo é simples: o pai.
Quando eu digo que o cara é um desgraçado, não é força de expressão. Ele sempre fez questão de me tratar como lixo. Olhar torto, comentário atravessado, silêncio calculado.
Além de eu comer a filha dele, o problema principal era o clássico: classe social.
Família rica, engenheiros há gerações, dinheiro antigo. Eu? Trabalho normal, vida normal, zero herança. Pra ele, eu estava ali pelo dinheiro. Como se a filha linda fosse um detalhe irrelevante.
Natal chegou.
Minha família viajou, eu não pude ir. Amigos já distantes porque namoro é isso: ou eles ou eu.
Ela insistiu pra eu passar com a família dela. Disse que ia ser diferente. Nunca é.
Ceia.
Mesa grande, comida bonita, clima horrível.
Primeira humilhação: a empregada vem me servir. O sogro interrompe e fala pra deixar tudo na mesa porque eu sei me virar sozinho, que estou acostumado com self-service.
Ninguém ri. Ninguém discorda.
Minha namorada me olha com tristeza e me serve. Eu engulo seco.
Depois meu celular vibra. Minha mãe.
Atendo rápido pra desejar feliz Natal.
O sogro dá um soco na mesa:
— Você não sabe que isso é falta de educação não, malandro?
Minha mãe ouve.
Eu levanto, vou falar com ela. Já não sinto mais fome nenhuma.
Volto pra mesa. Minha namorada pergunta quem era, falo baixo que era minha mãe.
Ele escuta e solta:
— E a patroa da sua mãe deixa ela ligar assim? Empregada folgada comigo só sic.
Ali acabou tudo.
Se eu ficasse quieto, ia me sentir um sic para o resto da vida.
Levantei e falei tudo que estava entalado há 8 meses. Xinguei, gritei, falei da minha mãe.
Ele gritou de volta:
— FALA BAIXO, SEU FAVELADO
E jogou o copo em mim. Acertou meu braço.
A mesa virou um caos. Minha namorada tentando me segurar, a esposa dele puxando ele, a irmã chorando, gente gritando.
Eu já estava decidido a ir pra cima.
Ele contorna a mesa igual um touro.
E aí o Thiago entra no meio.
Thiago estava ali porque eu pedi.
“Vai comigo só pra dar apoio”, eu disse.
Ele se coloca na frente, braço aberto:
— Para com isso, velho.
O sogro empurra ele.
Thiago empurra de volta.
O primeiro soco não foi meu. Foi no Thiago.
Virou pancadaria.
Cadeira caindo, prato quebrando, gritaria.
Thiago apanha tentando me proteger.
Eu consigo acertar um soco no sogro.
Tudo vira confusão.
Até o som mudar.
Não era grito.
Não era vidro quebrando.
Era um zumbido grave, contínuo, como se o ar estivesse vibrando errado.
Todo mundo para.
As luzes piscam.
O chão treme levemente.
Pela janela enorme da sala, algo cruza o céu. Rápido demais. Baixo demais.
Depois outro.
E outro.
O céu ganha um brilho azulado estranho.
Um clarão ilumina tudo como se fosse dia.
Um estrondo seco faz a casa inteira tremer. Vidros estouram.
No meio disso tudo, o Thiago cai.
Corro até ele achando que é pancada.
Não tem sangue.
Não tem marca.
Ele tá com os olhos abertos, mas vazio.
Como se alguém tivesse desligado ele.
Lá fora, sirenes começam a tocar todas ao mesmo tempo.
Celulares vibram.
Era o início da dominação extraterrestre.