Anne F
O jogo contra o Peñarol me deixou iludida. Há quem fale sobre o baixo nível do adversário, mas qual foi a última vez que o Corinthians venceu com tranquilidade antes das partidas contra Peñarol e Santa Fe? Talvez contra o Capivariano e, mesmo assim, aquela vitória só foi construída no último terço do jogo, muito na vontade da molecada da base.
Também existe a discussão de que, historicamente, os trabalhos de Fernando Diniz seguem uma curva: os times empolgam no início e depois perdem desempenho. Por não achar que tudo seja apenas empolgação e ajuste anímico, quero destacar três questões táticas que gostei na partida de ontem.
Solução para o uso do corredor
O Peñarol veio fechado, com três volantes e o meio congestionado. Como o próprio Diniz disse na parada para hidratação, o caminho do jogo estava pelos lados.
Usualmente, esperamos que, para vencer uma dobra de marcação, o time tenha pontas abrindo o corredor e laterais ultrapassando. No São Paulo, Diniz tinha Antony e no Fluminense, Arias. No Corinthians, ele encontra limitações em um elenco com poucos atacantes de verticalidade e muitos jogadores de aproximação.
A solução foi encontrada em uma das principais convicções táticas de Diniz: acumular jogadores em uma mesma faixa do campo, conceito muitas vezes chamado de “paralela cheia”. A ideia é criar superioridade numérica em um pequeno setor do gramado, facilitando passes curtos e aproximações rápidas. Nesse cenário, Diniz apostou em gerar profundidade pelo lado esquerdo através da aproximação entre os jogadores. Observando o mapa de calor, apenas Gabriel Paulista e Matheuzinho tiveram presença mais relevante no lado oposto, e Bidu, Raniele, Bidon, Garro e Lingard têm em suas zonas mais quentes a mesma faixa de campo, constantemente próximos, facilitando muito o jogo associativo.
Se isso vai resolver todas as vezes em que precisarmos de verticalidade, o tempo dirá. Mas, Diniz parece tentar soluções com o que tem disponível, um comportamento positivo para o técnico de um clube enorme, endividado e que tem seus torcedores acostumados a ouvir de seus treinadores, inclusive do antecessor, que é preciso gastar para solucionar as limitações do já milionário elenco.
A dupla de ataque
A escolha de Jesse Lingard foi acertada por Diniz. O atacante fez seu melhor jogo pelo Timão, eleito o craque da partida por muitos com muita justiça. Extremamente voluntarioso, Jesse, ao lado de Yuri Alberto, formou uma dupla de ataque que recuperou oito posses de bola na partida (quatro cada). Nesse quesito, individualmente, ficaram atrás apenas de Bidu, que recuperou impressionantes dez posses.
Dessas oito, cinco foram recuperações no campo adversário e, não por acaso, o gol do Corinthians nasce justamente de um desarme de Lingard, seguido da recuperação de Yuri após uma pressão conjunta no portador da bola.
Além da parte defensiva, Lingard e Yuri resolveram muitas jogadas com toques de primeira, e isso também passa por um pedido de Fernando Diniz, que, na pausa para hidratação, disse algo como: “De costas é de primeira; de frente vocês fazem o que quiser.” A estratégia evitou que o Peñarol conseguisse impor fisicamente sua marcação, favorecendo as características dos dois atacantes e ainda acelerando o jogo.
Assim, além da assistência, o centroavante do Timão gerou outros dois passes decisivos (estatística que contabiliza passes que resultam diretamente em finalização do companheiro), como naquele quase golaço coletivo finalizado por Garro, com a bola passando à direita do goleiro.
Paciência para girar a bola
O Corinthians terminou o jogo com 557 passes certos e impressionantes 78% de posse de bola. Também em uma das paradas para hidratação, Diniz pediu paciência para circular a bola. Embora o jogo tenha se concentrado mais pelo lado esquerdo no terço final, no meio-campo a equipe girava constantemente entre os dois lados em busca do espaço ideal para verticalizar.
E, mesmo com um segundo tempo mais morno, isso não significou falta de agressividade. Foram 71 entradas no terço final contra 33 do adversário. Para se ter uma ideia do volume ofensivo, na semifinal da Champions entre PSG e Bayern, um jogo de muita trocação, o PSG teve 43 entradas no terço final, enquanto o Bayern registrou 74. Não é uma comparação direta, até porque aquela partida teve nove gols; trago apenas um número como referência.
Utilizamos entradas no terço final aqui porque é a métrica do Sofascore que contabiliza as ações em que uma equipe consegue levar a bola para os 35 metros finais em direção ao gol, sendo frequentemente associada à agressividade ofensiva dos times.
E por aí?
O jogo de ontem deixa uma impressão muito positiva. Eu gostei de muitas outras coisas taticamente falando, mas escolhi compartilhar essas três. E vocês, quais foram as três coisas de que mais gostaram na parte tática do Coringão?
Em tempo: (1) que partida de Bidu, o jogador cuja avaliação eu mais errei na vida, e também do Raniele, o torcedor em campo. (2) que massa a decisão da Conmebol de transmitir a conversa entre treinador e jogadores nas paradas para hidratação. Acho que isso enriquece a transmissão aumentando nosso conhecimento sobre o jogo. (3) A fonte das imagens e dos dados é do Sofascore.
em Bate-Papo da Torcida > Mais alguém iludido? Três ideias táticas que gostei do Corinthians...












