Romeu Tuma Júnior, presidente do Conselho Deliberativo do Corinthians, compareceu ao Dope (Departamento de Operações Policiais Estratégicas), na Barra Funda, após a tentativa de Augusto Melo reassumir a presidência do clube . Ele lamentou o episódio e tratou como "levante irregular e ilegal".
"Primeiro, lamentar profundamente essa mancha triste na história centenária do Corinthians, que sempre foi um clube que defendeu, lutou pela democracia. E hoje, infelizmente, nesse ato aloprado de poucos conselheiros, capitaneado pelo ex-presidente, num levante absolutamente irregular e ilegal, que não tem nenhuma previsão estatutária, invadiram a sala do presidente em exercício, o mantiveram em cárcere privado, um absoluto constrangimento ilegal. Fizeram com que a gente fosse notícia novamente em fatos lamentáveis. Esse ato é absolutamente irregular, não tem nenhuma previsão estatutária, não é reconhecido. Então as coisas institucionalmente continuam como estiveram nos últimos dias. Eu continuo à frente do Conselho e o presidente é destituído por uma decisão do Conselho Deliberativo", disse à imprensa presente no local, onde prestaria boletim de ocorrência por acusar aliados de Augusto de cárcere privado .
Romeu Tuma Júnior admitiu ter sido pego de surpresa pelo movimento de Augusto Melo, que está afastado desde a última segunda-feira, quando o Conselho Deliberativo deliberou a destituição temporária do mandatário. Ele relembrou o episódio de 8 de janeiro de 2024, em alusão à tentativa de golpe no país, e comparou a situação com as cenas deste sábado.
"É mais uma exposição negativa que a gente tem tentado evitar há muito tempo. E, infelizmente, a gente não sai das páginas policiais. A gente tem que lamentar, inclusive, que em alguns momentos antes, nós tínhamos o presidente da torcida organizada, de uma das torcidas organizadas, conversando com o presidente em exercício. E quando eu soube dessa manifestação dentro do clube, estava um grupo de pessoas, capitaneado pelo ex-presidente, indo à presidência lá para tomar o poder, ou tentar tomar o poder nesse golpe que o Corinthians hoje está vivenciando, no dia 31 de maio, que o Brasil vivenciou no 8 de janeiro, infelizmente", iniciou.
"Quando eu soube disso, liguei para o presidente, o alertei, porque eu estava recebendo informações dos associados, e eles estavam alegando que tinham uma liminar da justiça, não era nada disso que estava acontecendo. E ele falou que estava com o presidente da torcida, da Gaviões da Fiel. Eu falei, 'olha, está acontecendo isso, os caras estão aí para tomar o poder, então você como presidente da torcida, por favor, proteja aí a instituição, proteja o presidente'. Estão alegando que têm que eliminar, ninguém conhece, eu estou acompanhando todos os processos, não tem nada disso. Ninguém pode tomar o poder no Corinthians com mão grande. Ninguém pode invadir a sala do presidente do Corinthians porque é um recinto institucional. Ele falou, 'não, claro, a gente vai ver isso'. Foi a surpresa que eu tive, que foi invadida, travaram os elevadores para ninguém subir. O presidente da torcida saiu de lá e já soltou uma nota dizendo que tinha visto uma liminar, que o presidente deposto tinha voltado ao poder", completou Tuma.
A polêmica se iniciou com a conselheira e primeira secretária do CD, Maria Angela de Sousa Ocampos , que se anunciou presidente do Conselho Deliberativo e decidiu anular todos os atos praticados por Romeu Tuma Júnior, então presidente do órgão. Isso incluiria o impeachment de Augusto Melo, aprovado pelo Conselho em 26 de maio.
Na última sexta-feira, a Comissão de Ética e Disciplina do Conselho formalizou o afastamento de Tuma , em decisão encaminhada pelo relator Mario Mello à Maria Angela. Ela se anuncia "herdeira" já que Roberson de Medeiros, vice do CD, estaria sob licença médica, segundo o ge.globo. Tuma, porém, falou que a decisão não está acima do Conselho e afirmou que segue sem receber notificação para deixar o posto.
"Eu acho que isso vai desaguar no Conselho como tem que desaguar as coisas todas. Ninguém tem o poder absoluto no clube. Tudo passa pelo Conselho Deliberativo. Uma Comissão de Ética subordinada ao Conselho Deliberativo, eleita pelo Conselho Deliberativo, ela não tem o poder máximo de estar acima de 300 conselheiros. Para vocês terem uma ideia, isso é muito grave. Ontem circulou pela imprensa, eu estava participando de uma reunião a pedido do presidente, em nome do Conselho, com as comissões do Conselho, com a Nike, para a gente tentar ver qual é o melhor caminho para o clube, sempre dependendo da instituição. Vários repórteres como vocês me ligaram, eu não podia atender e estava até atrapalhando a reunião, de que eu tinha sido notificado, de que eu tinha sido retirado da presidência do Conselho".
"Aquilo virou um incômodo, mas eu não tinha sido notificado de nada e continuo não sendo notificado, não fui notificado ainda. Depois de tudo acabar, eu vi pela imprensa alguns documentos que eles mesmos vazaram, que é outra irresponsabilidade. Tinha uma manifestação de um relator de um processo a que eu tenho que responder, mas não estão me dando o direito de responder. E tinha uma ata de uma suposta reunião há um tempo. E pelos documentos que a imprensa estava publicando, eu pude ver, repito, não recebi isso oficialmente, não sei se esses documentos realmente existem, que tinha uma ata que não tinha assinatura e tinha uma manifestação de um membro da ética, não era da Comissão do Ética. Mas eu, como tomo muito cuidado com as coisas, sou um cara que respeita o estatuto, assim, ipsis literis, e é meu papel como presidente do Conselho, ser o guardião do estatuto. Sempre tive a mesma característica. Eu fui um opositor da Renovação e Transparência durante muitos anos e muitas vezes fui sozinho, mas sempre fui respeitado por todos, porque a gente tem que disputar o que está dentro do estatuto, tem que sempre respeitar o estatuto", afirmou.
O conselheiro do Timão ainda fez fortes acusações não só à secretaria, mas a outros membros aliados da gestão de Augusto Melo. Segundo ele, após receber acusações de que tinha sumido com algumas atas de reuniões, a sala do presidente do Conselho teria sido alvo de tentativa de invasão para desaparecer com os documentos.
"Na secretaria do Conselho, eu pedi para a secretária se ela tinha algum documento, eu queria ver os processos da Comissão de Ética que estavam lá, até porque me acusaram na imprensa também e nos processos judiciais, porque eu tinha sumido com as atas do conselho, com as listas de presença nas reuniões e elas estavam todas dentro do clube. Eu só não falava publicamente porque tentaram invadir a sala do conselho umas quatro vezes durante esse período todo para furtar, sumir com as atas. Sumir com as listas justamente para tentar anular as reuniões. Infelizmente, a Secretaria do Conselho, hoje, ela é um órgão da nossa sala que está vinculado na diretoria. A gente precisava proteger a instituição. Teve até um conselheiro que me fez um requerimento ontem mesmo, nos mesmos modos que um outro conselheiro fez e juntou na Justiça, e a Justiça não acolheu e não deu liminar", iniciou.
"Eu respondi ao vivo para ele, 'você está falando que eu furtei as atas, que eu levei embora? Eu vou te mostrar'. Chamei cinco testemunhas, liguei o vídeo, mostrei para ele, está aqui o que você está perguntando, mostrei para a secretária, onde é que estão as listas das reuniões do conselho? Ela viu a gaveta e mostrou todas, mostrou todas as atas. Obviamente não é a última, que é uma reunião que foi prorrogada, começou dia 20 (de janeiro) e terminou nessa semana, e essa ata não está pronta, evidentemente. E ele viu que estava tudo lá, eu não tiro o documento do Corinthians. E aí eu perguntei para ela, onde é que estão os processos da ética? Ela achou alguns, não achou outros. E eu pedi especificamente os que eu respondo. Até para tomar ciência, aqueles documentos que estavam circulando pela imprensa existiam e estavam nos autos. Porque a gente tem que se defender nos autos, todo mundo conhece isso. No Brasil é assim que funciona o Estado Democrático de Direito, o devido processo legal. Todo mundo tem direito de defesa, como o presidente Augusto teve direito de defesa. E a Justiça validou isso. E ela não achou os processos que eu tinha que responder. Então, assim, apesar de estarem na imprensa alguns documentos, não estava no clube. Eu não consegui nem acessar os processos que eu tenho que me defender", concluiu Tuma.
Apesar de Augusto se autointitular presidente, ele segue afastado do cargo conforme o Estatuto do Corinthians. Osmar Stabile, mandatário interino, reafirmou a posição em pronunciamento à imprensa após o ocorrido. A destituição ou recondução de Augusto ao cargo será no dia 9 de agosto, em assembleia geral dos associados.