Afinal, o Corinthians é diferente?
Opinião de Juliano Barreto
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Torcida do Corinthians durante a vitória
Foto: Rodrigo Coca / Agência Corinthians
Apesar do título desse post ter uma interrogação no final, não vou ficar fazendo mistério e responder só no final. Minha dúvida é real e não tenho uma resposta. De 2020 para cá, tenho pensado muito nessas perguntas: o Corinthians é diferente dos outros clubes de futebol? O Corinthians “respeita as mina”? O Corinthians tem alguma coisa a ver com Democracia? O Corinthians está do lado do povo?
O questionamento vem de 2020 por conta da pandemia e pela falta de posicionamento do clube. Enquanto a diretoria do Flamengo fazia lobby para ter os jogos de volta o mais rápido possível numa época com milhares de mortes diárias, inclusive pleiteando a volta do público, o Corinthians se calou. O time que posta nas redes sociais que é um patrimônio do povo e a favor da Democracia não fez nada. Não se opôs ao Flamengo, não cobrou autoridades, viu a CPI da Covid passar sem se manifestar. Deixou a discussão ser liderada pelos outros times e seguiu as ordens absurdas e os protocolos sem pé nem cabeça que ajudaram a infectar e a matar um sem-número de vítimas por aí. Fez tudo igual aos outros times.
Em 2022, durante todo o processo das eleições presidenciais, o clube jamais se posicionou claramente e fez vista grossa para os jogadores que demonstraram indiretamente apoio ao candidato que ameaça a Democracia em média a cada 23 dias. Cássio e Roger Guedes, só para citar dois dos atletas que recebem “o teto salarial” entre os muitos outros que deram likes em postagens de parentes ou pastores evangélicos que se alinhavam a Bolsonaro. O time que vende camisetas com slogans democráticos, não fez nada. Não comprou briga com os jogadores, nem sequer abriu uma necessária discussão sobre liberdade de expressão. “Se meu artilheiro gosta de um determinado político, ele tem direito de demonstrar apoio?”.
Parece bem óbvio para mim que as pessoas que comandam o Corinthians não têm nenhuma intenção de discutir para valer questões sociais. Os preços dos ingressos, das camisas oficiais e da transmissão dos jogos faz o Time do Povo cobrar bem caro do povo que tenta ver os jogos ao vivo ou pela TV. Por ganância, incompetência e por covardia da diretoria o torcedor do corinthians que não tem grana está sendo propositalmente afastado do clube. Daria até para contemporizar, e dizer que o Corinthians sofre no mesmo cenário dos outros clubes. Mas, e aí? Não somos diferentes?
Podemos lembrar ainda de todos os imbróglios do Corinthians na Justiça quando o assunto é o pagamento de impostos. O Time do Povo ama negociar, barganhar, parcelar e no final não pagar um centavo dos impostos que poderiam trazer melhorias para a vida dos mais pobres (aqui, faço de conta que não existe a corrupção endêmica no Brasil.) O Time do Povo, sempre que pode, pede desconto ou anistia, mas nunca devolve pro povo o dinheiro que movimenta, como são obrigadas todas as outras pessoas físicas e jurídicas. Igual a todos os clubes.
O “Respeita as Minas” é uma bela hashtag e ajuda no inegável sucesso do futebol feminino no Corinthians. Mas para por aí. Nunca ouvi sequer uma discussão por condições iguais entre atletas das duas categorias, desconto real para as torcedoras ou pelo menos mais dignidade no tratamento da PM às torcedoras. As atletas do Futebol Feminino dos Estados Unidos tanto brigaram que conseguiram equiparar salários. E o time do povo? Só na hashtag…
Por essas e por outras, quando o Corinthians contrata um treinador com um passado nebuloso, eu fico espantado em ver as reações da torcida. É um descontentamento direcionado, pautado pelos Trending Topics do dia, e por mais que tenha mérito não tem contexto.
O contexto dos últimos 10 anos é de um time sequestrado por um grupo que faz o que bem entende com o Corinthians e nunca sofre qualquer reprimenda. Andrés, Mário, Roberto, Duílio e o próximo presidente vão continuar a usar em vão hashtags sobre Democracia, sobre respeito às mulheres, sobre ser o time do povo… mas fora do departamento de marketing todas as ações da diretoria continuarão fortemente na direção contrária.
Sigo com a mesma dúvida. O Corinthians é diferente? O que passa na cabeça do Corinthiano que acha que Cuca pode trabalhar em todos os times de São Paulo, menos no Timão? Não é óbvio que o faz anos que existe um imenso abismo entre a passado glorioso da instituição centenária e as decisões do grupo político que se instalou no Parque São Jorge?
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
