8 comentários delas no dia 8: o que nós fazemos que as incomodam?

Lucas Faraldo

Escrevendo sobre o Corinthians desde 2014

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8 comentários delas no dia 8: o que nós fazemos que as incomodam?

Coluna do Lucas Faraldo Knopf

Opinião de Lucas Faraldo

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8 comentários delas no dia 8: o que nós fazemos que as incomodam?

Corinthianas têm recados para nós, corinthianos. Vamos ouvi-las?

Foto: Divulgação

O que nós fazemos que as incomodam?

O "nós" acima engloba homens, e este texto tem intenção prioritária de atingi-los. Torcedores (e os que não são). Corinthianos (e os que não são). Profissionais da imprensa (e os que não são). Internautas do Meu Timão (e os que não são).

No Dia da Mulher, 8 de março, vamos abrir a mente para ler oito comentários de quatro jornalistas mulheres que trabalham no Meu Timão e de outras quatro torcedoras do Corinthians. Trata-se de um perfil de mulheres, portanto, que convivem conosco (se não, poderiam). São mulheres como nossas mães, avós, irmãs, filhas, namoradas, esposas, colegas de trabalho...

Depois de ler, cogitou ir à seção de comentários para xingá-las? Ironizá-las? Percebamos que são oito comentários que se relacionam completamente mesmo tendo sido feitos de forma individual, sem um influenciar o outro. Será mesmo mera coincidência?

Não é coincidência. Vamos ler até a carapuça servir. E então refletir.

Acredite: isso será muito melhor do que qualquer buquê de flores ou caixa de bombons que já demos ou pensamos em dar para qualquer mulher em qualquer outro dia 8 de março.

8 de março não é dia de parabenizá-las. É dia de ouvi-las.

1) Mayara Munhoz, editora do Meu Timão
Há quase dez anos no jornalismo esportivo, já ouvi de tudo um pouco: que deveria limpar fogão, que deveria usar minha memória para decorar receitas e já fui questionada com quem teria dormido para conseguir determinada informação. Essas críticas, que quase sempre são ditas em tom de brincadeira, sempre foram o meu combustível e, hoje, sou editora de um dos maiores portais do Brasil. Os homens precisam entender e respeitar o nosso espaço no esporte. Sim, eu sou capaz de entender de futebol. Sei o que é impedimento e, acredite, muito mais (e, talvez, até mais do que a maioria deles). A minha capacidade e inteligência não é medida pelo meu sexo. Eu acreditei nisso e mostrei do que sou capaz. Acredito que todas as mulheres podem fazer o mesmo e que já passou da hora dos homens respeitarem isso. Somos todos iguais! No campo, nas redações e em todos os lugares.

2) Maria Angélica Oliveira, torcedora do Corinthians
Incomoda-me a concepção, ainda presente no meio masculino, de que futebol é assunto de homem. Tal concepção, que coloca a mulher fora do “universo, masculino”, limita e dificulta a participação da mulher no mundo de futebol, como profissionais (jogadoras, técnicas e jornalistas), como dirigentes e como torcedoras. Para mudar essa situação, é importante a atuação conjunta de homens e mulheres na luta contra o machismo e pela construção de uma sociedade inclusiva, sem discriminação e sem preconceitos.

3) Thaina Barros, estagiária do Meu Timão
Ter a beleza julgada, enquanto a atenção deveria estar na informação que você está passando, talvez seja uma das maiores dificuldades do meio. Além do mansplaning*, que é mais recorrente do que deveria não só no jornalismo esportivo, mas em qualquer área.
Me sinto intimidada ao entrar em uma coletiva de imprensa, e ser a única mulher presente. Pior ainda é ter que “provar” seu conhecimento antes de dar uma opinião, com aquele já manjado “fala a escalação então” ou “explica o que é impedimento”.

*Homem explicar algo óbvio a uma mulher

4) Mariane Roccelo, torcedora do Corinthians
O que mais me incomoda no machismo relacionado ao futebol é um pressuposto, entre os homens, que mulheres naturalmente sabem menos sobre o esporte. Isso geralmente fica bem evidente quando fazem várias perguntas que não fariam para outros torcedores homens, como se nós tivéssemos que provar o quanto conhecemos para sermos consideradas torcedoras de verdade. Outra coisa que me incomoda bastante é a falta de produtos básicos, como camisas mesmo, voltados para o público feminino.

5) Larissa Lima, editora de vídeo do Meu Timão
O machismo que fica enraizado é o que mais me incomoda, e ele dentro do futebol é somente um reflexo do que nossa sociedade é hoje. “Futebol é coisa de homem” é a frase que está implícita em muitos discursos e ações por aí e isso reduz capacidade, voz e deslegitima discursos. A gente não quer nada além do que não é nosso por direito, e pra mim o que os homens podem fazer pra melhorar tudo isso é se colocar um pouco no lugar das mulheres.

6) Carol Barros, torcedora do Corinthians
Um dos meus principais incômodos é ter o amor pelo time, bem como, pelo futebol, sendo questionado à todo momento. Falta entenderem que nós amamos e torcemos na mesma medida, nós também crescemos com histórias na nossa família, nós também fizemos promessas, também realizamos sacrifícios, também choramos, sofremos... Nós não estamos em uma arquibancada para embelezá-la. Quando reivindicamos algo, não queremos nada que não nos seja direito. O primeiro passo é reconhecer mulheres como iguais, depois disso, compreender como e porque nos diferem, seja no futebol, seja na sociedade como um todo.

7) Ana Araújo, moderadora do Fórum do Meu Timão
O que mais me incomoda no machismo relacionado ao futebol é quando ele parte de outra mulheres, afinal, lutamos por um espaço que um dia será de todas, mais que espaço, a luta é pelo respeito, o direito de sermos o que quisermos. Quanto aos homens, cabe a eles darem o exemplo ao tratar a mulher como uma igual, parar de nos olhar como objeto sexual, e sim como um ser pensante, que contribui para o esporte tanto quanto eles.

8) Jaiane Valentim, torcedora do Corinthians
Além da questão do assédio - assobios e cantadas acompanhadas de um olhar da cabeça aos pés - infelizmente ainda muito presente, talvez o fato do pensamento retrógrado de que mulher pode até gostar de futebol, mas não entende (sim, ainda). É nítido o aumento considerável da presença feminina nas organizadas e torcida em geral. Essa mulher se interessa muito, sim, por tudo que envolve o seu clube: das dívidas, negociações até esquema tático e corneta em substituições. Vejo essas duas coisas intrínsecas, uma vez que a mulher torcedora não é levada a sério e no ambiente do estádio é passível, lamentavelmente, desse comportamento (enraizado e, por isso difícil de se mudar) masculino.

Veja mais em: Torcida do Corinthians.

Coluna do Lucas Faraldo Knopf

Por Lucas Faraldo Knopf

Jornalista pela ECA-USP e ex-Esporte Interativo, Jovem Pan e Lance!. Hoje trabalha no Meu Timão. Autor do livro 'Impedimento - Machismo, racismo, homofobia e elitização como opressões no futebol'.

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