[Maurício Sabará] Clube “com” História

Maurício Sabará

Nascido em São Paulo no dia 12 de janeiro de 1976, jornalista formado e profundo conhecedor da história do Corinthians. Autor do livro sobre ilustre corinthiano: 'O Generalíssimo Amilcar Barbuy'.

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Clube “com” História

Clube “com” História

A foto foi tirada pelo meu pai em setembro de 1960, na comemoração dos 50 anos do Sport Club Corinthians Paulista

Foto: Arquivo pessoal

O maior erro de uma pessoa quando comenta sobre a História é analisá-la com o pensamento da atualidade. Agindo assim desconhecerá o tema estudado, os anseios da sociedade da época, o que existia no período que era considerado grandioso, os preconceitos da ocasião, as necessárias liberdades que buscava, a tecnologia oferecida e o que era considerada uma glória quando se conquistava. E claro que no futebol tais características se faziam presentes, onde podemos considerar como glorioso o que era vencido.

Muitas vezes a rivalidade é o maior equívoco no momento em que se faz referência ao que não gosta. Tais preconceitos se fazem presentes não somente às pessoas mais simples, que discutem os assuntos em um bar, mas também dos próprios meios de comunicação, informando sem formar, muitas vezes enganando os interessados com achismos, algo que prejudica por deveras determinados conceitos, influencia de forma involuntária, surgindo assim idéias que em nada contribuem para a verdade dos fatos, algo decepcionante, já que vem de profissionais que deveriam ser mais bem informados na profissão que exercem.

Tenho como objetivo no site Meu Timão explicar a verdadeira história do Sport Club Corinthians Paulista, não usando de paixão clubística para inserir minhas opiniões, mas sim esclarecer o quanto os argumentos que por tantos anos lemos e ouvimos são sem fundamentos para avaliar essa gloriosa agremiação.

Em muitas ocasiões nós, corinthianos, tivemos que aturar insinuações que o nosso clube não tem História, sem passaporte internacional, clube sem estádio e Marginal sem número. Para muitos torcedores a conquista recente da Libertadores e a construção da Arena foram respostas definitivas para que certas ironias fossem sepultadas de vez. Mas na verdade tais argumentos nunca foram reais, pois tudo que diziam que não tínhamos, na verdade sempre fizeram parte da nossa existência, o que infelizmente para muitos, seja o torcedor corinthiano ou adversário, não havia possibilidade de ser debatido, por falta de conhecimento.

Minha intenção nas próximas linhas e matérias é provar o que sempre significou o Corinthians, conhecido pela fidelidade da sua torcida, por lutas sociais que travou e também pelos muitos títulos que sempre fizeram parte da sua imensa galeria de troféus, seja no futebol ou nos esportes amadores. E afirmo, com inteira convicção, que até o início de 1960, quando completou 50 anos de existência, tratar-se do clube com maiores glórias do esporte brasileiro, conquistando, até então, os títulos mais importantes.

Uma citação que deixarei para outro capítulo é sobre o seu passado internacional, seja ele em gramados brasileiros ou estrangeiros. O leitor se surpreenderá com a glória que era o Time do Povo e seu significado em tais pelejas.

Nenhum clube de futebol é fundado com a intenção de ser apenas mais um entre tantos. O objetivo dos fundadores e dos afiliados é sempre vencer, algo que é comemorado como se tivessem vencido uma guerra. E com o Corinthians não foi diferente, pois mesmo iniciado de forma humilde, nos braços do povo, sempre objetivava crescer mais e mais, seja na Várzea, em um Campeonato Paulista, Amistosos, Interestaduais, Nacionais e em Jogos Internacionais.

A consagrada fibra corinthiana já se fazia presente em sua primeira partida, contra o União Lapa, um time muito forte da Várzea Paulistana, que venceu por apenas 1 a 0 a nova equipe do Bairro do Bom Retiro. Foi uma derrota bem recebida pelos moradores do bairro, pois significava que a disposição do jovem Corinthians era lutar e lutar, sem jamais se deixar entregar, mesmo quando não obtinha a tão almejada vitória.

Com o tempo a invencibilidade corinthiana em jogos varzeanos fazia com que houvesse necessidade de se pensar em vôos maiores. E naquele distante 1913 surgiu a idéia de disputar a competição mais importante existente, que era um Campeonato Estadual, ainda mais sendo o Paulista, a primeira competição nacional e sempre a mais concorrida de todas.

Por ser de origem operária, tal filiação não foi bem vista pelos clubes aristocráticos, em uma sociedade brasileira recém-saída de uma Escravatura e de um Império, ou seja, ainda existindo preconceitos que não se enraizariam de imediato. E claro que seria necessário que o novo clube, que se atrevia a fazer parte daquele mundo onde o pobre não poderia ser favorecido, teve que disputar dois jogos eliminatórios, pois não seria presenteado assim, de Mão Beijada. Venceu os dois desafios, ganhando por méritos o direito de fazer parte da elite, o que pela primeira vez rachou o torneio, sendo disputado em duas Ligas. Não foi campeão em seu primeiro ano, mas provou que o seu lugar era estar entre os grandes, já que nasceu para isso.

Tendo apenas 4 anos de existência, sagrava-se campeão paulista pela primeira vez em 1914, na Liga Paulista de Futebol (LPF), vencendo todas as partidas. De fato o Corinthians demonstrava que em pouco tempo já podia ser considerado um dos grandes times do futebol paulista. No ano seguinte não disputa o campeonato. Mas em 1916 está de volta, sendo mais uma vez campeão e ganhando todos os jogos que disputou.

Interessante que o número 4 parecia ser cabalístico para o Corinthians, pois depois de ser fundado em 1910, seria campeão pela primeira vez no ano de 1914. Em 1918 disputa seu primeiro jogo interestadual contra o Flamengo, no Rio de Janeiro, que já era considerado um dos grandes times do futebol carioca. A vitória corinthiana por 2 a 1 impressionou a crônica esportiva carioca, destacando nos jornais que o estilo de jogo apresentado pelo Corinthians era impressionante. O Time do Povo, com apenas 8 anos de existência, sendo conhecido e temido fora do seu Estado.

Um dos principais objetivos do time que tinha mais de uma década era ganhar títulos que tivessem uma importância para a história brasileira. Então o título paulista de 1922, quando se comemorava o centenário da Independência do Brasil, foi comemorado com entusiasmo, pois se sabia que valeria por 100 anos. Sem se esquecer que no mesmo ano também venceu a Taça Cântara Portugália, riquíssimo troféu de prata, oferecido em homenagem à visita dos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral, os primeiros europeus que atravessarem de avião o Oceano Atlântico e que estavam presentes na vitória por 2 a 0 contra o Palestra Itália, em pleno Parque Antárctica.

Ao se sagrar tricampeão paulista de 1922/23/24, o Corinthians provava ser uma das grandes forças do futebol do seu Estado, incomodando o seu maior rival da época, o Clube Atlético Paulistano de Arthur Friedenreich, que de fato foi o principal time nas três primeiras décadas do século XX, mas já consciente da força de um rival que aprendeu a respeitar.

Os títulos estaduais de 1928/29/30 deram ao Corinthians uma honra pouco conhecida por muitos, de ser o único time paulista que foi duas vezes tricampeão em uma única década. Alguns se lembrarão do Santos, que foi tri em 1960/61/62 e 1967/68/69, mas se esquecendo que o ano de 1960 ainda pertencia à década de 50, então deve ser descartado. Mesmo o segundo Tricampeonato sendo conquistado no início de 1931, era equivalente ao ano anterior, então ainda fazia parte da década de 20, uma glória pouco lembrada na história corinthiana.

Existe um detalhe muito importante que vale a pena ser mencionado. O Clube Atlético Paulistano encerrava suas atividades futebolísticas no final de 1929, sendo o time que tinha conquistado por mais vezes o Campeonato Paulista, um total de 11 títulos. Com todo o respeito aos Regionais de outros Estados, não tinham como se equiparar ao Paulistão, nem mesmo o Carioca, pois sempre foi o mais disputado de todos, tornando-se difícil para um time ser tricampeão e quando um foi tetra (o próprio Paulistano), não foi disputando por 4 anos na mesma Liga, já que o início da sequência foi em 1916, pela APEA, justamente com o Corinthians sendo campeão pela LPF. Tal término do departamento de futebol fez com que o time corinthiano passasse a ser, dos que ainda praticavam o esporte, detentor de número maior de Estaduais, com 7 conquistas até então, o campeão em atividade na ocasião.

Em fevereiro de 1930, Corinthians e Vasco, os campeões estaduais do ano anterior, se enfrentaram em dois confrontos, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, para saber quem era o mais forte time do futebol brasileiro. Na primeira partida, no Parque São Jorge, os corinthianos triunfaram com uma vitória por 4 a 2. E no segundo jogo, em São Januário, os vascaínos estavam até o segundo tempo vencendo pelo placar de 2 a 0, não resistindo à reação corinthiana, que era naquela época já conhecido como o time das viradas, anotando 3 gols e se sagrando o principal time do futebol brasileiro, com menos de 20 anos de existência.

Quando a Lazio, em julho de 1931, levou quatro importantes jogadores corinthianos (Del Debbio, Filó, Rato e De Maria), contribuiu para o enfraquecimento do poderoso Esquadrão Mosqueteiro. Até 1934 foram anos difíceis, com históricas derrotas para os principais rivais e a difícil adaptação para o futebol profissional, introduzido no Brasil em 1933.

Mas a partir de 1935 novos valores fariam parte do elenco corinthiano, que dois anos depois renderia frutos, com a conquista do terceiro Tricampeonato Paulista, em 1937/38/39, um feito que só seria alcançado em 2012. Sem se esquecer que a conquista do título paulista de 1941 fez com que superasse o Paulistano, com 12 títulos, tornando-se o Rei do Paulistão, algo que só perderia no período que esteve na famosa fila, mas por um curto período de 10 anos.

Naqueles anos 30 e 40 era difícil analisar quem era o grande campeão brasileiro, já que não se disputavam competições. Nem mesmo um Rio-São Paulo existia oficialmente. Mas quando algo em tais moldes ocorria, obviamente que o Corinthians cumpria o seu papel. Como aconteceu em 1942 na disputa da Taça Quinela de Ouro, entre os três primeiros colocados paulistas do ano anterior e os dois cariocas, sagrando-se campeão invicto. Os anos 40 também ficaram marcados pela disputa da Taça Cidade de São Paulo, conhecida como “Taça Maldita”, pois quem a conquistava não conseguia ser campeão paulista, não sendo a toa que o maior campeão do período foi o time corinthiano (1942/43 e 1947/48), já que no Trio de Ferro foi o que menos venceu o Campeonato Paulista.

Escrever sobre o Corinthians dos anos 50 merecerá um capítulo a parte, então, sem muitas delongas, citarei a representatividade de tal período. De 1950 a 1959 a mais importante competição era o Torneio Rio-São Paulo, com os corinthianos sendo os recordistas em conquistas, com 3 títulos (1950 e 1953/54). Foi também por 3 vezes campeão paulista, tendo uma concorrência que não era das mais fáceis. É importante dizer que na década de 50 todos os times grandes de São Paulo (incluindo a Portuguesa) e do Rio de Janeiro (incluo também o America) foram campeões estaduais e (ou) interestaduais, sempre contando com fortes elencos. Apenas o Flamengo ganhou um Tricampeonato Estadual (1953/54/55), para se entender o quanto existia equilíbrio na época, o que valoriza ainda mais os feitos da equipe corinthiana. De 1951 a 1958 ficou sem perder para o seu maior rival, o Palmeiras, no maior tabu dos dois na competição. Sem se esquecer das glórias internacionais que ainda serão citadas. O único título importante que faltou ao Corinthians foi a Copa Rio, conquistando um honroso Vice-Campeonato em 1952, mas que poderia ter vencido se jogasse completo, já que perdeu importantes jogadores na partida anterior, por causa da violência de certo time uruguaio conhecido como Peñarol.

O ano de 1960 iniciava com a fila de títulos paulistas já pesando, mas com a certeza do dever cumprido, com glórias até então não alcançadas por nenhum outro time brasileiro. De fato sempre foi um clube “com” História. A longa espera de títulos não foi dura apenas pela fidelidade da torcida corinthiana, mas também pelo o que representava a agremiação, a maior do Brasil, tendo que viver um período que não combinava com seus anos tantas vezes campeã.

Coluna do Maurício Sabará Markiewicz

Por Maurício Sabará Markiewicz

Nascido em São Paulo no dia 12 de janeiro de 1976, jornalista formado e profundo conhecedor da história do Corinthians. Autor do livro sobre ilustre corinthiano: 'O Generalíssimo Amilcar Barbuy'.

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