Todos ricos como nunca; O Corinthians pobre como sempre

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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Todos ricos como nunca; O Corinthians pobre como sempre

Balbuena e Rodriguinho: nomes que a diretoria considera que 'não tem como segurar'

Foto: Daniel Augusto Jr. / Agência Corinthians

O Brasil fornece jogadores para o mercado global como se fossem nossas outras commodities. Não é muito diferente do que ocorre em outras áreas do nosso modelo de capitalismo precarizado. Perdemos jogadores para o mercado europeu, para o Oriente Médio, para a Ásia e até mesmo para outros países também considerados emergentes - ou decadentes - depende do ponto de vista.

Somos a base da cadeia alimentar no mercado global do futebol, vulneráveis à toda sorte de predadores.

Vários fatores estruturais da nossa economia são definitivos para a nossa incapacidade em manter jogadores e treinadores de sucesso. A crise econômica no Brasil, a má gestão da maioria dos nossos grandes clubes de futebol e a diferença cambial para outras moedas, mais valorizadas, são alguns desses fatores decisivos.

No caso do futebol europeu, existe outro aspecto importante. Ao jogarem nos grandes clubes da Europa, os jogadores se convertem em atletas globais, para além dos mercados domésticos.

Mas existem aspectos sociológicos também. Vivemos um tempo histórico em que o dinheiro vale mais que a glória. Aliás, o dinheiro vale mais que tudo e poderia justificar quaisquer escolhas ao longo da vida de um indivíduo. A prosperidade material individual é muito mais valorizada do que os grandes empreendimentos coletivos e a realização de grandes feitos. Isso não serve apenas para o futebol.

Isso virou um consenso tão grande em nossa sociedade que soaria como absurdo sugerir que o ex-técnico corinthiano Fábio Carille tivesse escolhido conquistar outros grandes campeonatos no Corinthians, ou mesmo ser um eventual sucessor do Tite na Seleção, depois da Copa do Mundo, ao invés de se transferir para as arábias por dois caminhões de dinheiro.

Nenhum feito, nenhuma glória, nenhuma realização poderia, segundo os valores hegemônicos dos dias atuais, substituir os benefícios e privilégios de possuir dois caminhões de dinheiro. As pessoas valem mais hoje pelo o que possuem do que por suas realizações pessoais, seus conhecimentos e suas capacidades. As coisas são assim e pronto. É muito simples. Ninguém sequer permite questionamentos ou reflexões. É como se essas coisas fossem elementos da natureza, não valores coletivos construídos historicamente.

Particularmente, acho que nunca fomos tão miseráveis como nos dias atuais.

Pois bem, não serei eu a questionar as leis gerais da vida moderna. Pelo menos não nesse espaço.

Vamos admitir então que as coisas sejam assim e pronto. Que às pessoas e às instituições caibam apenas maximizar seus interesses econômicos a alcançarem o melhor resultado possível.

Por que então, nesse mercado tão rico do futebol, com tanta gente se dando bem, o Corinthians se deprecia tanto?

Com tantos jogadores valorizando seus gols, tantos treinadores valorizando seus currículos, tantos empresários ganhando dinheiro com seus contratos de direitos federativos, com federações vendendo os direitos de transmissão, televisões vendendo cotas de publicidades, por que justamente o Corinthians não valoriza a vitrine que sempre foi?

Ora, sei que o leitor pode responder à essa altura, o Corinthians está entre as maiores receitas financeiras do Brasil. Dinheiro entra.

Sim, é verdade que nas últimas décadas o Corinthians aumentou de maneira importante suas receitas, o que torna absolutamente incompreensível seu permanente endividamento que se agrava a cada ano. Isso sem falar na questão do estádio que é mais complexa ainda.

No entanto, amigo corinthiano, o que é absolutamente revoltante, é o fato de que tantos ganham muito dinheiro e fazem seus nomes às custas do Corinthians, mas nosso querido clube continua sempre catando moeda.

Se as leis do mercado são de maximização dos lucros, por que o Corinthians não tem sua importância relativa na geração desses grandes negócios valorizada como deveria?

Não dá pra segurar jogador quando ele quer ir? Tudo bem. Mas por que todo mundo ganha dinheiro e o Corinthians só perde, mesmo sendo ele [o Corinthians] que fez o nome de tanta gente?

Pensemos bem, quantos jogadores, treinadores e empresários que ficaram famosos e fizeram grandes contratos saindo do Corinthians que, antes de passar por nosso clube, eram absolutamente desconhecidos? Ainda que alguns não fossem totalmente desconhecidos, estavam num patamar de exposição bem inferior. Vejam bem, não estou dizendo que eles não mereçam ganhar essa grana e “garantir o futuro” de suas famílias [coloquei aspas pois a história mostra que não há garantia alguma], mas porque as estrelas que formamos saem de maneira tão facilitada sem uma recompensa contratual para o Corinthians?

O futebol é assim mesmo? Depende. Outros clubes, mesmo do mercado de futebol brasileiro, vendem muito melhor do que o Corinthians. Na última década, puxemos pela memória, quantos ídolos se foram e o Corinthians só aumentou a sua dívida, aproveitando-se muito pouco desse sucesso?

Sei que existem justificativas na ponta da língua. Que para trazer grandes jogadores só é possível fazer, muitas vezes, estipulando multas contratuais baixas que não se configurem como impeditivo de negociações futuras para os jogadores e empresários.

A situação atual do Corinthians, em termos de endividamento, é prova elementar de que essa estratégia deve ser revista.

Se tivéssemos trazendo jogadores consagrados e utilizássemos esse expediente para garantir contratações pontuais com considerável impacto, a estratégia poderia até se justificar. Mas se o perfil dos jogadores que o Corinthians tem colocado em seu elenco – modelo de sucesso, inclusive – é de atletas promissores e em ascensão sem status de consagração, por que então não nos associarmos a esse potencial de sucesso para que em eventuais assédios irrecusáveis de outros clubes, o Corinthians não seja devidamente recompensado financeiramente, ao invés de ficar apenas prejudicado?

Em geral, toda vez que o Corinthians tem um ano vitorioso, no ano seguinte isso acaba por virar uma espécie de maldição e pagamos o custo por nosso sucesso. Aí levamos um ano ou dois para montar outro time. Tem sido assim nos últimos anos. Contratamos novos atletas profissionais, em geral com um perfil emergente, alguns desses jogadores se consagram, fazem suas vidas, mas o Corinthians sai do processo mais pobre do que entrou. Se todo mundo se dá bem, por que só o Corinthians se dá mal?

Certamente, o Corinthians teve um papel fundamental no sucesso de muita gente. Claro que o clube também recebeu o bônus de muitos títulos conquistados nos últimos anos. Mas não é inteligente do ponto de vista financeiro essa vitrine valer tão pouco nas negociações e jogadores e treinadores saírem de maneira tão fácil e quase sempre o Corinthians receber uma recompensa tão baixa.

Obviamente, estou partindo do princípio que as negociações são absolutamente idôneas e essa frustração de resultados econômicos seja tão somente fruto do que pessoalmente acredito ser um erro estratégico.

Mas é possível sim o torcedor corinthiano se perguntar e até se estranhar o porquê de vendemos nossos ídolos em potencial por valores relativamente tão baixos e quase sempre para mercados periféricos do futebol global. Isso não é de hoje. É quase que uma característica histórica! A percepção é sempre de que vendemos mal, muito mal!

Já perdemos Carille. Agora existe o risco eminente de perdermos outros jogadores que são pilares do atual elenco. O próprio presidente já avisou, “não tem como segurar”. Mas por que temos multas tão baixas nos contratos dos jogadores? O que justifica? Quando o Corinthians quer comprar de alguém é a coisa mais difícil do mundo. Quando é pra vender as coisas são escorregadias.

Sejamos sinceros, sem nenhuma crítica aos jogadores por seu próprio sucesso. Que eles sejam muitos felizes em suas vidas e carreiras. Mas no elenco atual, qual a justificativa para estabelecermos contratos tão frágeis. Qual a projeção que tinham jogadores como Balbuena e Rodriguinho, por exemplo, antes de jogarem no Corinthians? Usei esses exemplos pois atualmente são os jogadores mais assediados. Repetindo, não estou dizendo que eles não sejam merecedores do próprio sucesso e que não tenham direito de fazerem grandes contratos depois do Corinthians. Mas não foi nosso clube que revelou para o mundo esses jogadores? Por que não compartilhamos esse sucesso?

Vou mais longe, olhem para a Seleção Brasileira: alguém conhecia o Paulinho (grande Paulinho, monstruoso Paulinho) antes dele jogar no Corinthians? Renato Augusto jogou no Flamengo, mas sejamos sinceros, era tão famoso assim? Sem os anos que jogou no Corinthians, seria jogador de Copa do Mundo? E o Tite? Tinha esse status de unanimidade nacional? Edu Gaspar seria coordenador técnico? Ainda tem outros nomes por lá como o Cássio, Fagner, Marquinhos, William (esse foi até vendido por um valor maior), isso porque o Gil acabou não sendo convocado.

Todos são nomes que admiramos. Fizeram muito pelo Corinthians. Temos sentimento de gratidão. Certamente merecem o sucesso que conquistaram.

De forma nenhuma quero tratar os ídolos que se consagraram nos últimos anos como oportunistas. Que isso fique claro! Eles estão certos, o Corinthians é que está errado.
Nada mais natural que jogadores e técnicos façam o melhor para suas vidas. O que não podemos admitir facilmente é que o Corinthians não faça o que é melhor para seu desenvolvimento. Que não tenha uma estratégia adequada para se beneficiar do sucesso que proporciona.

Ao longo dos anos têm sido assim. Muitas fortunas foram construídas. Não é justo que o Corinthians esteja sempre nesse estado desesperador financeiramente.

Veja mais em: Diretoria do Corinthians.

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Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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