Memórias do Japão

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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Memórias do Japão

Memórias do Japão

No Japão, comemoramos nosso segundo título mundial

Foto: Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

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Depois de um sábado frio e chuvoso, o domingo amanheceu incrivelmente lindo e ensolarado. O dezembro japonês não é para os fracos. O frio castigou durante toda a semana. Quem esteve no estádio de Toyota na quarta-feira anterior, certamente passou um dos frios mais absurdos de todos os tempos. Obviamente, me refiro aos corinthianos erradicados no Brasil que já encararam noites muito geladas no Pacaembu. Noites frias que custaram muitas dores de garganta e até pneumonias durante os anos de peregrinação corinthiana.

Quando estávamos no estádio, bem atrás de onde Guerrero fez o gol contra o Al Ahly, uma japonesa nos presenteou com um adesivo que quando aplicado na espinha, surpreendentemente começa a nos aquecer. Coisa de japoneses.

Eu estava vestido com diferentes camisas históricas do coringão. Uma sobre a outra. No mais, vestia um jaquetão do Corinthians e outras duas toucas. Umas três meias e duas calças.

Não sei quanto a vocês, mas eu tenho meu arsenal próprio da sorte. Uma camisa nova não pode estrear em jogo decisivo, ela tem que ser testada antes. Aí vai progredindo, ganhando confiança, vive seus primeiros grandes jogos, ganha um campeonato, te acompanha também em algumas tragédias e depois fica apta a ser usada em dias de glória, de ansiedade e desespero. Eu estava vestido com as roupas e as armas de Jorge. Estava vestido com todas as minhas camisetas da sorte. Sim, claro, porque precisávamos de sorte, mas também porque eu queria me proteger do frio que foi realmente intenso. De repente olho para o lado e vejo um coringão sem camisa. Meu Deus!

Não foi somente o frio que deixou recordação naquele jogo em Toyota. O Corinthians entrando em campo certamente foi um dos momentos mais sensacionais da minha existência. Um filme passou na minha mente. Tudo o que eu havia vivido na minha vida de corinthiano. Tudo o que já passamos. Tudo o que falaram da gente. As noites também frias no Pacaembu. Os primeiros jogos do Corinthians que fui pendurado no colo do meu pai. Os jogos de glória, mas também os jogos com estádios vazios, com chuva, contra times pequenos, com o jogo sendo transmitido ao vivo na televisão e eu lá com meus irmãos em Corinthians, apoiando e vibrando.

Agora estávamos lá, naquela paisagem de ficção científica. Uma verdadeira invasão corinthiana. Mais uma. Era um congraçamento. A vitória de um povo. Estávamos lá. Era verdade. O dinheiro deu um jeito e alcançou. Depois vê o que se faz com as contas. O Corinthians entrando em campo foi épico. Eu chorava de verdade. As lágrimas escapavam, pulavam, saltavam, brotavam. Olhei para meus amigos que passaram esses anos ao meu lado no estádio. Eram os mesmos que me ajudaram quando eu não tinha dinheiro pra comprar um ingresso. Eles também choravam. Depois vi na televisão a cena do Casagrande chorando durante a transmissão, falando do Sócrates. Chorei mais ainda. O Casagrande sempre foi meu grande ídolo e quando criança sempre tentei imitá-lo. Como eu nunca cresci... Até hoje gosto de brincar como centroavante por causa dele. Pena que não chego perto de honrar o futebol que ele tem. Sou incrivelmente ruim. Um dia escrevo um texto só sobre o Casagrande. O ofício de comentarista é foda. Parte da torcida vive xingando e não entende muito bem o que ocorre. A verdade é que o único homem coerente é aquele que morre cedo. De resto, estamos todos vivendo para cometer erros e imensas contradições.

Voltando ao domingo. Logo pela manhã foi possível guardar os casacos. O sol brilhou durante todo dia e anunciava a noite incrível e especial que chegaria.

Caminhar pelas ruas de Tóquio e Yokohama era tarefa agradável. O céu azul fazia um lindo contraste com as árvores de folhas amarelas que caiam suavemente sobre as calçadas das ruas limpas e bem cuidadas, com seus detalhes invariavelmente delicados.

Como trabalho com políticas públicas, pensei: Como será que a prefeitura local trabalha tão bem? Seria interessante fazer um workshop ou uma visita técnica para entender como funcionam os processos de gestão deles. Como conseguem cuidar tão bem de cada detalhe tão mínimo. Que cidade. Mas, foi só caminhar mais um pouco e obtive parte das respostas que precisava. Nas praças públicas, os idosos plantavam flores nos jardins. Outros varriam as folhas das calçadas. Vestiam jardineiras. Era assim que desfrutavam seu dia de descanso. Vestindo chapéus simples, agachavam-se no solo, mexendo com a terra e nos saudavam com um sorriso, baixando levemente suas cabeças, num movimento delicado e sutil. É um jeito diferente de encarar a vida que compõe toda essa diferente experiência social. Não se fuma na rua. Quem quiser que fume em casa, ou dentro dos restaurantes e até do metrô que tem uma espécie de aquário com exaustor para os fumantes. Como assim você vai fazer na rua o que você não faz em casa? Para nós, o importante é o espaço privado. Lá cuidamos. Nos orgulhamos da nossa casa limpa e arrumada. Depois que apertamos a descarga ou colocamos o lixo pra fora é outro departamento. Tanto faz o que acontece depois. O espaço privado é seu. O público não é de ninguém. É o predomínio do espaço, das relações e da experiências privadas sobre a pública. Lá é diferente. O importante é o público. Não por acaso levam tão a sério a questão da honra e da vergonha. Por isso alguns se suicidam quando a desonra pública se torna insuportável.

Lá no Japão, as ruas não têm lixeira. Se você quiser algo descartável, o lixo é seu. Simples assim.

Ok, tudo bem. Não vou ficar aqui fazendo reflexões sociológicas quando todo mundo quer saber mesmo é daquele domingo corinthiano. Não vou mais falar das pessoas que cuidavam da rua pra deixá-la bem bonitinha e pareciam estar em paz com o mundo. Que ninguém falava dentro do Metrô e ele era mais silencioso que uma biblioteca. Todo esse silêncio é por educação, pra não atrapalhar a viagem do próximo. Por respeito. E pra quem tem alguma dúvida, sim, os Corinthianos em sua imensa maioria respeitaram mesmo o espírito e as normas locais. No fundo a gente trata o mundo como o mundo trata a gente. Os “Vai Corinthians” quando gritados eram cúmplices, direcionados na base do olho no olho, educados e serenos.

Quase tudo era serenidade no domingo japonês. Meu coração não estava sereno. Estava atormentado.

Por toda parte se viam corinthianos uniformizados da cabeça aos pés. A corinthianada estava espalhada entre edifícios modernos e máquinas eletrônicas que serviam todo tipo de alimentos e bebidas meio esquisitas. Algo entre o exótico e o industrializado. Tudo era novidade.

Era impossível olhar ao redor sem se deparar com um irmão mosqueteiro. O corinthianismo pairava no ar.

Definitivamente, era um domingo corinthiano. A ansiedade era grande, mas a confiança também.

A invasão era perceptível, incontestável e efetiva. De certa forma, o grande feito da nação corinthiana em levar tanta gente para tão longe já era uma consagração das maiores e aliviava, malandramente, a barra da responsabilidade pela conquista.

A grande vitória já havia sido alcançada. Tudo era pura magia. Perder ou ganhar estava sob o domínio do imponderável. A roda da fortuna, desvairada, rebelde e imprevisível que não podemos conduzir nem controlar.

Em Akihabara, tradicional bairro de venda de novidades eletrônicas, o impacto foi tão grande que a mais tradicional loja da região colocou o Hino do Corinthians no último volume para atrair os novos clientes. As prateleiras tinham placas em português e os funcionários vestiam a camiseta do clube. O único vendedor que falava português estava esgotado e não suportava mais atender aos clientes. E olha que o cara estava acostumado com o padrão de trabalho japonês...

Os nipônicos entraram na onda. Logo aprenderam a gritar "Vai Corinthians!”. Durante aquela semana mágica do Mundial da FIFA, os Japas foram se identificando e aprendendo mais sobre esta força da natureza chamada Corinthians.

Na chegada ao estádio, no dia do jogo decisivo, logo na saída do Metrô, as tendas da FIFA vendiam produtos dos dois times, Corinthians e Chelsea.

Os japoneses deveriam decidir ali para quem iriam torcer. Era compreensível que a maioria chegasse disposta a torcer pelo clube inglês. Enquanto o Campeonato Brasileiro e a Libertadores da América são torneios muito pouco difundidos no país, a Liga Inglesa e a Copa dos Campeões da Europa têm exposição garantida para estes grandes consumidores.

Todo mundo que vive em São Paulo tem um amigo japonês.
Quem os conhece, sabe que eles estão divididos em dois tipos básicos:
Eles podem ser certinhos. Nunca "mijam fora do penico". Tem suas ações e compromissos minuciosamente planejados. São obstinados e perseverantes.

O segundo tipo parece que nasceu "fora da casinha". Apesar de carregarem consigo as qualidades do primeiro grupo, sendo talentosos e inteligentíssimos, são mesmo é da "pá virada”.

Pois bem, o contraste ali, nos arredores do jogo, também era evidente.
Os japoneses que não mijavam fora do penico já chegavam ao estádio vestidos de azul. Estavam dispostos a assistir um espetáculo desportivo. Usavam adereços do Chelsea como usariam do Chicago Bulls, caso a partida fosse de basquete, ou da Ferrari, caso se tratasse de Fórmula 1.
Porém (ah porém), os japoneses da pá virada se envolveram com o corinthianismo que pairava no ar. Foram às compras e em poucas horas não se encontravam mais os produtos do Corinthians. Abriam uma latinha de Biru (cerveja) e se jogaram na experiência, única e definitiva de ser CORINTHIANO!

A chegada ao estádio foi mágica.

A paisagem futurista dava a exata percepção que havíamos chegado a um lugar muito diferente, porém muito antes imaginado.

Tal qual em um “deja vu”, era possível reconhecer de alguma forma aquela paisagem incomum. Era um lugar que havíamos sonhado muitas e muitas vezes.

No entanto, existiam elementos e forças naturais que davam a certeza de que estávamos em perfeita conexão com nosso lugar na terra.

No céu, uma linda lua minguante brilhava escandalosamente. Uma lua como eu nunca havia visto. Certamente, São Jorge estaria presente. Se não escancarando aquela baita lua cheia, mas com uma maliciosa lua minguante e insinuante no coração da fiel.

Em terra, na frente do estádio, a paisagem era ao mesmo tempo fantástica e conhecida. A torcida fazendo o famoso "esquenta" antes do jogo. Muita gente, muitas bandeiras. Batucada e vibração. Era incrível. Absurdo! Estávamos em casa. Ainda que estivéssemos 20 mil quilômetros distantes.

O espetáculo montado era muito bonito. A entrada dos clubes é emocionante. O potente sistema de som do estádio caprichava na trilha sonora. Espetáculo fascinante. Mas a fiel queria mesmo era gritar, ser ouvida e também se ouvir. Gritar, àquela altura, era fisiologicamente necessário.

Logo os ingleses tiveram exata percepção da realidade. A galera presente em todas as partes do estádio, disposta a, mais do que apoiar, se doar pelo clube neste momento tão esperado de sua história.
Não cruzamos o planeta para assistirmos ao jogo como simples espectadores. Havíamos sofrido demais durante anos para chegarmos até ali.

Éramos parte integrante e imprescindível do Coringão que vestia seu uniforme tradicional. Sem invenções. Da maneira como aprendemos a amá-lo.

Bem que poderia ser com a camisa preta com listras brancas. A preferida pela maior parte dos corinthianos doentes, estupidamente vilipendiada por algum "gênio" do marketing.

Enfim, o sistema de som do estádio foi interrompido. Os protocolos da FIFA já haviam sido cumpridos.

Fair Play é muito bom. Mas até isso tem limite.

Logo, um grito ecoou no estádio de Yokohama. A torcida cantava:

É Fuck You Chelsea!
É Fuck You Chelsea!
É Fuck You Chelsea!

O xingamento inglês, aprendido nos exaustivos enlatados cinematográficos americanos, era agora ressignificado e usado contra o time inglês.

Certamente, fomos deselegantes naquele espetáculo tão dedicado a promover a confraternização entre os diferentes povos.

Acontece, que sabemos que certos pacifismos são muito interessantes aos poderosos que podem controlar todas as situações.

Os imperialistas gostariam mesmo que todos os colonizados fossem muito gentis e tolerantes.

Mas, quem nasceu lutando pelo direito de existir sabe muito bem que certas rebeldias e malcriações são absolutamente necessárias para garantir a sobrevivência.

Sendo assim, no contexto daquela partida, a ofensa era parte fundamental para mostrar aos nossos jogadores que não deveríamos respeitar tanto o adversário inglês.

Essa geração de jogadores, criada na base do videogame, tem conferido exagerada admiração pelos jogadores europeus.

Eu estava lá na hora em que começou o “Fuck You, Chelsea”. Estávamos caminhando por uma rua próxima ao estádio. Quando percebemos, havia um pub repleto de torcedores azuis. Encontro de torcidas? Ah, foda-se, vamos lá. Era o caminho para o estádio. Talvez todos os torcedores do Chelsea que haviam ido para o Japão (uns 500) estavam lá em frente ao bar. Fomos caminhando e nos aproximando. Eles estendiam as mãos e diziam: “good luck! Good luck!”. Quando menos esperava, veio um inglês bem loiro até mim e esticou a mão para que eu o cumprimentasse. Fui bem deselegante. Coloquei os dois braços para trás e disse: “after, after”. Olhei ao meu redor e percebi que nenhum corinthiano estava estendendo às mãos aos britânicos. De repente um gênio começa: “Fuck You, Chelsea”. Outros também começam a gritar: “Fuck You, Chelsea”. Aí o coro foi inevitável: eeeeee, fãquiul chelseeeee”

Pensei: “Puta que pariu, hoje o Corinthians não perde”. Ao fundo só se ouvia “EEEEEE fuckiul, chelseeeee”. Exatamente naquele momento tive a exata percepção que seríamos campeões.

Certamente, não faríamos como o Santos, um ano antes. Os brasileiros praticamente cortejaram os astros do Barcelona durante toda a partida e se desculpavam a cada falta cometida.

Eu estava muito nervoso. Meu estômago doía. A torcida gritava; “Vamos Corinthians, nessa noite teremos que ganhar”. Comecei a pirar. Todo mundo sabe que quando o Corinthians joga durante o dia se grita: “Esse jogo teremos que ganhar”. Então pensei: Será que nós aqui deveríamos gritar “esse jogo teremos que ganhar”, porque no Brasil ainda era manhã de domingo, ou a galera no Brasil deveria gritar “essa noite teremos que ganhar”.

O jogo estava muito difícil para o Corinthians. Mais difícil do que eu imaginava. Certamente, se não fosse toda a energia positiva que cruzou o planeta e se conectou com o Cássio aquela noite, teríamos tomado uns três gols já no primeiro tempo.

Teve um chute na grande área à queima roupa e eu não vi onde estava a bola. Foi muito forte. Deve ter sido gol. Não foi. O Cássio defendeu não sei como. Foi milagre.

A torcida vibrava duplamente a cada defesa. Primeiro em tempo real, no exato instante do lance. Depois quando a repetição aparecia no telão. Fantástico e emocionante. Aquela ponte que o Cássio deu que entrou para a história. Minutos depois ela apareceu no telão. Se ouvia no estádio o frisson: óóó.

O jogo era muito parelho, mas durante o primeiro tempo, o Chelsea chegou com maior ameaça ao gol do Corinthians.

Mas ninguém ficou apavorado.

Nossa torcida jamais esperou goleada em nenhuma circunstância. O Corinthians joga o jogo como a gente joga a vida. Sendo assim, a dificuldade, a persistência, a luta e a superação são elementos necessários para a combustão de nossa paixão.

Além do mais, a torcida entendeu o jeito de jogar do esquadrão comandado por Tite. E como sempre, a fiel joga junto.

Esse time no futuro, certamente, será um dos mais queridos da nossa história. Verdade seja dita, o time campeão da Libertadores e do Mundial 2012 não supera em número de craques de outros esquadrões que já tivemos ao longo da história. Porém, era um time de jogo muito coletivo. Um time sério, sem frescura. Um time aplicado. Um time simples, mas que tudo poderia superar. Era um time com a cara do corinthiano.

Era preciso ganhar essa partida aos poucos. Convencer o oponente que seria possível nos vencer, porém frustra-lo a cada tentativa. Devastar emocionalmente o adversário. Resistir.

Depois, seria encontrar a oportunidade correta para dar o bote. Aniquilar a peleja.

Para isso, contamos com a gana coletiva e com uma inabalável presença de espírito. Uma força imaterial que nos abre todas as portas. Protege-nos dos inimigos e converte o Corinthians em uma energia inatingível!

No intervalo de jogo entrei em transe. Comecei a chorar copiosamente. Talvez medo. Talvez fragilidade. Lembrei-me do meu pai e queria que ele estivesse ali comigo. Senti um pouco de remorso por estar sem ele. Rezei devotamente para que o Corinthians ganhasse. Havíamos vivido tantas coisas. O Corinthians precisava vencer. Pedi à Deus. Fiquei alguns instantes em silêncio.

Na verdade, acho que todos os corinthianos estavam na mesma vibração. Quando começou o segundo tempo não precisou ninguém mandar a torcida ficar de pé. Os japoneses tiveram que se adaptar e exercitar as pernas. Não precisou ninguém pedir para a torcida gritar.

Tinha chegado a hora da verdade. Havia uma consciência coletiva que aquele era o momento. Não haveria amanhã. Tudo se realizaria. Era o dia que mais esperamos em nossa vida. A sensação era de juízo final.

Na boa, a fiel é foda. A torcida apoiou muito no segundo tempo. “Vamos jogar com raça e com o coração. É o TIME DO POVO, é o coringão”. A torcida se encheu de raça e de coragem. Eu não mais chorava. Agora estava com sangue nos olhos. Iríamos executar o adversário. Iríamos superar todos os fantasmas.

E o Corinthians foi controlando o jogo. Aquele jogo do Tite que a gente já conhecia. Foi envolvendo. O final disso, a gente já sabia como é. Faz o gol e depois se fecha.

Mas, me lembro que instantes antes do gol fiquei muito preocupado com um possível contra-ataque do Chelsea. Na posição em que eu estava no estádio podia ver toda a organização tática do Corinthians. O time havia avançado todas as suas linhas. A bola foi sendo tocada e parou nos pés do Chicão. Se ele errasse o passe, talvez a história fosse outra. Gritei: Calma! Mas ele deu um belo passe, mesmo sendo o último homem da linha defensiva. Depois se iniciou uma tabela linda entre o Paulinho e o Jorge Henrique. Quando o Paulinho recebeu de volta a bola e apontou na frente da área já se ouvia vários “vai, vai, vai”. Sobrou para o Danilo. É agora. “Vai, vai”. Chutou. A bola saiu prensada. O goleiro adiantado. Aí a bola parou no ar. Na minha memória passou uma eternidade. O filme da minha vida. “Vai, faiz, faiz, faiz”.

É GOOOOOOL. Puta que pariu foi gol. Eu lembro de apenas dizer: aconteceu! Aconteceu! Aconteceu! Havia acontecido tudo aquilo que eu mais esperava na vida. Aconteceu o que estava reservado pra nós. Aconteceu de sair o gol que estava sendo maturado. Aconteceu o momento que vamos guardar pra sempre na memória. Aconteceu de Deus colocar na nossa vida aquele presente. Que alegria. Meu Deus do céu, que alegria. Obrigado, meu Deus. Obrigado! Obrigado! Nos abraçamos muito. Todos meus amigos que viveram tantas jornadas. Também estávamos no Rio de Janeiro em 14 de janeiro de 2000. Sabíamos que aquele gol que acabara de sair valia por dois campeonatos do mundo. Era a redenção. Todos chorávamos. Foi gol, meu Deus do céu. Que emoção. Eu viajei para o Japão com o pé quebrado. Usava uma bota ortopédica e uma muleta. Pisei com força no chão. Já estava curado. Era como se o capítulo mais lindo da novela da nossa vida estivesse passando bem debaixo dos nossos olhos. Nada podia ser melhor. Cada um dos Corinthianos do mundo tinha exata dimensão do tamanho da importância daquele momento.

Depois foi hora de segurar o Chelsea. Cássio operou mais milagres. Defendeu à queima roupa uma bola do Torres. O último lance do jogo foi uma bola na trave contra o Corinthians. Mas nada nos atingiria. Nada! Era o nosso momento. O momento do povo Brasileiro. Um momento especial. Depois daquele 2012 nunca mais as coisas foram iguais para o nosso povo. Mas, pudemos viver aquilo tudo.

Diziam que em 1910 o mundo iria acabar. Nasceu o Corinthians. Diziam que em 2000 o mundo acabaria. Fomos os primeiros campeões do mundo da FIFA. Em 2012 também havia essa história de fim do mundo. O Corinthians vence de maneira épica seu segundo título mundial. Dizem que o mundo acaba pra quem morre. Talvez o mundo tenha realmente acabado essas três vezes e fomos direto parar no paraíso.

O juiz apitou e foi uma festa linda. Ríamos com muita alegria. O hino do Corinthians sendo tocado do outro lado do mundo. A volta olímpica. Os fogos. Era tudo muito mágico. Era um sonho, realmente. Não parecia ser verdade. Desconfiava que fosse verdade. Até hoje eu penso se realmente aquilo tudo aconteceu. Se foi verdade mesmo. Se viessem com envelope cheio de dinheiro para me devolver o que gastei nessa viagem, eu não aceitaria. Se me viessem com um baú cheio de dinheiro e ouro para comprar as minhas lembranças. O dinheiro ficaria comigo, mas eu não lembraria mais de nada. Não aceitaria nenhuma cédula e nenhuma grama de ouro. Essa foi a paisagem mais linda que eu já vi. Certamente, antes de partir desse plano terreno, essas imagens passarão na minha mente. Talvez eu lembre de tudo até em outra vida. Se é fato que existem reencarnações, estou certo que em todas as próximas eu serei corinthiano!

Veja mais em: Títulos do Corinthians, História do Corinthians e Jogos Históricos.

Coluna do Rafael Castilho

Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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