TEU PASSADO É UMA BANDEIRA. TEU PRESENTE UMA LIÇÃO!

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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TEU PASSADO É UMA BANDEIRA. TEU PRESENTE UMA LIÇÃO!

Em 83, jogadores carregaram a faixa com os dizeres: 'Ganhar ou perder, mas sempre com democracia.' A mesma faixa presente na Arena, neste domingo.

Foto: Acervo/Corinthians

Estava coordenando uma reunião do Núcleo de Estudos do Corinthians, o nosso querido NECO, um projeto que se dedica a estudar a história do Corinthians e sua relação com a sociedade brasileira, em seus diferentes períodos e processos de formação. Na ocasião falávamos sobre a Democracia Corinthiana.

No meio do encontro que ocorria na sede social do Sport Club Corinthians Paulista, um rapaz negro se levantou e pediu a palavra. O jovem corinthiano disse algo assim:

- Olha, queria dizer uma coisa pra vocês. Até algum tempo eu nem sabia direito o que era democracia. Não sabia se era coisa boa ou se era coisa ruim. Até porque, no bairro onde eu moro as pessoas têm preocupações mais urgentes, como saber se haverá o que comer ou se nosso barraco vai deslizar ou não. Também é engraçado falar que vivemos em uma democracia, quando todo dia alguém leva um esculacho. Outro dia um guarda ameaçou me prender porque eu não tinha a nota fiscal do meu notebook. Eu me pergunto, algum jovem branco de classe média precisa carregar consigo a nota fiscal do notebook?

Àquele momento já fiquei comovido com o depoimento. Entendi sua visão crítica com nossa noção de democracia, muitas vezes distanciada da realidade das camadas mais pobres. Mas o rapaz emendou com uma frase que eu nunca mais vou esquecer na vida:

- Então, não sabia dizer se democracia era coisa boa ou ruim. Mas, quando eu vi que existia a Democracia Corinthiana percebi que a democracia só podia ser coisa boa. Aí fui estudar tudo o que ocorreu antes e depois do movimento da Democracia Corinthiana e decidi que a democracia era sim uma coisa boa!

O Corinthians é uma janela por onde muita gente aprende a enxergar a vida. Desde o seu surgimento, ou melhor, desde os momentos que antecederam sua formação, o Corinthians já atendia a um propósito muito maior do que a necessidade de recreação. Naquele período, muitos clubes surgiram. O Corinthians se manteve firme e se tornou grande, sempre altaneiro, pois é antes de qualquer coisa um grito, uma bandeira, uma lição.

Nesse dia 31 de março de 2019, durante o jogo contra o Santos, o Corinthians escreveu mais uma linda página de sua história ao corajosamente exaltar a democracia, em meio ao crescente movimento de revisionismo histórico acerca da Ditadura Civil e Militar do Brasil, que se iniciou na mesma data em 1964.

O Corinthians passou uma mensagem linda de liberdade para a nossa gente. Muita gente aprendeu muito com o que ocorreu domingo.

Engana-se quem pensa que a defesa da democracia e a denúncia e enfrentamento à ditadura sejam necessariamente ou exclusivamente pautas das esquerdas. Não são!

Necessário se faz entender a história. Dessa forma, evitamos dizer bobagens.

A democracia, o respeito às liberdades, a procura pela igualdade, são condições necessárias para a prosperidade do próprio capitalismo.

No Brasil tentou-se, desde sempre, construir um capitalismo que fosse capaz de modernizar o país, mas sem transformar as estruturas marcadas pela escravidão e pela desigualdade. Realizamos a construção de um capitalismo que não teve a mediação ou a transição do iluminismo. Construímos um modelo muito particular (e muito perverso) marcado pelo consumo, mas sem elementos de cidadania. Um modelo em que poucas fatias da população consomem muito e as grandes massas não tem acesso aos bens de consumo e, também, sem o mínimo de garantias sociais. As promessas desse capitalismo acabam sendo impossíveis de serem realizadas, pois não permitem o acesso de grandes contingentes da população que sequer dispõem da educação de qualidade, por exemplo. A não realização dessas promessas provocam o sentimento de injustiça, frustração, exclusão e violência.

Vivemos num período histórico em que se constrói um consenso estúpido de que o nazismo seria coisa de esquerda. Ora, tal estupidez é absolutamente explicável na medida em que não se entende sequer que a democracia e a igualdade fazem bem para a prosperidade do próprio capitalismo.

Porém, aqui fomos capazes de construir um capitalismo sem elementos clássicos e necessários do desenvolvimento capitalista. Podemos destacar alguns deles. Ao invés da competição, aqui temos o monopólio. Ao invés da impessoalidade, aqui permanece o “quem indica”. Ao invés de instituições com normas comuns a todos os cidadãos, imperam o favor e o jeitinho. Tenta-se até hoje tornar possível uma abstração que é o capitalismo sem mercado interno. Um mercado com riquezas e privilégios tão concentrados, que muitas vezes não tem para quem vender suas mercadorias e serviços.

São nossas contradições. Quem defende o desenvolvimento é chamado de comunista. Quem se considera liberal, acaba por ser escravocrata. Quem se diz patriota é entreguista. Quem se diz nacionalista é subserviente.

Liberalismo, sem direitos humanos, sem liberdades, sem democracia. Capitalismo sem mercado interno. É a mesma coisa que Corinthians sem povo.

O Corinthians fez muito bem em se manifestar. Merece o apoio de todos os Corinthianos.

Claro que esse gesto gera incompreensão de uma parte da torcida (felizmente não é a sua maioria). Porém, quando o Corinthians defende a democracia está defendendo a sua história. Como disse na minha última coluna, o Corinthians não pertence a nenhuma corrente ideológica, a nenhuma filiação partidária. O Corinthians é diverso e plural, como o nosso povo. Mas é preciso estudar a história do Corinthians.

Senão a gente corre o risco de se comportar como o fã do Roger Waters que foi ao show e ficou bravo com o cantor por defender os direitos humanos. Ou seja, foi ao show, mas não tinha prestado atenção na obra do artista.

A luta dos trabalhadores que construíram o Corinthians, muito provavelmente não tinha uma unidade ideológica, mas é possível dizer sem sobra de dúvidas que era o esforço de um povo que se organizou para acessar, pertencer, afirmar sua identidade e ser reconhecido. Ocupar espaços restritos e de privilégio que não podiam acessar. Construir um espaço que fosse deles. Ser a bandeira e a voz de sua gente.

Quem lê as atas das primeiras reuniões do Corinthians verá DOCUMENTADO HISTORICAMENTE um sistema decisório democrático, muito mais participativo do que o que ocorria no conjunto da sociedade brasileira naquele período. Quem estudar esses documentos verá que os jogadores (que também eram sócios) votavam democraticamente para escolher o técnico da equipe. Verá também que as principais decisões que orientavam a vida do Corinthians naqueles primeiros anos eram submetidas ao voto dos associados. Sabem como era a votação? Em meio à reunião, o associado escrevia o seu voto num papel e depositava numa gavetinha da mesa de pingue-pongue. Não estou inventando, está tudo lá.

O Corinthians já tinha o futebol como principal esporte. Porém, segundo seus primeiros estatutos, deveria ter também uma biblioteca, local que naquela época não era somente um local de leitura, mas de confabulações, podemos dizer assim.

Ah, e as cores da camisa deveriam ser necessariamente o preto e o branco (só pra deixar registrado).

O sócio que não tinha dinheiro para pagar a mensalidade podia frequentar o clube, mas tão logo tivesse condições, deveria retomar os pagamentos e, quando possível, ressarcir os valores que estavam em aberto. Muitas reuniões ocorriam nos fundos de uma confeitaria. As reuniões ocorriam quase sempre tarde da noite, quando não nas madrugadas, assim como aquela reunião em 1910, sob a luz de um lampião, que transformou as nossas vidas. Sabem por que essas reuniões eram na madrugada? Porque eram todos trabalhadores. Tinham que sair do batente para depois se dedicarem a esse sonho lindo que enche nosso coração de esperança.

Essa realidade de um clube de trabalhadores era muito diferente a dos outros grandes clubes daquele período.

O Corinthians foi coerente com sua história. Fiel ao seu passado. Encheu de orgulho o coração da nossa gente. Deixou nítido que o Corinthians mantém a sua relevância e é um bastião pela luta de liberdade.

Há exatos 40 anos, um grupo de corinthianos corajosos levou para a arquibancada, também num jogo contra o Santos, só que no Morumbi, uma faixa escrita com os seguintes dizeres: “Anistia ampla, geral e irrestrita”. A polícia tentou tomar a faixa, os Gaviões defenderam no braço a faixa e protegeu a integridade desses corinthianos, entre eles o Antônio Carlos Fon e um dos fundadores dos Gaviões da Fiel, Chico Malfitane.

No NECO, estávamos tentando produzir um curta-metragem contando a história dessa faixa. A nossa ideia era abrir essa faixa novamente no estádio, dessa vez em Itaquera, para que pudéssemos fazer uma filmagem. Em 1979, mesmo durante a ditadura, foi possível abrir a faixa. Nós não conseguimos. Fomos impedidos pela polícia, mesmo com as garantias da Constituição de 1988. Outros torcedores sofrem isso na pele. Cada vez há mais restrição para a livre manifestação nos estádios.

Dá pra entender a importância de o próprio Corinthians, agora com seu estádio, ter se levantado e honrado o espírito de luta e de liberdade de seus fundadores.

Corinthians, seu passado é uma bandeira, seu presente é uma lição.

Corinthians grande! Sempre altaneiro, és do Brasil o clube mais brasileiro.

Orgulho danado de ser corinthiano!

Veja mais em: História do Corinthians.

Coluna do Rafael Castilho

Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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