O DNA corinthiano

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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O DNA corinthiano

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O DNA corinthiano

Sócrates, aos poucos e à sua maneira, foi impondo uma racionalidade ao jogo do Corinthians

Foto: Corinthians

Não é bem assim que a banda toca. Não é assim que o Timão joga.

Vamos recapitular algumas coisas para que não tiremos falsas conclusões das experiências recentes do Corinthians. Lições mal aprendidas tendem a ser perigosas.

É bem verdade que o Corinthians tem incorporado à sua cultura um certo jeito de jogar. Há pelo menos uma década, o time tem um padrão tático mais ou menos semelhante. Ocorreram variações técnicas que foram impostas pelas características dos jogos, dos adversários e dos jogadores do elenco, porém com um memorial tático e estratégico que tem se mostrado decisivo nos últimos anos. Ou seja, o Corinthians tem um jeito de jogar. Sabe construir resultados. Sabe se defender muito bem e procura ser cirúrgico nas ações ofensivas.

Isso não é pouca coisa, ainda mais se tratando de futebol brasileiro. A torcida corinthiana comprou essa ideia, incorporou essa cultura, sabe jogar junto, literalmente. Não apenas apoiando até o final do jogo, mas entendendo de fato como o jogo é construído, conhecendo cada momento e cada possibilidade. Apoiando, incentivando e jogando pra cima, mas também entendendo os momentos de reclusão, envolvimento do adversário e construção das condições necessárias para a vitória. Talvez nenhum jogo seja tão simbólico dessa sinergia quanto o jogo contra o Chelsea na final do segundo mundial no Japão. O Corinthians enfrentou um adversário com elenco mais qualificado, mas soube, desde o início, jogar com inteligência e construir o resultado. Estava no estádio naquela noite fria em Yokohama e me lembro que a torcida entendeu tudo o que ocorria em cada momento do jogo e foi decisiva inclusive em saber qual era exatamente a hora da decisão, a hora do abafa, o momento da execução. Aquilo foi mágico.

Em suma, o Corinthians se configura hoje como um dos poucos times do mundo (incluindo seleções) que possuem uma cultura tática. Um memorial estratégico. Uma ideia de jogo.

Porém, justiça seja feita, a construção dessa cultura sólida não se deu apenas na última década, marcada fundamentalmente pela tríade Mano, Tite e Carille. Bem antes disso o Corinthians começou a construir um novo ideal de jogo que foi gradativamente se consolidando.

Lembro-me de algumas entrevistas do Doutor Sócrates, quando perguntado de sua importância para a história do Corinthians e sua relação com a torcida, inclusive com momentos de cara feia de parte a parte. Sócrates disse que quando chegou ao clube, a torcida ainda carregava as marcas do sofrimento dos anos na fila. Havia muita volúpia e entusiasmo, porém também existia ansiedade e um comportamento afoito, esperando sempre que o Corinthians resolvesse logo o jogo e estivesse sempre no ataque. Se o Corinthians não estivesse à frente no placar, batia o desespero. Pudera, quem viveu o que viveu naqueles anos consegue entender. Certamente as memórias da torcida carregavam muitas tristezas e desilusões.

Sócrates, aos poucos e à sua maneira, foi impondo uma racionalidade ao jogo. Sua incrível inteligência permitiu transmitir isso desde dentro do campo para toda a atmosfera corinthiana. Com o doutor, fomos aprendendo a ser cirúrgicos.

Isso teve sim efeitos históricos. Em 1990 ganhamos o primeiro campeonato brasileiro de nossa história, sabendo ganhar jogo a jogo e fazendo valer talvez a nossa única arma efetivamente decisiva que eram as faltas e os lances geniais de Neto. O time era incrivelmente vibrante, mas não deixava de dispor de alguma “razão de jogo”.

Como também não lembrar do time de 2002 do Carlos Alberto Parreira, esse sim já muito mais parecido e próximo desses times dos últimos anos, em especial com o time de 2015.

A cultura transforma tudo, inclusive a constituição biológica dos seres vivos na terra. Essas experiências vividas pelo Corinthians certamente deixaram marcas decisivas. Já estão incorporadas em nosso DNA.

Mas é bom que se diga. A torcida tem apoiado a equipe de Carille, entendendo o momento de reconstrução. Na verdade, um momento de construção de um novo elenco.

Não é questão de o time jogar feio. Já nos acostumamos a apoiar times limitados que se superavam na garra e inteligência.

Não é questão do medo de não ser campeão. Será uma façanha incrível o tri campeonato. Algo que praticamente nenhum corinthiano vivo pôde assistir. Porém, o Corinthians tem ganhado títulos importantes nos últimos anos.

Não é somente questão de o time ser retranqueiro. Como eu disse, a torcida se incorporou a cultura tática dos últimos anos e aprendeu a jogar de acordo com a estratégia da equipe. Sacrifica-se, pois é muito mais gostoso ver um jogo ofensivo. Mas, faz isso pela equipe. Quantas torcidas do Brasil sabem apoiar um time que joga tantas vezes por uma única bola? Não por acaso essa bola acaba indo para o gol!

O Corinthians pode ter se acostumado a um jogo mais defensivo, a torcida pode ter desde sempre apoiado jogadores limitados e dar a força que falta para cada um deles, a gente pode ter comprado a ideia desse jogo tático. Mas o Corinthians que aprendemos a amar nunca deixou de ser valente. As equipes que tivemos, ainda com padrão tático mais defensivo, nunca deixaram de demonstrar coragem no jogo. Às nossas equipes campeãs nunca faltou inteligência para saber definir os jogos.

O Corinthians que aprendemos a amar, pode não ser um time de craques, pode não ser um time ofensivo. Mas, o Corinthians que aprendemos a amar nunca deixou de ser heroico. A marca do heroísmo sempre esteve em nossas conquistas. Queremos ganhar? Queremos ser campeões? Sim! Precisa ser dando show? Não! Mas precisamos ser heroicos. Precisamos da virtude dos grandes guerreiros. Precisamos da boa luta. Da guerra com valentia e se tivermos que morrer que seja como os espartanos, com glória de uma boa morte!

Aparentemente, o Carille que, desde o início, demonstrou imensa autoconfiança, agora com o prestígio em alta, deve estar mais do que convencido de suas ideias de jogo. Mas, para além de suas evidentes qualidades como treinador, de sua imensa capacidade, ele não pode fechar os olhos ao seu redor. Ele não está em qualquer lugar parado no tempo e no espaço. Aqui é Corinthians! É sangue no olho, é tapa na orelha, é o jogo da vida. O Corinthians não é brincadeira.

A chavinha vira muito fácil. As coisas estão muito mal e ficam boas. Da mesma forma, está tudo na normalidade, mas pode esquentar a chapa em dois minutos.

Sejamos heróis. Sejamos valentes. Esse jogo teremos que ganhar! Vamos Corinthians!

É hora de concentrar todas energias positivas para domingo. Vale muito a reflexão nesse momento. Esperamos encontrar no campo o Corinthians que aprendemos a amar.

Veja mais em: Especiais do Meu Timão.

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Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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